
O Bombeiro e a Mentira
Capítulo 2
O teto desabou de repente.
A escuridão e o pó encheram os meus pulmões, o meu mundo reduziu-se a um pequeno espaço debaixo de uma viga de betão.
O meu telemóvel era a minha única luz.
Eu estava grávida de oito meses. O meu corpo doía, mas a minha principal preocupação era o bebé. Coloquei a mão sobre a minha barriga, rezando para que ele estivesse bem.
Liguei para o meu marido, Marcos.
Ele era bombeiro. A sua equipa estaria aqui. Ele salvar-me-ia.
A chamada foi atendida ao segundo toque.
"Sofia? Onde estás?" A voz dele soava tensa, mas distante. Havia caos do outro lado.
"Marcos, estou presa," disse eu, a minha voz a tremer. "No centro comercial. A loja de bebés. O teto cedeu."
"Eu sei, estou cá. A equipa está a evacuar a área principal. Fica onde estás, não te mexas. Vou tentar chegar aí."
Senti um alívio imenso. Ele estava aqui. Ele viria por mim.
Esperei. Os minutos pareciam horas. Podia ouvir gritos, sirenes e o som de destroços a serem movidos.
Então, ouvi uma voz familiar, muito perto. Era o Marcos.
O meu coração saltou.
"Marcos!", gritei o mais alto que pude. "Estou aqui! Debaixo da placa da loja!"
Houve uma pausa.
Depois, ouvi a voz dele, clara e perto. Mas ele não estava a falar comigo.
"Calma, Clara, já estou a tirar o Miau daí."
Clara. A irmã do seu falecido melhor amigo. E Miau era o gato dela.
"Oh, Marcos, obrigada! Pensei que o tinha perdido para sempre!" A voz chorosa de Clara era inconfundível.
Eles estavam do outro lado de uma parede de gesso cartonado partida. A loja de animais ficava ao lado da loja de bebés.
A secção deles não tinha colapsado totalmente. Era uma área de baixo risco.
Eu estava debaixo de toneladas de betão.
O meu marido, um bombeiro treinado, estava a poucos metros de distância, a salvar o gato de outra mulher.
O meu telemóvel escorregou da minha mão. A luz apagou-se.
A escuridão voltou, mas desta vez, era total.
Você pode gostar





