
O Brilho da Traição
Capítulo 2
A umidade fria do ar condicionado do hospital parecia penetrar até os meus ossos. Eu estava no meio do meu turno, revisando os prontuários dos pacientes, quando uma voz feminina, adocicada e um pouco alta demais, soou perto de mim.
"Doutora Ana, que coincidência encontrar você aqui."
Levantei os olhos. Era Sofia, uma estudante de artes alguns anos mais nova que eu. Eu a conhecia de alguns eventos sociais. Ela estava usando um vestido justo que não parecia apropriado para o ambiente de um hospital, e o perfume forte que ela usava se espalhou pelo ar, fazendo meu nariz torcer.
"Sofia. Aconteceu alguma coisa? Alguém da sua família está doente?" perguntei, mantendo meu tom profissional.
Ela sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos.
"Não, não. Eu só vim visitar um amigo. Mas já que te encontrei, queria te perguntar uma coisa."
Ela se inclinou sobre a minha mesa, baixando a voz como se fosse um segredo.
"Aquele seu colar... é lindo. Foi o Lucas que te deu?"
Eu toquei instintivamente o pequeno pingente no meu pescoço. Era um presente de aniversário do Lucas, meu noivo.
"Sim, foi ele," respondi, sentindo um desconforto estranho.
"Ah, que fofo," ela disse, e a doçura na sua voz era enjoativa. "Ele tem um gosto tão bom, não é? Ele sempre sabe exatamente o que uma mulher gosta."
A maneira como ela disse "uma mulher" em vez de "você" me deixou em alerta. Havia algo na sua entonação, uma intimidade insinuada que não fazia sentido.
"Ele é atencioso," eu disse de forma neutra, voltando minha atenção para os papéis na minha frente, esperando que ela entendesse a dica.
Mas Sofia não se moveu. Em vez disso, ela continuou, sua voz agora carregada de uma arrogância mal disfarçada.
"Atencioso é pouco. O Lucas é incrível. Outro dia mesmo, ele me levou para jantar naquele restaurante novo, o La Mar. Você conhece? A comida é divina. Ele disse que precisava relaxar um pouco, que as coisas estavam muito tensas em casa."
Ela me olhou diretamente, esperando uma reação. O nome do restaurante, La Mar. Lucas me disse que tinha ido a um jantar de trabalho naquela noite. Uma mentira. A primeira de quantas? Senti um frio na barriga, uma sensação oca que começou a se espalhar pelo meu peito.
Outros colegas no corredor começaram a olhar em nossa direção, atraídos pela sua voz alta e sua presença chamativa.
"Ele também me deu um presente," Sofia continuou, estendendo o pulso. Havia uma pulseira delicada, com um pequeno pingente de estrela. "Ele disse que eu sou a estrela guia dele. Não é romântico?"
A raiva começou a subir pela minha garganta, quente e amarga. Ela não estava apenas insinuando, estava esfregando o caso na minha cara, no meu local de trabalho, na frente dos meus colegas. Ela queria me humilhar.
Eu respirei fundo, forçando a calma. Eu era uma médica, uma profissional. Não ia dar a ela o show que ela queria.
"Sofia," eu disse, com a voz baixa e controlada. "Como estudante, você deve saber que o estresse pode causar vários problemas de saúde. E espalhar boatos pode levar a consequências legais bastante sérias, como processos por difamação. Isso pode afetar seu futuro acadêmico e profissional. Aconselho você a ter mais cuidado com o que diz em público."
Usei meu tom de médica, o mesmo que usava para dar diagnósticos sérios. Falei sobre fatos, não sobre sentimentos. Ameaças veladas, mas profissionais.
Meu tom clínico e a menção de "consequências legais" pareceram finalmente atingi-la. O sorriso arrogante em seu rosto vacilou. Ela olhou ao redor e viu os olhares de desaprovação dos meus colegas. Uma enfermeira mais velha balançou a cabeça em desdém. O rosto de Sofia ficou vermelho. A caçadora de repente se tornou a presa.
"Eu... eu só estava brincando," ela gaguejou, recuando um passo.
"Não pareceu uma brincadeira," eu respondi, friamente.
Sem dizer mais nada, ela se virou e saiu apressada, quase correndo pelo corredor. A humilhação que ela pretendia para mim ricocheteou e a atingiu em cheio.
Por um momento, senti uma pontada de satisfação. Mas durou pouco. Assim que ela desapareceu de vista, a força que me mantinha de pé pareceu se esvair. As palavras dela ecoavam na minha cabeça. "As coisas estavam muito tensas em casa." "Ele disse que eu sou a estrela guia dele."
As letras no prontuário à minha frente começaram a borrar. Minhas mãos tremiam. Eu não conseguia me concentrar. Não conseguia mais trabalhar.
Pedi licença ao meu supervisor, dizendo que não estava me sentindo bem. Dirigi para casa em um estado de torpor, o trânsito da cidade passando por mim como um borrão. O apartamento, que sempre fora meu refúgio, agora parecia um palco de mentiras.
Para minha surpresa, Lucas estava em casa. Ele raramente chegava antes de mim. Ele estava na cozinha, preparando um chá.
"Ana, meu amor. Chegou mais cedo? Você está pálida. Aconteceu alguma coisa no hospital?"
Ele veio até mim, seu rosto transbordando preocupação. Ele pegou minhas mãos frias nas suas e as aqueceu. O cheiro familiar dele, a maneira como ele me olhava... por um instante, eu quis acreditar que tudo o que Sofia disse era uma mentira cruel.
"Só um dia cansativo," eu murmurei.
"Vem, senta. Eu fiz seu chá de camomila favorito. Vai te ajudar a relaxar."
Ele me guiou até o sofá, me cobriu com uma manta e colocou a xícara quente nas minhas mãos. Aquele gesto, tão familiar e carinhoso, foi a gota d'água. A barragem que eu havia construído no hospital se rompeu.
As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, silenciosas a princípio, depois se transformando em soluços que sacudiam meu corpo inteiro. A dor e a traição que eu estava tentando reprimir vieram à tona com uma força avassaladora.
"Ei, ei, o que foi?" Lucas me abraçou forte. "Pode chorar, meu amor. Coloca tudo pra fora. Eu estou aqui com você."
Eu chorei em seus braços, o abraço dele era ao mesmo tempo um consolo e uma tortura. Chorei pela mulher que apareceu no meu trabalho, chorei pela mentira descarada, chorei por nós.
Nós estávamos juntos desde a faculdade. Eu, na medicina, ele, na arquitetura. Passamos por tantas dificuldades juntos. Eu trabalhava em turnos duplos para ajudar a pagar as contas enquanto ele terminava seu mestrado. Eu o apoiei quando ele decidiu abrir seu próprio escritório, investindo minhas economias no sonho dele. Sacrifiquei viagens, noites de sono, tempo com amigos, tudo por um futuro que construiríamos juntos.
No ano passado, o escritório dele finalmente decolou. Ele se tornou um arquiteto de renome na cidade. Nós compramos este apartamento, ficamos noivos. Eu finalmente pensei que poderíamos colher os frutos de tanto esforço. Pensei que a felicidade tinha finalmente chegado para ficar.
Enquanto eu soluçava nos braços dele, a ironia da situação era esmagadora. O homem que me consolava era a causa da minha dor. Aquele abraço seguro era a fonte da minha mais profunda insegurança. A felicidade que eu pensava ter alcançado era uma ilusão, e a verdade, feia e cruel, estava prestes a destruir tudo.
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