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Capa do romance O Apagão que Acendeu a Liberdade

O Apagão que Acendeu a Liberdade

No meio de um apagão em Lisboa, Beatriz vive o pior pesadelo: a morte do pai e a perda do filho. Ao buscar apoio no marido, João, descobre que ele a trocou para cuidar do gato da ex-namorada, Sofia. Humilhada e chamada de egoísta pela família dele após o trauma, Beatriz percebe a negligência cruel em que vivia. Diante do abandono no hospital, ela encontra uma força inesperada para encerrar o casamento e exigir o divórcio, escolhendo finalmente a sua liberdade.
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Capítulo 2

O médico confirmou a morte do meu pai às três da manhã, ao mesmo tempo que o meu casamento chegava ao fim.

A cidade inteira estava mergulhada na escuridão, um apagão total que ninguém previa.

Na televisão da sala de espera, um jornalista de rosto sério falava sobre a crise. "O apagão em Lisboa já dura seis horas, causando o caos. Os serviços de emergência estão sobrecarregados. O Hospital de Santa Maria funciona com geradores de emergência, mas a situação é crítica."

Eu estava sentada num banco de plástico frio, o cheiro a desinfetante a entrar-me pelas narinas.

O meu corpo ainda doía por causa do aborto espontâneo.

Tentei ligar ao meu marido, João.

O telefone chamou, uma e outra vez, um som oco no corredor silencioso do hospital.

Finalmente, ele atendeu. A sua voz estava tensa, irritada.

"O que foi, Beatriz? Estou ocupado, não vês que a cidade inteira está um caos?"

Antes que eu pudesse responder, ouvi outra voz ao fundo, uma voz que eu conhecia demasiado bem.

Era a Sofia, a ex-namorada dele.

"João, querido, o Miau não para de tremer. Achas que ele vai ficar bem? Estou tão assustada."

A voz do João suavizou-se instantaneamente, tornando-se num sussurro reconfortante.

"Calma, Sofia. Eu estou aqui. O gerador que eu trouxe vai manter as luzes acesas e o aquecedor a funcionar. O Miau só está assustado com o escuro. Vai ficar tudo bem."

Eu agarrei o telefone com força.

"João," disse eu, a minha voz a tremer. "O meu pai... ele teve um ataque cardíaco. E eu... eu perdi o bebé."

Silêncio. Apenas por um segundo.

Depois, a raiva dele explodiu através do telefone.

"Perdeste o bebé? Como assim? E o que é que eu podia fazer? Voar até aí? A Sofia estava sozinha no escuro, o gato dela estava a morrer de frio! Eu tive de a ajudar, ela não tem mais ninguém!"

"Ela não tem mais ninguém? E eu? E o meu pai? Nós não somos nada para ti?"

"Não sejas dramática, Beatriz! Tu sabes como a Sofia é sensível. Além disso, o teu pai está num hospital, rodeado de médicos! O que é que eu ia fazer lá? Deixa de ser egoísta!"

Egoísta.

Eu, que tive de chamar uma ambulância sozinha enquanto sangrava.

Eu, que vi o meu pai cair no chão, com a mão no peito.

Eu, que esperei horas por notícias, sozinha neste corredor.

Eu era a egoísta.

"Vamos divorciar-nos, João."

A minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

Ele riu, um som feio e cruel.

"Divórcio? Estás a brincar? Vais deitar fora o nosso casamento por causa de um apagão estúpido? Cresce, Beatriz. A vida real é dura. Para de fazer birra."

Ele desligou.

Tentei ligar de volta. O número estava bloqueado.

O telefone escorregou da minha mão e caiu no chão com um baque surdo.

Olhei para a porta da unidade de cuidados intensivos.

O meu pai estava lá dentro. Morto.

O nosso bebé tinha-se ido.

E o meu marido estava a consolar a ex-namorada porque o gato dela estava com frio.

O divórcio não era uma birra.

Era uma necessidade.

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