
O Apagão que Acendeu a Liberdade
Capítulo 2
O médico confirmou a morte do meu pai às três da manhã, ao mesmo tempo que o meu casamento chegava ao fim.
A cidade inteira estava mergulhada na escuridão, um apagão total que ninguém previa.
Na televisão da sala de espera, um jornalista de rosto sério falava sobre a crise. "O apagão em Lisboa já dura seis horas, causando o caos. Os serviços de emergência estão sobrecarregados. O Hospital de Santa Maria funciona com geradores de emergência, mas a situação é crítica."
Eu estava sentada num banco de plástico frio, o cheiro a desinfetante a entrar-me pelas narinas.
O meu corpo ainda doía por causa do aborto espontâneo.
Tentei ligar ao meu marido, João.
O telefone chamou, uma e outra vez, um som oco no corredor silencioso do hospital.
Finalmente, ele atendeu. A sua voz estava tensa, irritada.
"O que foi, Beatriz? Estou ocupado, não vês que a cidade inteira está um caos?"
Antes que eu pudesse responder, ouvi outra voz ao fundo, uma voz que eu conhecia demasiado bem.
Era a Sofia, a ex-namorada dele.
"João, querido, o Miau não para de tremer. Achas que ele vai ficar bem? Estou tão assustada."
A voz do João suavizou-se instantaneamente, tornando-se num sussurro reconfortante.
"Calma, Sofia. Eu estou aqui. O gerador que eu trouxe vai manter as luzes acesas e o aquecedor a funcionar. O Miau só está assustado com o escuro. Vai ficar tudo bem."
Eu agarrei o telefone com força.
"João," disse eu, a minha voz a tremer. "O meu pai... ele teve um ataque cardíaco. E eu... eu perdi o bebé."
Silêncio. Apenas por um segundo.
Depois, a raiva dele explodiu através do telefone.
"Perdeste o bebé? Como assim? E o que é que eu podia fazer? Voar até aí? A Sofia estava sozinha no escuro, o gato dela estava a morrer de frio! Eu tive de a ajudar, ela não tem mais ninguém!"
"Ela não tem mais ninguém? E eu? E o meu pai? Nós não somos nada para ti?"
"Não sejas dramática, Beatriz! Tu sabes como a Sofia é sensível. Além disso, o teu pai está num hospital, rodeado de médicos! O que é que eu ia fazer lá? Deixa de ser egoísta!"
Egoísta.
Eu, que tive de chamar uma ambulância sozinha enquanto sangrava.
Eu, que vi o meu pai cair no chão, com a mão no peito.
Eu, que esperei horas por notícias, sozinha neste corredor.
Eu era a egoísta.
"Vamos divorciar-nos, João."
A minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Ele riu, um som feio e cruel.
"Divórcio? Estás a brincar? Vais deitar fora o nosso casamento por causa de um apagão estúpido? Cresce, Beatriz. A vida real é dura. Para de fazer birra."
Ele desligou.
Tentei ligar de volta. O número estava bloqueado.
O telefone escorregou da minha mão e caiu no chão com um baque surdo.
Olhei para a porta da unidade de cuidados intensivos.
O meu pai estava lá dentro. Morto.
O nosso bebé tinha-se ido.
E o meu marido estava a consolar a ex-namorada porque o gato dela estava com frio.
O divórcio não era uma birra.
Era uma necessidade.
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