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Capa do romance O Carro Rosa de Traição

O Carro Rosa de Traição

Na TV, meu marido exibiu um carro rosa como símbolo do nosso amor, mas aquele era o cenário de sua traição com Karina. Enquanto a internet o elogiava, eu deletava meu passado. Abortei o filho que ele desejava, destruí nossas lembranças e fiz uma cirurgia para apagar memórias. Um ano depois, em Florianópolis, o bilionário interrompeu meu noivado implorando perdão. Olhei para o estranho chorando e, sem sentir nada, perguntei se o conhecia.
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Capítulo 2

Ponto de Vista: Giovana Ribeiro

Entrei em casa, o silêncio ensurdecedor. Os cômodos grandes e vazios ecoavam com o vazio da minha vida. Fui ao meu escritório, abri uma gaveta e tirei minha certidão de nascimento, minha carteira de motorista, meu passaporte. Todos os pedaços frágeis de papel que provavam que eu era Giovana Ribeiro.

Levei-os para a pia da cozinha, uma pequena chama desafiadora tremeluzindo em minha mão. Um por um, assisti às chamas consumirem minha identidade. O papel enrolou, escureceu e virou cinza. Meu nome, quase, se foi.

Um sorriso pequeno e genuíno tocou meus lábios. Uma sensação de leveza, de liberdade, que eu não sentia há anos.

Então, um fantasma de memória. Diogo, dez anos atrás. Éramos namorados de colégio, cheios de sonhos, construindo nossa primeira startup em uma garagem apertada. Ele me prometeu o mundo, e eu acreditei nele. Éramos pobres, mas tínhamos um ao outro. Não parecia dificuldade na época. Parecia uma aventura.

Ele jurou que me amaria para sempre. Suas palavras, gravadas tão profundamente em meu coração, agora pareciam uma piada cruel. Para sempre. Que mentira patética.

Fui até minha mesa de cabeceira, abrindo a gaveta forrada de veludo. Dentro, aninhado na seda, estava o medalhão de platina vintage que Diogo me dera no dia do nosso casamento. Uma antiguidade que ele caçou por meses. Ele disse que as duas metades interligadas representavam nossas vidas.

— Esta platina, Giovana — dissera ele, com os olhos sinceros —, é resiliente. É feita para nos unir, para sempre. Enquanto permanecer inteira, nós também permaneceremos.

Segurei-o na palma da mão. Parecia frio, pesado, uma relíquia de uma vida diferente. Abri a mão. Ele caiu no chão de azulejo. Peguei um peso de papel de latão pesado da mesa de cabeceira e o desci com força. *Crack.* A dobradiça delicada se partiu. A face do medalhão torceu. Não se estilhaçou como vidro, mas deformou, o fecho quebrando, o metal rasgando.

Minha respiração engatou. Não de tristeza, mas de uma satisfação fria e silenciosa. Finalmente.

Reuni cuidadosamente os pedaços retorcidos, cada um um pequeno monumento a uma mentira despedaçada. Coloquei-os gentilmente em uma pequena e elegante caixa de presente. Eu adicionaria um bilhete mais tarde. Um adeus.

A porta da frente se abriu.

— Giovana, amor? Cheguei! — A voz de Diogo, irritantemente alegre, perfurou o silêncio frágil.

Ele entrou na sala de estar, uma caixa de bolo de grife em uma mão, um buquê dos meus lírios favoritos na outra. Ele sorriu, aquele sorriso público e performático.

— Surpresa! Mil-folhas frescos daquela padaria que você ama!

Ele veio por trás de mim, envolvendo os braços na minha cintura, pressionando um beijo no meu pescoço. Instintivamente enrijeci, virando a cabeça ligeiramente. O cheiro de um perfume desconhecido agarrou-se a ele, doce e enjoativo. Era o de Karina. Eu sabia.

— Sem fome — disse, minha voz inexpressiva. Olhei para os doces. Ele lembrou. Ele sempre lembrava das pequenas coisas que eu gostava. Só não importava mais. Ele se importava com minhas preferências, mas não com meu coração.

Ele se afastou, fazendo bico.

— Você está brava comigo? Sei que me atrasei, mas o lançamento demorou mais do que o previsto. E o trânsito na Marginal estava um pesadelo. — Ele parecia tão contrito, tão menino. Um ator tão bom.

Meu estômago revirou novamente. O perfume era sufocante.

— Não, não estou brava — murmurei. Era verdade. Eu não sentia nada além de uma aceitação fria e vazia.

Ele sorriu, aliviado. Inclinou-se, pressionando outro beijo nos meus lábios. Então tirou uma pequena caixa de veludo. Dentro, uma chave de carro brilhante em forma de coração.

— E isso, meu amor, é para você. O primeiro 'Alma Gêmea' a sair da linha de produção. Meu presente para a única mulher digna de dirigi-lo.

Ele começou um monólogo sem fôlego sobre o sucesso do carro, as encomendas transbordando, as ações disparando. Seus olhos brilhavam de autossatisfação. Ele não notou minha imobilidade.

Peguei a chave. Parecia pesada, um símbolo não de amor, mas de traição.

— Diogo — interrompi, minha voz baixa. — Você sempre vai me amar?

Ele riu, um som estrondoso e confiante. Puxou-me para mais perto, enterrando o rosto no meu cabelo.

— Claro, amor. Sempre. Você é meu destino. Minha alma gêmea.

Ele tinha dito isso tantas vezes. Já tinha sido música para meus ouvidos. Agora, era um insulto grotesco.

— Você disse uma vez — continuei, empurrando-o gentilmente —, que se algum dia me traísse, eu deveria ir embora. Que você não me culparia.

Seus olhos claros e inocentes encontraram os meus. Nem um pingo de culpa.

— E eu quis dizer isso, Giovana. Claro.

Nesse momento, o celular dele vibrou. Uma chamada de vídeo. O nome de Karina brilhou na tela. Ele pegou o telefone, o rosto empalidecendo, e moveu-se para recusar a chamada.

— Não — disse eu, um leve sorriso brincando em meus lábios. — Atenda.

Ele hesitou, então, vendo minha expressão calma, relaxou. Atendeu e saiu da sala, indo para o corredor, baixando a voz.

Eu não precisava ouvir as palavras dele. Os murmúrios suaves e sedutores do lado de Karina passavam claramente pelas paredes finas.

— Amor, você foi tão bom ontem à noite... Já estou com saudades...

Fechei os olhos. Então os abri, serena. Caminhei para a cozinha, o calor do dia desaparecendo com o sol.

Diogo voltou alguns minutos depois, parecendo satisfeito consigo mesmo.

— Tudo bem, querida? Só uma ligação rápida de trabalho. Nada importante.

Ele estendeu a mão.

— Vamos. Vamos comemorar seu aniversário. Reservei aquele restaurante francês chique que você adora.

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