
O Desejo Secreto Dela
Capítulo 3
Eu odiava Ana.
Não era um sentimento que eu me orgulhasse, mas era a verdade. E o pior de tudo é que a professora, numa tentativa bizarra de nos fazer "socializar" , me colocou para sentar ao lado dela no início do ano. Foi o começo da minha tortura diária.
A proximidade forçada só tornava tudo pior. Eu era obrigada a ouvir, em primeira mão, o fluxo interminável de suas invenções.
Era um desfile diário de absurdos.
"Minha mãe comprou um vestido de Paris para mim, custou mais de dez mil reais. Só estou esperando a ocasião certa para usar" , ela dizia, enquanto ajeitava a gola puída de sua camiseta de uniforme, que já tinha visto dias melhores.
"Meu pai disse que se eu passar em medicina, ele me dá um apartamento de cobertura na beira da praia" , ela comentava, folheando um livro didático com as páginas amareladas e rasgadas.
"No fim de semana, fomos para a nossa casa de campo. Tem cinco piscinas e um chef particular. Comi tanto caviar que até enjoei."
Eu olhava para os sapatos dela, um tênis genérico tão gasto que a sola estava se descolando na frente, e sentia um misto de raiva e pena. Como alguém podia mentir com tanto descaramento? Era como se ela vivesse em uma realidade paralela, e tentasse nos arrastar para dentro dela.
A discrepância entre o que ela dizia e o que ela era se tornava cômica, e depois, simplesmente triste. A mochila dela era velha, remendada com fita adesiva em vários lugares. O estojo era um saquinho plástico de supermercado. E mesmo assim, ela falava de motoristas particulares e férias em ilhas exclusivas.
O mais inacreditável era que, às vezes, ela conseguia enganar alguém.
Lembro de uma vez, no ano anterior, que a professora de português passou uma redação com o tema "Meu Herói" . Ana escreveu sobre o pai. Descreveu-o como um empresário internacional, um homem de negócios implacável, mas com um coração de ouro, que viajava pelo mundo fechando acordos multimilionários e ainda encontrava tempo para ser um pai amoroso e presente.
A redação era tão bem escrita, tão cheia de detalhes vívidos e emoção, que a professora leu em voz alta para a turma como exemplo. Ela elogiou a "riqueza de detalhes" e a "profundidade dos sentimentos" de Ana.
Naquele dia, Ana ficou com o peito estufado de orgulho. E eu, sentada ao lado dela, só conseguia pensar em como ela era uma excelente escritora de ficção. A professora, na sua boa-fé, tinha acabado de validar o mundo de fantasia da maior mentirosa da escola. Aquilo só deu mais combustível para ela. A partir daquele dia, as histórias ficaram ainda mais elaboradas, mais inacreditáveis. E minha aversão por ela, mais profunda.
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