
O Colar Quebrado: Minha Fúria
Capítulo 2
Heitor voltou ao Brasil depois de três anos fora, e a primeira coisa que fiz foi ir buscá-lo no aeroporto.
A saudade era imensa, mas uma ansiedade estranha se misturava à alegria, um pressentimento ruim que eu não conseguia ignorar.
"Clara, você não mudou nada", ele disse, me dando um abraço rápido, quase formal. O cheiro dele era diferente, não era mais o cheiro de casa que eu guardava na memória.
"Você também não", eu menti, forçando um sorriso. Ele tinha mudado, sim. Havia uma frieza no seu olhar que não existia antes.
Fomos para o apartamento dele, o mesmo que eu ajudei a decorar antes de ele partir. Tudo estava exatamente como ele deixou, coberto por uma fina camada de poeira.
"Estou exausto da viagem, vou tomar um banho", ele anunciou, já se afastando. "Pode pedir uma pizza pra gente?"
Enquanto ele estava no chuveiro, o celular dele, que ficou na mesinha de centro, vibrou. Não era minha intenção bisbilhotar, mas o nome "Vanessa" brilhava na tela com um emoji de coração ao lado.
Meu próprio coração pareceu parar por um segundo.
Ele saiu do banho e pegou o celular, sorrindo para a tela antes de perceber que eu estava olhando. O sorriso dele desapareceu.
"É só uma colega de trabalho", ele disse rápido demais.
Eu não disse nada, apenas assenti. A pizza chegou, e comemos em silêncio, um silêncio pesado e desconfortável que preenchia todo o espaço entre nós.
Na manhã seguinte, ele disse que precisava resolver umas coisas da empresa e saiu cedo. A desculpa parecia fraca, ensaiada. A inquietação dentro de mim crescia a cada minuto que passava.
Eu comecei a arrumar o apartamento, tentando me distrair, afastar os pensamentos ruins. Foi quando encontrei um pequeno gravador digital caído atrás do sofá, um modelo que eu nunca tinha visto antes. Por puro impulso, apertei o botão de play.
A voz de Heitor encheu a sala, clara e cruel.
"Qual é, Vanessa? Você sabe que a Clara não significa nada. É só uma obrigação, uma promessa idiota que fiz pra minha avó no leito de morte. Ela é tão sem graça, tão previsível. Você acha mesmo que eu ia querer passar o resto da minha vida com alguém assim? Ela foi útil, cuidou de tudo pra mim enquanto eu estava fora, só isso."
Depois, a risada de uma mulher, provavelmente Vanessa.
"E ela acredita mesmo que você vai casar com ela?", a mulher perguntou, a voz escorrendo deboche.
"Claro que acredita. A coitada vive nesse mundinho de conto de fadas. Mas assim que eu resolver umas coisas aqui, eu dou um pé na bunda dela. Você é o meu futuro, meu amor. Ela é só um degrau que eu precisei pisar."
O ar me faltou. Cada palavra era um soco no estômago. O gravador caiu da minha mão, o som do plástico batendo no chão de madeira ecoou no silêncio do apartamento. Fiquei paralisada, sentindo um frio que vinha de dentro, congelando cada parte do meu corpo.
Eu apaguei a gravação e coloquei o aparelho de volta onde encontrei. Não haveria confronto, não haveria gritos. Ele não merecia minhas lágrimas.
Quando Heitor voltou, no fim da tarde, eu estava sentada no sofá, exatamente no mesmo lugar.
"Resolvi tudo", ele disse, tentando parecer casual. "O que você acha de sairmos pra jantar hoje à noite? Um lugar chique, pra comemorar minha volta."
"Claro", respondi, minha voz soando estranhamente calma.
Ele me levou a um dos restaurantes mais caros da cidade. Assim que entramos, vi uma mulher loira, alta e com um vestido vermelho colado ao corpo, acenando para ele de uma mesa no canto. Vanessa.
Heitor sorriu para ela e me guiou até a mesa.
"Clara, essa é a Vanessa, minha colega que te falei. Vanessa, essa é a Clara."
Vanessa me olhou de cima a baixo com um sorriso vitorioso, estendendo a mão com unhas vermelhas perfeitamente feitas.
"Prazer em conhecê-la. Heitor fala muito de você."
Apertei a mão dela, sentindo a pele dela fria. Durante todo o jantar, os dois agiram como se eu não estivesse ali. Trocavam olhares, sorrisos e toques discretos por baixo da mesa. Heitor colocou a mão na coxa dela, e ela inclinou a cabeça no ombro dele, rindo de algo que ele sussurrou em seu ouvido. A cena era um espetáculo grotesco de traição bem na minha frente.
Eu comi minha comida devagar, observando-os. A dor era aguda, mas uma clareza gelada estava tomando conta de mim.
Finalmente, Heitor se virou para mim, como se lembrasse da minha presença.
"Clara, a gente precisa conversar", ele começou, o tom sério e ensaiado. "Esses três anos fora me mudaram. Eu não sou mais o mesmo homem. E acho que nós dois seguimos caminhos diferentes."
Ele esperou uma reação, lágrimas, um escândalo. Eu apenas o encarei.
"O que você está querendo dizer, Heitor?"
"Estou dizendo que acabou. Aquele nosso noivado... não faz mais sentido. Espero que você entenda." Ele falou de forma leve, como se estivesse dispensando uma empregada. "Vou te dar uma boa compensação financeira, claro. Por todo o tempo que você... cuidou das coisas pra mim."
Ele me oferecia dinheiro. Depois de anos de dedicação, de uma vida inteira colocada em pausa por ele, ele achava que dinheiro poderia pagar por tudo.
Vanessa, ao lado dele, sorriu. Um sorriso pequeno, cruel. Ela pegou a mão de Heitor e entrelaçou seus dedos nos dele, um gesto de posse.
"Sabe, Clara", disse Vanessa, com uma falsa simpatia. "Às vezes, as pessoas simplesmente não são compatíveis. Heitor precisa de alguém que acompanhe o ritmo dele, que entenda o mundo dele. Não alguém que fica em casa esperando."
A provocação era direta, a humilhação, intencional.
Eu respirei fundo. Todos esperavam que eu chorasse, que fizesse uma cena. Mas a mulher que eles humilhavam não existia mais. Ela tinha morrido naquela tarde, no apartamento dele, ao som daquela gravação.
Olhei para Heitor, depois para Vanessa. Um sorriso mínimo, quase imperceptível, surgiu nos meus lábios.
"Tudo bem, Heitor", eu disse, minha voz firme e tranquila. "Eu entendo."
O queixo de Heitor caiu. Ele me encarou, confuso, a tranquilidade na minha voz o desarmou completamente. Ele esperava um drama, não aceitação. Minha calma o deixou desconfortável, e isso, naquele momento, foi a minha primeira pequena vitória.
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