
O Bombeiro e a Mentira
Capítulo 3
Não sei quanto tempo passou.
A consciência ia e vinha, como uma maré fraca.
A próxima coisa que senti foram mãos a remover os escombros à minha volta. Uma luz forte no meu rosto.
"Encontrámos uma! Grávida!"
As vozes eram de estranhos. Eram outros bombeiros, não o Marcos.
Levaram-me numa maca, através do caos de pó e sirenes. Vi o Marcos à distância.
Ele estava de pé ao lado da Clara, a segurar uma caixa de transporte de animais. O gato.
Os nossos olhos encontraram-se por um segundo. Vi pânico no rosto dele, mas ele não se moveu na minha direção. Ele ficou com ela.
Acordei num hospital. O cheiro a antisséptico era avassalador.
Uma enfermeira estava a ajustar o meu soro.
"O meu bebé," murmurei, a minha garganta seca. "O meu bebé está bem?"
A enfermeira deu-me um olhar triste e saiu da sala.
Momentos depois, um médico entrou. Ele não olhou nos meus olhos. Tinha aquele ar profissional e distante que as pessoas usam para dar más notícias.
As palavras dele foram diretas.
"Lamento, senhora. Devido ao trauma e à falta de oxigénio, não conseguimos salvar o bebé. Tivemos de realizar uma cirurgia de emergência."
O mundo ficou em silêncio.
As palavras dele ecoavam na minha cabeça, mas não faziam sentido.
Perdemos o bebé.
Toquei na minha barriga. Antes, estava redonda e firme, cheia de vida. Agora, estava mole, vazia.
Uma dor oca espalhou-se pelo meu peito, um vazio que era físico e real.
Não havia bebé.
Não havia mais nada que me prendesse ao Marcos.
O divórcio era a única resposta.
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