
O Bilionário Que Me Chamou de Chata
Capítulo 3
Ponto de Vista: Carla Beatriz
O mundo voltou a ter foco, um caleidoscópio embaçado de branco e cheiros estéreis.
Ouvi vozes abafadas, o bipe rítmico de máquinas.
Minha cabeça latejava, uma dor surda atrás dos meus olhos.
"Ela está acordando", murmurou uma voz suave.
Um rosto gentil, emoldurado por cabelos escuros e olhos amáveis, olhou para mim.
Uma enfermeira.
"Onde... onde estou?", grasnei, minha garganta seca e áspera.
"Você está no hospital, querida", disse ela, sua voz calmante. "Você levou um susto."
Um susto. Isso era um eufemismo.
Então tudo voltou de uma vez: a mensagem de voz, as mentiras de Gui, sua saída apressada, a dor.
Os bebês. Minhas mãos voaram para minha barriga, uma busca frenética pela protuberância familiar.
Estava lisa. Terrivelmente lisa.
O rosto da enfermeira se suavizou, um olhar de profunda tristeza sombreando suas feições.
"Eu sinto muito, querida", ela sussurrou, sua mão cobrindo gentilmente a minha. "Fizemos tudo o que podíamos."
Meu coração se partiu, de novo.
Lágrimas escorreram pelo meu rosto, quentes e silenciosas.
Os gêmeos. Se foram.
O último e frágil fio que me conectava a Gui, rompido.
Mas mesmo através da dor avassaladora, uma estranha sensação de clareza emergiu.
Eles se foram por causa dele, por causa de sua traição, de seu descaso insensível.
Ele havia tirado tudo de mim.
Minha confiança, meu futuro, meus bebês.
Não havia mais nada a perder.
Nada mais para ele tirar.
A porta rangeu ao se abrir e Gui entrou, seu rosto marcado pela preocupação, mas também com um toque de impaciência.
Ele correu para o meu lado da cama, sua mão buscando a minha.
Eu me afastei, meu olhar frio.
"Carla, meu amor", ele começou, sua voz tingida de uma ternura forçada. "Voltei correndo assim que soube. O que aconteceu?"
Sua preocupação parecia uma performance, uma zombaria cruel do que eu acabara de perder.
"Não", eu disse, minha voz pouco acima de um sussurro, mas afiada o suficiente para cortar.
Ele parou, sua mão pairando no ar.
"Não o quê, Carla?", ele perguntou, a testa franzida.
"Não finja", respondi, meu olhar queimando nele. "Não finja que se importa."
Ele recuou como se eu o tivesse atingido.
"Claro que me importo! Você é minha esposa! E... e os bebês..." Sua voz sumiu, um brilho de tristeza genuína em seus olhos.
Mas era tarde demais.
As palavras eram ocas, sem sentido.
"Eles se foram, Gui", eu disse, a verdade uma pílula amarga. "Por sua causa."
Seu rosto perdeu a cor.
"Do que você está falando?", ele gaguejou, seus olhos arregalados com uma confusão que parecia real.
"Eu ouvi a mensagem de voz", repeti, minha voz mais forte agora. "A Bruna. Sua 'paixão'. Sua 'adrenalina'. E eu? Apenas 'confortável'. Apenas um 'estepe'."
As palavras pairaram no ar, pesadas de acusação.
Ele se afundou na cadeira ao lado da minha cama, a cabeça entre as mãos.
"Carla, eu posso explicar", ele murmurou, sua voz abafada.
"Não há nada a explicar", eu disse, minha voz fria como gelo. "Acabou, Gui. Desta vez, para sempre."
Ele olhou para cima, seus olhos avermelhados, um brilho de pânico neles.
"Não", disse ele, sua voz suplicante. "Por favor, Carla. Não diga isso. Podemos consertar isso. Eu vou terminar com a Bruna, completamente. Eu juro."
"Você jurou antes", lembrei-o, uma risada sem alegria escapando dos meus lábios. "E o que aconteceu? Você correu para ela no momento em que ela ligou, me deixando aqui, sangrando, perdendo nossos filhos."
As palavras pairaram no ar, um soco em seu estômago.
Ele desviou o olhar, incapaz de encontrar o meu.
"Eu te dou qualquer coisa", disse ele, desesperado agora. "Qualquer coisa que você quiser. Mais dinheiro, uma casa nova, qualquer coisa."
"Eu não quero seu dinheiro, Gui", eu disse, minha voz cheia de uma finalidade que abalou até a mim. "Eu quero minha vida de volta. A que você roubou, duas vezes."
Uma enfermeira entrou no quarto, sua voz suave, mas firme.
"Sr. Schwartz, o horário de visitas acabou. A Sra. Schwartz precisa descansar."
Gui a fuzilou com o olhar, mas ela se manteve firme.
Ele se virou para mim, seus olhos suplicantes.
"Carla, por favor. Pense sobre isso. Não tome nenhuma decisão precipitada."
"A decisão foi tomada", eu disse, minha voz firme. "Vou me divorciar de você, Gui."
Seu queixo caiu, mas nenhuma palavra saiu.
"E", continuei, uma satisfação fria se espalhando por mim, "vou embora. De São Paulo. De você. De tudo."
Ele me encarou, seus olhos arregalados com uma mistura de choque e descrença.
Ele achou que me tinha, não é?
Ele achou que eu sempre voltaria, sempre perdoaria, sempre seria sua Carla "confortável".
Ele estava enganado. Tão enganado.
Ele tentou dizer algo, mas a enfermeira, gentilmente, mas com firmeza, o acompanhou para fora do quarto.
Ele desapareceu, me deixando sozinha no silêncio do quarto de hospital.
Sozinha, mas livre.
A dor em meu coração ainda era imensa, um buraco negro de luto.
Mas por baixo dela, uma pequena faísca de algo novo se acendeu.
Liberdade.
Fechei os olhos, uma única lágrima escapando, não de tristeza, mas de uma resolução feroz e inabalável.
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