
O Brilho da Traição
Capítulo 3
Lucas me segurou até meus soluços diminuírem. Ele afastava o cabelo do meu rosto, sussurrando palavras de conforto.
"Vai ficar tudo bem, Ana. Seja o que for, vamos passar por isso juntos. Você sabe disso."
Ele se afastou um pouco para olhar nos meus olhos.
"Sabe, eu estava pensando... talvez seja a hora de darmos o próximo passo. Comprar uma casa maior, nos arredores da cidade. Com um jardim. Para quando tivermos nossos filhos."
Filhos. A palavra pairou no ar, pesada. Falávamos sobre isso há anos. Era o nosso sonho. Ouvir isso dele agora, depois do que eu tinha ouvido de Sofia, me causou um calafrio. Era tudo uma farsa? Ele estava tentando me acalmar com promessas de um futuro que talvez não incluísse apenas a mim?
Enquanto eu tentava processar suas palavras, o celular dele, que estava sobre a mesa de centro, vibrou e a tela se acendeu. O nome que apareceu foi "Sofia".
Lucas viu meu olhar se fixar no aparelho. Seu corpo ficou tenso instantaneamente. Ele pegou o celular rapidamente, como se fosse algo radioativo, e virou a tela para baixo. Um pânico mal disfarçado passou por seus olhos.
"É... é do trabalho," ele gaguejou. "Uma estagiária nova, meio sem noção."
O silêncio na sala era ensurdecedor. O ar ficou denso com a mentira. Eu o observei, meu rosto sem expressão, mas por dentro, meu coração batia descontroladamente. A calma que eu forcei no hospital voltou. Uma calma fria, cortante.
"Atenda," eu disse. Minha voz saiu firme, sem tremor. "Pode ser importante."
Ele me olhou, surpreso com a minha calma.
"Não, não é nada. Eu ligo depois. Agora eu quero cuidar de você."
"Lucas," eu insisti, meu olhar fixo no dele. "Atenda o telefone."
A forma como eu disse seu nome, sem o carinho de sempre, o deixou desconfortável. Ele sabia que algo estava errado. Ele se levantou, o celular na mão.
"Ok, ok. Eu vou resolver isso rápido. Vou lá fora para não te incomodar."
Ele praticamente correu para a varanda, fechando a porta de vidro atrás de si. A pressa dele, a forma como ele queria privacidade, confirmou tudo. Não era uma estagiária sem noção. Era ela.
Meu cérebro, treinado para resolver problemas complexos sob pressão, entrou em ação. Eu não ia ficar sentada chorando. Eu precisava de provas. Provas concretas, irrefutáveis.
Peguei meu tablet na bolsa. Alguns meses atrás, depois que o carro dele foi roubado, eu o convenci a instalar um aplicativo de rastreamento em seu celular, conectado ao meu tablet. "Para emergências," eu disse na época. A emergência havia chegado.
Abri o aplicativo. Um pequeno ponto azul piscava na tela, mostrando a localização dele: a varanda do nosso apartamento. Respirei fundo e esperei.
Poucos minutos depois, o ponto azul começou a se mover. Rápido. Vi pelo aplicativo que ele desceu pelo elevador, atravessou o lobby e entrou no carro. Ele não estava resolvendo um problema de trabalho. Ele estava indo encontrá-la.
Vesti um casaco por cima do pijama, peguei as chaves do meu carro e o tablet. Eu o segui, mantendo uma distância segura, o ponto azul no meu mapa me guiando pelas ruas escuras da cidade. A perseguição me pareceu surreal, como uma cena de filme ruim. Mas era a minha vida.
Ele parou em frente a um pequeno parque a uns vinte minutos de casa. Um lugar escuro e isolado. Desliguei os faróis e estacionei do outro lado da rua, atrás de uma árvore. E então eu a vi.
Sofia estava esperando em um banco. Ela se levantou assim que viu o carro de Lucas. Ele saiu e foi até ela. Mesmo à distância, eu podia ver a urgência no corpo dele.
Abri o aplicativo de gravação de áudio do meu celular e apontei na direção deles, esperando captar alguma coisa. O vento da noite trazia fragmentos da conversa.
"...você não podia me ligar assim! E se a Ana visse?" a voz de Lucas era um sussurro irritado.
"Eu não aguento mais, Lucas!" a voz de Sofia era chorosa e manhosa. "Você disse que ia conversar com ela! Por que você ainda está com aquela sem graça? Ela nem te faz feliz!"
Sem graça. A palavra me atingiu como um tapa. Para ele, eu era a esposa troféu, a médica bem-sucedida. Para ela, eu era apenas "aquela sem graça".
"Sofia, por favor, agora não é a hora," ele tentou acalmá-la.
"Eu fui até o hospital hoje," ela confessou.
O corpo de Lucas ficou rígido. "Você o quê? Você ficou louca? Eu te disse para ficar longe dela!"
"Eu queria ver a cara dela! Eu queria que ela soubesse que você é meu!" A voz de Sofia era possessiva, infantil.
Enquanto eu ouvia, vi Lucas passar a mão pelo rosto, um gesto de frustração. Mas em vez de ir embora, ele a puxou para um abraço. Ele acariciou o cabelo dela, beijou sua testa. As mesmas coisas que ele tinha feito por mim menos de uma hora atrás. Meu estômago se revirou de nojo. A hipocrisia dele era sufocante.
"Meu amor, me desculpa," ele sussurrou, e desta vez o vento trouxe suas palavras claras para mim. "Você sabe que é você que eu amo. É com você que eu quero ficar."
Cada palavra era uma facada. Eu estava ali, no escuro, ouvindo o homem com quem planejei uma vida inteira prometer essa mesma vida para outra mulher.
"Então por que você não larga ela?" Sofia pressionou, sua voz agora mais forte. "Peça o divórcio. Vamos ficar juntos de uma vez por todas."
Houve uma pausa. A atitude de Lucas mudou.
"Nós vamos, eu prometo," ele disse, mas sua voz não tinha a mesma convicção. "Só preciso de um pouco mais de tempo. As coisas são complicadas. Temos muitas coisas em comum, os bens, a família... Não é tão simples."
Ele a estava enrolando. Ele queria as duas. A segurança e o status que eu proporcionava, e a emoção e a novidade que ela representava.
"Eu te amo, Sofia. Confie em mim," ele disse, beijando-a.
Eu desliguei a gravação. Eu tinha ouvido o suficiente. Vi o suficiente. Sentei-me no meu carro, no escuro, tremendo de raiva e de dor. A imagem do beijo deles estava gravada na minha mente. A verdade não era mais uma suspeita. Era um fato, cruel e irrefutável. A vida que eu conhecia tinha acabado naquele exato momento.
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