
O Desejo Secreto Dela
Capítulo 2
Ana, minha colega de classe, disse com a maior naturalidade do mundo que seus pais já tinham garantido que ela receberia 20 pontos extras no ENEM.
Ela falou isso na frente de toda a turma, com uma confiança que beirava a arrogância.
A sala ficou em silêncio por um instante, e depois alguns risinhos começaram a surgir nos cantos. Ninguém acreditava nela. Era impossível não notar a contradição ambulante que era Ana.
Ela falava de uma vida de luxo, mas suas roupas estavam sempre amassadas e com um cheiro estranho, o cabelo oleoso preso num rabo de cavalo frouxo. As unhas, sempre que eu olhava, estavam sujas, como se ela tivesse acabado de mexer na terra.
As histórias dela eram sempre grandiosas. Uma semana, era o iate que o pai tinha comprado para o aniversário dela. Na outra, era a viagem para a Europa no jato particular da família. E agora, essa história dos 20 pontos no ENEM. Era o cúmulo do absurdo.
Eu, Maria, sentada na carteira ao lado, sentia uma irritação crescente. Eu estudava até tarde todas as noites, me matava para conseguir um bom resultado, e ela vinha com essa conversa fiada? Era um insulto para todos nós que nos esforçávamos de verdade.
A irritação borbulhou dentro de mim até que não consegui mais segurar.
"Ana, cala a boca um pouco" , eu disse, mais alto do que pretendia. "Ninguém aqui aguenta mais as suas mentiras."
O rosto dela, que antes exibia um sorriso convencido, se fechou. Os olhos dela, geralmente opacos, ganharam um brilho perigoso.
"Quem você pensa que é para falar assim comigo?" , ela retrucou, a voz tremendo.
"Eu sou alguém que está de saco cheio de ouvir você inventar coisas" , respondi, me levantando. "Você fala de riqueza, mas olha pra você. Você não se enxerga?"
O que aconteceu em seguida foi rápido demais. Ana se levantou com um pulo e me empurrou com força. Eu não esperava por isso e cambaleei para trás, batendo na minha carteira. A dor subiu pela minha costa, mas a raiva era maior. Eu a empurrei de volta.
Começou uma briga feia, no meio da sala de aula. Puxões de cabelo, arranhões, um caos de gritos e xingamentos. Os outros alunos formaram um círculo ao nosso redor, alguns incentivando, outros chocados.
No meio da confusão, mesmo enquanto me arranhava com as unhas sujas, Ana gritava.
"Não fale dos meus pais! Eles são as melhores pessoas do mundo! Eles podem fazer qualquer coisa!"
A professora finalmente conseguiu nos separar, nos arrastando para a diretoria. Enquanto eu limpava um arranhão que sangrava no meu braço, a frase de Ana ecoava na minha cabeça. A defesa fervorosa, quase desesperada, de pais que, para todo mundo, pareciam não existir. Aquilo, mais do que a briga, deixou uma marca. Havia algo estranho ali, uma convicção dolorosa em suas mentiras.
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