
O BEBÊ DO PIANISTA
Capítulo 3
- O melhor passatempo de Daniela é falar sobre você. - Sincero, tinha um sorriso nos lábios ao dizer - Sei que você tem medo de água porque se afogou na piscina de sua avó aos seis anos. Sei que aos quinze anos era motivo de piada no colégio por usar um aparelho dentário horrível e não ter seios... - Corei e me afundei no banco - Ah, também sei que é alérgica a mel e odeia cerejas.
- Parece que você sabe mesmo sobre mim e mamãe adora me constranger, como de costume! - Pousei o braço na janela e desviei o olhar do dele - Contou até sobre meu trauma com os seios! Não posso esperar mais nada positivo vindo dela... - Heitor riu sonoramente.
- Não se preocupe! Comigo seus segredos estarão bem guardados, posso prometer.
- Vejo que vocês são bem amigos. - Dei uma ênfase na palavra "bem" - Então acredito que você conheça o senhor que ela namora, não é? Quero dizer, o meu novo padrasto... Você o conhece?
Heitor paralisou por alguns instantes, antes de prosseguir.
- Sim, o conheço. - Assentiu levemente, ainda concentrado em dirigir.
- Mamãe não tem jeito! Sei que somente vai se casar para pôr a mão no dinheiro do coitado! Ela passou a vida repudiando casamento e agora quer se casar com um milionário? - Balancei a cabeça de maneira indignada - Isso porque ela dizia que jamais se casaria por dinheiro, hein? - Heitor continuava com expressão relaxada enquanto dirigia - Aposto que ele tem uma doença terrível ou mais de oitenta anos e vai logo partir. Não há outro motivo para mamãe querer casar aos quarenta e nove anos!
- Não existe idade para o amor, Bianca. - Sua voz soou grave - Isso é algo incontestável.
- Oh, eu sei! - Tirei meus óculos de sol da face - Mas minha mãe não ama esse homem e isso eu posso garantir. Daniela ama somente a ela mesma.
Não demorou até chegarmos na garagem da casa de minha mãe, uma luxuosa propriedade aos arredores da pequena cidade. Heitor estacionou o carro com cuidado e se voltou para mim assim que o fez, avaliando meu rosto minunciosamente.
- Você não se parece com Daniela... - Tinha o olhar fixo em minha face por trás dos escuros óculos dele - Em nada, realmente.
Algo indescritível me fez paralisar enquanto Heitor me estudava o rosto cuidadosamente. Senti as bochechas corando e pigarreei pelo desconforto que senti quando certo calor me dominou o corpo, dos pés à cabeça.
- Me pareço com papai. Pelo menos é o que dizem... Podemos ir?
Desci do carro com a ajuda dele e, ao firmar os pés no chão, dei um giro completo pelo lugar. Tratava-se da mesma vista de antes, aquela guardada em minha mente. Aquela era a casa que deixei aos dez anos para morar com papai, a antiga mansão de meus pais, um renomado médico que se casou com uma modelo famosa.
Ambos viveram um casamento tortuoso, tiveram uma filha e tudo piorou. No fundo, eu sabia que parte da culpa era minha. Talvez o fato de nunca ter me dado bem com Daniela influenciou meu pai a deixar tudo e me levar com ele. Tudo que ele não queria era continuar sofrendo ao lado da tempestuosa Daniela e também me tirou de sua mira.
Apesar de tudo, ainda ficávamos juntas em minhas férias de verão em todos os anos e nos encontrávamos por ela ser minha mãe, não por minha livre vontade.
Eu a amei, amo e sempre irei amar, mas dentro de mim, sinto como se Daniela fosse uma irmã mais velha ou uma tia inconsequente. Não tínhamos um vínculo grande e a palavra maternidade não se encaixa no vocabulário dela. Em meu mundo, minha única mãe era minha madrasta Anne e nada parecia mudar essa percepção.
Nossa relação, além de tudo, era uma grande amizade. Conversámos sobre homens, sobre minha virgindade, o sexo em si e meus planos para quando finalmente minha vida desprender da barra das calças de meu pai.
Eu a respeitava e amava, talvez não como aos olhos de uma filha, mas como uma melhor amiga. A melhor amiga que há vinte anos me deu a vida.
- Ainda é como você se lembra? - Ouvi a voz dele ecoando atrás de mim, quase colada ao meu ouvido. Um arrepio estranho percorreu todo meu corpo e me movi com a sensação.
- Sim, está exatamente igual...
Para me livrar de sua proximidade, caminhei em direção a casa e Heitor, de maneira educada, abriu a porta para mim. Sua gentileza o tornava formidável, mas tentei não me impressionar, principalmente por perceber a maneira diferente como me olhava.
De fato, era lindo, mas eu não tinha experiência com homens e não estava disposta a arrumar problemas com os "amigos" de minha mãe. A maioria não costumava prestar, apesar de Heitor parecer ser diferente dos demais.
- Você sabe quando Daniela chega? - Questionei ao entrar na casa familiar e me sentar no sofá confortável.
- Após o almoço, acredito. - Heitor parou ao lado da janela de vidro aberta com as mãos enfiadas nos bolsos. A paisagem me permitia ver o jardim e a pequena plantação de flores coloridas em meio a ele.
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