
O Despertar da Rainha Abandonada
Capítulo 3
Ricardo encontrou Sofia no hospital no dia seguinte. Não na clínica do aborto, mas no hospital geral, onde ela fora levada após desmaiar na rua. Ele parecia preocupado, mas seus olhos carregavam uma censura velada.
"O que aconteceu, Sofia? Você não está se cuidando?"
Antes que ela pudesse responder, Bianca surgiu ao lado dele, amparada por uma enfermeira, o rosto pálido e sofredor.
"Oh, Sofia, querida," a voz de Bianca era fraca, melodramática. "Eu soube que você passou mal. É tudo culpa minha, não é? Por causar tanto estresse..."
Ela olhou para Ricardo com lágrimas nos olhos. "Ela deve estar tão magoada comigo, Ricardo. Com nós dois."
Ricardo imediatamente se voltou para Bianca, a preocupação em seu rosto se intensificando. "Não diga isso, Bia. Você não tem culpa de nada." Ele lançou um olhar duro para Sofia. "Você a assustou."
Sofia sentiu uma onda de frustração. A manipulação de Bianca era tão óbvia, mas Ricardo era cego.
Uma risada amarga escapou de seus lábios. "Sim, Ricardo. Eu sou a culpada. Eu sou muito generosa em assumir a culpa por tudo."
Ela viu a confusão nos olhos dele, mas não se importou. Sua decisão estava tomada. "Vou assinar os papéis do divórcio assim que sair daqui."
Bianca arregalou os olhos, um brilho rápido de triunfo passando por eles antes de serem novamente inundados por lágrimas. "Oh, não, Sofia! Por favor! Ricardo, faça alguma coisa!"
Ele parecia perdido.
Aliviada por dentro, Bianca tocou o braço de Sofia. "Vamos esquecer isso por agora, querida. Ricardo vai nos levar para almoçar, um lugar tranquilo. Precisamos conversar, nos acalmar."
O almoço foi uma tortura. Bianca, agora recuperada de sua "fraqueza" momentânea, exibia sua gravidez com orgulho. Alisava a barriga a cada cinco minutos, suspirava sobre os desejos estranhos que sentia, sobre como Ricardo era atencioso.
Ricardo, por sua vez, demonstrava um afeto excessivo por Bianca. Acariciava seus cabelos, oferecia-lhe os melhores pedaços de comida, ria de suas piadas sem graça. Sofia sentia cada gesto como uma facada. A comida não descia. Seu estômago, já sensível, revirava. Uma dor aguda começou a pontuar sua cabeça.
De repente, um estrondo. Um enorme lustre de cristal, que pendia sobre a mesa deles, despencou. Por puro reflexo, Sofia se encolheu.
Mas Bianca foi mais rápida, ou mais esperta. Com um grito, ela se jogou sobre Ricardo, "protegendo-o" com seu corpo. O lustre caiu ao lado deles, estilhaçando-se em milhares de pedaços.
Bianca gemeu, segurando o braço. "Ricardo! Você está bem?"
Ele a segurou, o pânico estampado em seu rosto. "Bia! Você se machucou? Meu Deus!" Ele examinava o braço dela, onde um pequeno arranhão vermelho aparecia. "Vamos para o hospital agora!"
Totalmente desconsiderada, Sofia sentiu um caco de vidro atingir sua testa. O sangue começou a escorrer, quente e pegajoso. Ninguém notou. Ricardo estava ocupado demais com a heroína Bianca.
A dor física se misturou à emocional. Lágrimas brotaram, mas ela riu, um som quebrado e irônico. Lembrou-se de uma promessa de Ricardo, de muito tempo atrás: "Eu sempre vou te ver, Sofia. Você nunca será invisível para mim."
A ironia era trágica. Ela era completamente invisível agora.
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