
O Coração Que Renasceu
Capítulo 3
Passei as primeiras horas daquele novo dia em um estado de choque e euforia.
Verifiquei tudo. As mensagens no meu celular, as notícias, meu próprio corpo.
A cicatriz realmente não estava lá.
A conversa com Lucas sobre a "necessidade" da cirurgia de Bianca ainda não tinha acontecido.
Eu tinha sete dias.
Sete dias para mudar o roteiro do meu inferno pessoal.
Minha primeira prioridade, no entanto, não era a vingança.
Era ele. O bombeiro.
Eu precisava saber se ele estava bem. Na minha memória, ele tinha se jogado para me salvar. E se naquela linha do tempo ele tivesse se machucado gravemente? Ou pior?
Um calafrio percorreu meu corpo.
Eu precisava encontrá-lo.
Como uma influenciadora, eu tinha minhas habilidades. Vasculhei as notícias da noite do meu "acidente" na vida passada. Não havia nada sobre uma tentativa de suicídio no hospital. Claro que não, ainda não tinha acontecido.
Então mudei a tática. Procurei por incêndios ou grandes chamados naquela região, naquela noite.
Bingo.
Uma pequena nota sobre um incêndio em um prédio comercial, a poucos quarteirões do hospital. A matéria mencionava o batalhão que atendeu a ocorrência.
Era um começo.
No dia seguinte, dirigi até o endereço do corpo de bombeiros.
Meu coração batia forte. E se ele não estivesse lá? E se eu tivesse imaginado tudo?
Parei o carro do outro lado da rua. O lugar era simples, funcional. Homens de uniforme entravam e saíam.
E então eu o vi.
Ele estava de costas, conversando com outros dois bombeiros. Mesmo à distância, eu reconheci sua postura, o jeito que ele gesticulava enquanto falava.
Ele estava bem. Ele estava vivo e inteiro.
O alívio foi tão intenso que precisei me segurar no volante para não chorar.
Agora, o próximo passo. Como abordá-lo?
Simplesmente chegar e dizer "Oi, você ainda não me conhece, mas em uma outra vida você pulou de um prédio para me salvar, então vim agradecer"?
Não. Eu seria internada.
Precisava de um pretexto. E eu era boa em criar narrativas.
Voltei para casa e liguei para minha assistente, a única pessoa que sempre foi leal a mim.
"Lia, preciso de um favor enorme. Quero fazer uma grande doação de equipamentos e suprimentos para um batalhão do corpo de bombeiros," eu disse, tentando soar casual.
"Claro, Sofia! Que iniciativa incrível! Algum batalhão em específico?"
Passei o endereço para ela.
Dois dias depois, eu estava de volta, mas desta vez não estava sozinha. Uma van cheia de caixas de isotônicos, barras de proteína, protetor solar de alta performance e até algumas cafeteiras novas estava estacionada na frente do batalhão.
Eu desci do meu carro, usando um vestido simples, mas elegante. Queria parecer grata, não arrogante.
O comandante do batalhão, um homem mais velho com um olhar gentil, veio nos receber. Ele ficou chocado com a quantidade de coisas.
"Senhorita Sofia, não sabemos como agradecer. Isso é… é demais."
"É o mínimo que eu posso fazer por heróis como vocês," eu disse, meu olhar varrendo o pátio, procurando por ele.
E lá estava ele.
Ele e seu grupo de amigos estavam nos observando de longe, curiosos.
Quando nossos olhos se encontraram, senti um arrepio. Ele não me reconheceu, claro, mas havia uma faísca de curiosidade em seu olhar.
O comandante me apresentou a alguns dos homens.
"E este é Gabriel," disse o comandante, apontando para ele.
Gabriel.
Então esse era o nome do meu anjo da guarda.
Ele se aproximou, um pouco tímido. De perto, ele era ainda mais bonito. Tinha traços fortes, uma barba por fazer e os olhos mais expressivos que eu já tinha visto.
"Prazer, Gabriel," ele disse, estendendo a mão.
Sua mão era grande e áspera. Quando a toquei, uma corrente elétrica pareceu passar por mim.
"O prazer é todo meu, Gabriel. Sou Sofia."
Um de seus amigos, um rapaz brincalhão, deu uma cotovelada nele.
"Ih, Gabriel! Parece que a famosa Sofia veio te ver, hein? É sua fã?"
Gabriel ficou vermelho na hora.
"Cala a boca, Pedro," ele resmungou, mas não conseguiu esconder um pequeno sorriso.
Eu decidi entrar na brincadeira. Era a minha chance.
Olhei diretamente para Gabriel, com o sorriso mais charmoso que consegui.
"Na verdade," comecei, minha voz um pouco mais alta para que todos ouvissem, "eu sou fã de todos vocês. Mas… talvez eu tenha um favorito."
O grupo de amigos explodiu em assobios e risadas.
Gabriel parecia que ia ter um colapso. Ele estava completamente sem graça, o que o tornava ainda mais adorável.
"Obrigado pela doação," ele conseguiu dizer, sua voz um pouco rouca.
"Não foi nada," respondi. "Considerem um pequeno investimento."
Ele me olhou, confuso. "Investimento?"
Eu me inclinei um pouco para frente, como se fosse contar um segredo.
"Sim. Estou investindo na segurança e no bem-estar do homem que eu pretendo conquistar."
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Até o comandante parecia chocado.
Gabriel arregalou os olhos, sua boca se abriu ligeiramente. Ele não sabia o que dizer.
Eu apenas sorri, dei uma piscadela e me virei para ir embora, deixando-os todos atônitos.
"Até mais, Gabriel," eu disse por cima do ombro.
Enquanto meu carro se afastava, olhei pelo retrovisor.
Gabriel ainda estava parado no mesmo lugar, olhando na minha direção, com a expressão mais perplexa e fascinada que eu já vi na vida.
A partida havia começado. E desta vez, eu estava no controle.
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