
O Brilho Roubado
Capítulo 2
Sofia olhou para a tela do celular, o brilho agredindo seus olhos no quarto escuro, o joelho lesionado latejava, um lembrete constante da carreira de dança que fora arrancada dela, mas a dor física não era nada comparada à queimação em seu peito. na tela, uma foto postada por Isabela, sua melhor amiga, mostrava-a sorrindo, abraçada a Lucas, o namorado de infância de Sofia, e o pior de tudo, eles estavam no apartamento que Sofia tinha passado meses decorando para ela e Lucas, um ninho de amor que agora era palco de traição.
"Últimas vagas para o voo para Paris amanhã às 7h", dizia a notificação da companhia aérea no topo da tela, ela a ignorou por um momento, focada na foto, a raiva crescendo dentro dela, então, com um movimento súbito, ela tocou na notificação, seus dedos tremendo enquanto ela digitava suas informações, ela não ia para a viagem romântica que Lucas havia planejado, ela ia para Paris, para a academia de dança que lhe oferecera uma bolsa de estudos, uma chance de recomeçar, longe de tudo e de todos.
Ela se levantou com dificuldade, apoiando-se nos móveis, e foi até a penteadeira, onde uma pequena caixa de veludo estava aberta, dentro dela, o espaço vazio onde o colar de sua avó deveria estar, o mesmo colar que agora brilhava no pescoço de Isabela na foto, a joia da família, um símbolo de amor e herança, profanado pela inveja e falsidade.
Sofia pegou o porta-retratos ao lado da caixa, a foto mostrava os três, Sofia, Lucas e Isabela, sorrindo em um dia de verão, crianças inocentes, sem ideia da dor que o futuro guardava, eles eram inseparáveis, um trio unido por anos de amizade e memórias, Lucas e Sofia, o casal perfeito, Isabela, a amiga leal, era tudo uma mentira.
Com um gesto decidido, ela abriu a lixeira e deixou o porta-retratos cair, o som do vidro se quebrando foi satisfatório, um corte final com o passado, ela não precisava de lembretes da dor, ela não precisava deles.
Seu telefone tocou novamente, era uma mensagem de Lucas: "Amor, estou com a Isa, vamos jantar fora, ela está um pouco triste, precisa de um ombro amigo, te vejo mais tarde, te amo".
Sofia sentiu um riso amargo escapar de seus lábios, ombro amigo, que piada, ela digitou uma resposta fria, "Ok", e bloqueou o celular, não haveria um "mais tarde" para eles.
Ela mancou até o guarda-roupa, olhando para as roupas que havia escolhido para a viagem com Lucas, vestidos de verão, sandálias bonitas, tudo comprado com a ilusão de um futuro feliz, agora, pareciam fantasias de uma peça trágica.
Ela se sentou na cama, o olhar perdido no vazio, as lembranças a assaltavam, o dia da lesão, a dor aguda no joelho, o fim de seu sonho de ser a primeira bailarina, Lucas ao seu lado no hospital, segurando sua mão, prometendo que ficariam bem, Isabela trazendo flores, com lágrimas nos olhos, dizendo que estaria sempre ali para ela, eram ótimos atores, ambos.
Enquanto ela se recuperava, eles se aproximavam, ela os apresentou, pensando que sua melhor amiga e seu namorado poderiam se dar bem, ela nunca imaginou que a amizade deles se transformaria em uma traição tão cruel, eles a enganaram pelas costas, enquanto ela estava mais vulnerável.
Uma nova notificação iluminou a tela do celular, era Isabela, novamente, uma nova foto, desta vez, um close no colar, com a legenda: "Um presente especial de alguém especial, me sentindo amada", a provocação era tão descarada que Sofia sentiu o sangue ferver.
Ela pegou o telefone, as mãos tremendo de raiva, e ligou para Isabela, a amiga atendeu com uma voz doce e falsa, "Sofia! Que surpresa! Como você está se sentindo?".
"Onde você conseguiu esse colar, Isabela?", Sofia perguntou, a voz baixa e perigosa.
Houve um silêncio do outro lado, depois uma risadinha nervosa, "Ah, este? O Lucas me deu, não é lindo? Ele é tão atencioso".
"Esse colar é da minha avó, Isabela, é uma herança de família, como você ousa?".
"Sofia, você está exagerando", a voz de Isabela ficou defensiva, "Lucas disse que você não se importaria, é só um colar, ele vai te comprar um melhor".
"Melhor?", Sofia repetiu, incrédula, "Você acha que isso é sobre dinheiro? Isso é sobre confiança, sobre amizade, sobre respeito, coisas que você obviamente não entende".
"Não fale assim comigo!", Isabela retrucou, a voz agora cheia de veneno, "Você sempre teve tudo, Sofia, a dança, a atenção, o Lucas, por uma vez na vida, eu mereço ser feliz!".
Lucas pegou o telefone, sua voz soava irritada, "Sofia, o que está acontecendo? Por que você está atacando a Isabela? Ela não fez nada de errado".
"Nada de errado?", Sofia riu, um som quebrado, "Vocês dois estão juntos, no nosso apartamento, e ela está usando as joias da minha família, e você acha que não há nada de errado?".
"Nós podemos explicar", Lucas disse, a voz subitamente mais suave, manipuladora, "Não é o que parece, nós te amamos, Sofia".
"Não, Lucas, vocês não amam", Sofia disse, a voz firme, "Vocês amam a si mesmos, vocês se aproveitaram da minha generosidade e da minha lesão, mas acabou, eu não quero mais ver vocês, nunca mais".
"Sofia, não seja dramática", Lucas tentou argumentar, "É só um mal-entendido, vou te transferir um dinheiro para você comprar o que quiser, ok? Só não brigue com a Isa".
A oferta de dinheiro foi o insulto final, como se a dor dela pudesse ser comprada, como se a traição pudesse ser paga, ela lembrou de todos os anos que passaram juntos, as promessas, os sonhos compartilhados, tudo reduzido a uma transação bancária.
"Fique com o seu dinheiro, Lucas", ela disse, a voz fria como gelo, "e fique com ela, vocês se merecem".
Ela aceitou a transferência, não por ganância, mas como um pagamento final, uma indenização pela dor e pela humilhação, aquele dinheiro seria o primeiro passo para sua nova vida, ela desligou o telefone antes que eles pudessem responder, o silêncio que se seguiu foi libertador, era o som de suas correntes se quebrando.
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