
O DEMÔNIO SEM ALMA
Capítulo 2
NARRAÇÃO HEITOR
Visto minhas roupas, pois aparentemente os humanos não aceitam a nudez. Como se o problema, o pecado estivesse em quem não veste roupas e não naquele que olha com cobiça, luxúria ou inveja. Ainda não entendo como uma mulher pode invejar outra mulher. Para mim tudo se resume a peitos, bundas, carne. A verdade é que todas as mulheres com quem cometi pecado carnal foram apenas corpos. Como invejar apenas uma casca? Os humanos são focados no que os olhos podem ver. Boa aparência, carros, casas, dinheiro. Eles não sabem dar valor ao que realmente os tornam preciosos. Daria tudo para poder sentir. Tem qualquer sentimento dentro de mim. De sentir qualquer merda desse mundo. Raiva, ódio, ira, desejo, o tal do tesão. Eu não senti até agora nada disso. Tenho o tal do pênis que as mulheres adoram enfiar na boca e chupar. Queria saber que gosto meu pênis tem. Será que tem mesmo gosto de pau? Por que gostar de chupar algo com gosto de pau? Perguntei ao humano que trabalha com madeira se pau tem gosto bom e ele riu da minha cara. Imagino que não tem gosto bom. Então por que elas vivem dizendo que querem chupar meu pau? Sei que elas também gostam de ser chupadas e não faço idéia que sabor possuem. Será que tudo tem gosto de pau?
- Já vai embora?
A humana nua coloca a mão no meu peito. Olho para sua mão e queria poder sentir seu toque. Demônios literalmente foram feitos para porra nenhuma, só prestamos no inferno. Seus olhos parecem que vão me engolir. Deve ser culpa da minha perfeição. Corpo forte, altura acima do padrão humano, olhos, barba e cabelos negros contrastando com minha pele branca,
- Vou!
Tiro sua mão do meu peito e coloco minha camiseta.
- Achei que faríamos mais um pouco de sexo!
Morde a boca e fico sem entender por que.
- Só enfiei meu pênis em você pra saber se era diferente. Mas você é como as outras. Não muda nada.
A humana puxa o pano da cama e cobre seu corpo. Por que está fazendo isso? Eu já vi tudo que ela agora me esconde.
- Não precisava ser grosso assim.
- Grosso? Só por que lhe disse que você é como as outras? Vocês mulheres são a mesma espécie e não podem conter diferenças. Agora entendo que posso enfiar meu pênis em todas que será tudo igual.
- Seu insensível!
Joga um vaso em minha direção e ele se choca contra o meu peito, se quebrando em vários pedaços. Queria saber como é se ferir e sentir dor.
- Me desculpe! Eu...
A humana vem em minha direção e parece preocupada comigo.
- Você não se feriu?
- Não! Te falei que era um demônio.
Seus olhos se arregalam.
- Não tenho alma, não sinto dor, não me machuco, não sinto toque e não sei o que ter sentimentos. E vocês humanos de merda não podem me ferir.
- Você... você é estranho!
- Não sou estranho! Me apresentei a você. Sou Heitor e até pouco tempo atrás gritava meu nome.
- Acho melhor ir embora!
Segura meu braço e vai me puxando para fora da sua casa.
- Imagino que tenha ficado assustada. Essa é a reação que toda humana tem depois de sentar no meu pênis, gritar meu nome e ficar brava porque sou demônio.
- Adeus!
Me coloca na rua e fecha a porta. Mais uma humana que não mexe comigo. Estou cansado de ter esse pênis duro e nada o acalmar. Fica incomodo guardá-lo nas roupas. Por isso acho que a nudez é sempre mais confortável. Como será o tal gozo? Todas sempre me pedem a mesma coisa. "Goza pra mim!" Que porra é essa de goza pra mim? Será que é aquelas mijadas que algumas humanas dão em mim, enquanto meu pênis se enfia nelas? Será que preciso mijar nas humanas na hora do sexo? Paro de andar e algo me chama atenção. Uma sombra passa por mim. Mas é só uma sombra. Sei bem o que isso significa. É a morte! Olho em volta, para saber que humano está prestes a morrer. Está tudo vazio e não entendo porque a morte esta aqui. Olho para algumas casas, o fim da rua e o beco. A escuridão da noite não facilita muito.
Continuo andando e olhando tudo. Paro de andar ao ver finalmente quem está prestes a encontrar a morte. Em cima da ponte está uma humana. Ela não deveria estar na beira da ponte. Seus olhos estão fechados e a sombra da morte ao seu lado. Não sei por que, mas resolvo subir a ponte. Nunca interfiro quando o assunto é sobre levar humanos embora, mas essa humana... eu não faço idéia do que ela tem e porque estou na ponte. A mão dela está segurando a mureta da ponte e sei que se soltar a mão, ela cai e morre.
- Oi!
Digo me aproximando e a sombra da morte não recua. A humana vira a cabeça e me olha. Enormes olhos de mel claro que estão brilhando de tantas lágrimas.
- Oi!
Sua voz é baixa e ela volta a olhar para frente.
- Uma bela visão.
Paro atrás da mureta, perto dela.
- Sim...
- Não devia estar na sua casa?
- Não!
A sombra da morte não recua.
- Você...
- Não se aproxime. Não tente me impedir.
Fala soltando uma mão da mureta.
- Não vou te impedir. A verdade é que não me importo se pular.
A humana olha pra mim chorando.
- Nada muda na minha vida se ficar viva ou se morrer.
- Não muda a vida de ninguém.
Ela parece tão triste.
- Sente-se sozinha?
Não responde e sei como é estar sozinho. Estou vagando pela terra sem saber o que fazer, pra onde ir. Em certos momentos desejo voltar ao inferno. Mas então me lembro que fui expulso.
- Me responde!
- Por favor! Vai embora e me deixa fazer isso.
- Não vou embora! Acha mesmo que perderia o espetáculo que é seu corpo se espatifar no chão? Se eu tiver sorte ainda vejo seus órgãos expostos.
Vejo um pequeno sorriso se formar em seu rosto.
- Você tem um jeito estranho de salvar pessoas do suicídio.
- Não estou te salvando. A verdade é que você está salvando uma noite ruim de sexo horrível que eu tive.
A humana morde a boca como a outra humana fez, mas algo estranho acontece. Um vibrar no meu pênis como resposta. Meu corpo nunca reage aos humanos.
- Qual o seu nome?
- Eva!
- Sou Heitor!
- Pegaria sua mão, mas eu meio que estou prestes a me matar.
- Fique a vontade!
Olho para baixo e a vejo fazer mesmo. Então a sombra da morte praticamente gruda no corpo da humana que se desequilibra e solta a mão que a mantinha segura.
- Não!
Em um movimento rápido, seguro sua mão e consigo impedir que caia. Puxo seu corpo e ela me abraça forte.
- Não me solta!
Espera! Ela me abraça forte... forte o suficiente para me fazer sentir seu abraço.
- Me segura!
Meus braços agora estão em torno dela e posso senti-la. Eu finalmente posso sentir um humano. Fecho meus olhos ao sentir o cheiro de seu cabelo perto do meu nariz. Os humanos cheiram tão bem.
- Vou te tirar dai!
Puxo seu corpo para dentro da mureta e sinto algo no meu braço. Vejo sangue e não acredito.
- Estou sangrando!
Toco a ferida e isso dói. Dor... estou sentindo dor.
- Eu te machuquei?
Novamente a humana me toca e eu a sinto. Isso é loucura.
- Posso sentir você.
Minhas mãos agora a tocam.
- Você me sente?
- Sim...
Pela primeira vez um humano me faz sentir e me sente.
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