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Capa do romance O Caminho do Coração - Sob as Correntes do Amor

O Caminho do Coração - Sob as Correntes do Amor

Clara, uma escritora traumatizada pela perda dos pais no mar, evitou o oceano por anos. Ao aceitar um projeto literário em Vila Branca, ela reencontra seus medos. Lá conhece Miguel, biólogo que investiga sumiços misteriosos na costa. Enquanto ele busca respostas científicas para tragédias, Clara confronta feridas antigas. Entre segredos e uma paixão latente, ambos descobrem que o passado e as ondas escondem perigos capazes de transformar suas vidas para sempre.
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Capítulo 3

O dia seguinte amanheceu coberto por nuvens pesadas, como se o próprio céu hesitasse em trazer luz para a vila. O mar, inquieto, rugia ao longe com ondas maiores do que de costume, arremessando espuma contra os costões rochosos.

Clara acordou com o som insistente do vento batendo nas janelas do chalé. Por um instante, pensou ter escutado vozes lá fora, sussurros arrastados, como se o mar quisesse dizer algo — mas logo se convenceu de que era apenas sua imaginação, alimentada pelas palavras do diário encontrado no farol.

Mesmo assim, não conseguiu ignorar o sentimento que crescera em seu peito: uma inquietação tênue, feita de medo, saudade e alguma coisa que ainda não sabia nomear.

Vestiu-se devagar, os olhos fixos na janela onde o mundo parecia envolto por névoa. Na escrivaninha, o amuleto repousava sobre as folhas escritas na noite anterior. Clara o pegou, enrolando a corrente nos dedos, sentindo a textura fria da prata. A cada dia, aquele pequeno objeto ganhava mais peso, como se contivesse memórias adormecidas, prontas para despertar.

Desceu até a cozinha e encontrou Teresa preparando café. O cheiro do grão recém-moído preenchia o ambiente com um calor acolhedor.

— Dormiu bem? — perguntou a coordenadora, com a voz suave.

— Sonhei com o mar — respondeu Clara, sem conseguir evitar o tom sombrio.

Teresa ergueu os olhos, como se reconhecesse aquela frase.

— Muitos aqui sonham com ele. Mas alguns sonhos são avisos. Outros, apenas o coração tentando lembrar o que foi perdido.

Clara agradeceu a xícara e se sentou, observando pela janela as sombras dos pinheiros dançando ao sabor do vento.

— O diário que encontramos no farol... você já tinha ouvido falar dele?

Teresa hesitou antes de responder.

— Sim. Antônio era um pescador conhecido. Tinha uma sensibilidade que poucos compreendiam. Escrevia para aliviar a alma, dizia ele. As histórias dele sempre pareceram exageradas para alguns, mas há quem diga que ele sabia demais. Que ouviu o mar falar.

Clara sentiu um arrepio correr pela espinha.

— Ele ainda está vivo?

— Não. Sumiu há mais de vinte anos. O corpo nunca foi encontrado. Mas o diário ficou, como se o mar tivesse devolvido só aquilo que achava que devia.

---

Mais tarde, Clara encontrou Natália no pequeno jardim da casa, protegida do vento sob uma pérgula de madeira coberta por trepadeiras.

— Dormiu? — perguntou a amiga, fechando o caderno que usava para anotar observações.

— Mais ou menos. O diário mexeu comigo.

— Comigo também — admitiu Natália. — Fui pesquisar sobre esse pescador, o Antônio. Parece que ele era um dos poucos que ousavam questionar o que acontecia na vila. Tem registros dele reclamando de “silêncios pagos”, “gente que via e se calava”.

— Você acha que tem relação com o desaparecimento dos meus pais?

— Estou começando a achar que sim. E que o Miguel sabe mais do que conta.

Clara franziu o cenho.

— Ele está me ajudando.

— Eu sei. Mas isso não significa que esteja dizendo tudo.

Clara ficou em silêncio por um tempo. As palavras de Natália ecoaram em sua mente, deixando uma dúvida incômoda.

---

À tarde, Miguel apareceu na varanda com os cabelos revoltos pelo vento e um brilho intenso nos olhos.

— Tenho algo pra te mostrar — disse, com um sorriso enigmático.

— O que é? — perguntou Clara, hesitante.

— Uma parte da história. Ou, quem sabe, o início de outra.

Sem dar mais detalhes, ele a guiou por uma trilha estreita atrás da casa, que seguia entre árvores tortas e galhos baixos. O caminho era pouco usado, o solo coberto por folhas secas e pedras cobertas de musgo.

— Para onde estamos indo? — questionou Clara.

— Ao chalé do faroleiro. Era onde Antônio vivia. Depois que ele sumiu, ninguém mais quis morar lá. Dizem que o lugar é amaldiçoado. Mas eu prefiro pensar que é apenas esquecido.

O chalé surgiu diante deles como uma sombra entre as árvores. Pequeno, de madeira escura, janelas fechadas com tábuas e o telhado coberto por folhas úmidas. Clara sentiu um arrepio ao se aproximar, como se cruzasse o limiar de um tempo antigo.

Miguel empurrou a porta, que rangeu como um lamento.

Lá dentro, o cheiro de mofo era forte. Havia uma mesa com objetos cobertos por poeira, um velho lampião enferrujado e livros empilhados no chão. O tempo parecia ter parado ali.

— Eu venho aqui às vezes — disse Miguel. — Acho que ele deixou mais do que palavras. Há fragmentos de algo que ainda não compreendi. E talvez você consiga ver o que eu não vi.

Clara explorou o espaço, tocando com cuidado nos cadernos e papéis. Parou diante de uma prateleira onde repousava uma pequena caixa de madeira entalhada.

— Posso? — perguntou.

Miguel assentiu.

Clara abriu a tampa com cuidado. Dentro havia papéis dobrados, fotografias antigas e uma fita cassete.

— Isso estava aqui todo esse tempo? — perguntou, surpresa.

— Eu achei recentemente, mas preferi esperar. Algo me dizia que você devia ser a primeira a ver.

Clara retirou uma das fotos. Era uma imagem borrada, mas reconheceu o cenário: a marina da vila, com um barco ao fundo. E dois homens, um deles com o rosto virado. O outro, porém, a fez congelar.

— Meu pai — sussurrou, sentindo as pernas falharem por um instante.

Miguel segurou seu braço, firme.

— Você tem certeza?

— Absoluta. Essa camisa... eu me lembro. Era a preferida dele.

Ela passou os dedos pela foto, como se pudesse alcançar o passado ali impresso.

— Quem é o outro homem? — perguntou.

Miguel olhou com atenção.

— Não sei. Mas talvez alguém da vila reconheça.

Clara fechou os olhos, o coração aos saltos.

— Você sabia que meu pai estava envolvido nisso?

— Não — respondeu ele, sério. — Mas agora eu acho que ele sabia algo. E talvez tenha pagado o preço por isso.

Um silêncio denso se instalou.

— E seu irmão? — perguntou Clara. — O Lucas. Ele também desapareceu no mar, não foi?

Miguel assentiu, olhando para o chão.

— No mesmo dia dos seus pais.

Clara arregalou os olhos.

— Como assim?

Miguel respirou fundo.

— Era verão. Lucas saiu para velejar, como fazia todo fim de semana. Disse que encontraria um amigo na marina. Nunca mais voltou. Horas depois, recebemos a notícia do acidente com o barco dos seus pais. Dois desaparecimentos. Nenhuma explicação.

Ela se afastou um pouco, tentando assimilar a informação.

— Por que nunca me contou isso antes?

— Porque não queria que parecesse uma coincidência forçada. Ou uma tentativa de me aproximar. Mas agora... acho que tudo está ligado. Como uma corrente invisível.

Clara se aproximou da janela, observando as nuvens carregadas se acumularem no céu.

— Isso muda tudo.

— Ou apenas revela o que já estava aqui — respondeu Miguel, com um tom grave.

---

Na volta para a Casa Ondamar, Clara sentia as pernas bambas. As peças começavam a se encaixar, mas o quebra-cabeça ainda estava incompleto — e cada revelação parecia abrir uma ferida nova.

No chalé, sentou-se diante da escrivaninha com o coração batendo forte. Pegou o caderno e escreveu:

> “O homem do farol conhecia o silêncio. E é no silêncio que o mar sussurra suas verdades. Cada página esquecida, cada fotografia borrada, cada nome perdido — tudo se entrelaça nas correntes do tempo. E eu… estou começando a lembrar.”

Ela fechou o caderno com as mãos trêmulas.

Naquela noite, o mar parecia rugir mais alto. E Clara soube que, dali em diante, não havia mais volta.

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