
O Apagão que Acendeu a Liberdade
Capítulo 3
O meu pai tinha uma apólice de seguro de vida.
O beneficiário era a minha mãe, falecida há dez anos. Eu era a beneficiária secundária.
O advogado, um velho amigo da família, sentou-se à minha frente no seu escritório abafado, os seus olhos cheios de pena.
"Beatriz, o teu pai deixou tudo para ti. A casa, as poupanças... e este seguro."
Ele empurrou os papéis pela mesa. O valor era substancial. O suficiente para eu nunca mais ter de me preocupar com dinheiro.
O meu pai sempre cuidou de mim.
Mesmo depois de morrer.
Uma lágrima silenciosa escorregou pela minha cara. Eu limpei-a rapidamente.
Quando saí do escritório, o sol brilhava. A cidade tinha recuperado a energia, mas a minha vida continuava às escuras.
O meu telemóvel vibrou. Era a minha sogra, a Clara.
"Beatriz? Onde é que te meteste? O João está preocupadíssimo contigo!"
Preocupado? Ele bloqueou o meu número.
"Estou a tratar das coisas do funeral do meu pai," respondi, a minha voz vazia de emoção.
Houve uma pausa.
"Ah, sim. O funeral. Que triste. Mas ouve, tens de entender o João. A Sofia estava em pânico. Ele é um bom homem, tem um coração enorme. Ele ajuda toda a gente."
Toda a gente, exceto a sua própria família.
"Ele não me atendeu o telefone, Clara. Eu estava a perder o nosso filho."
"Oh, querida, eu sei que é difícil. Mas essas coisas acontecem. Talvez não fosse para ser. Agora tens de ser forte, pelo teu marido. Ele precisa do teu apoio. A Sofia está a passar por um momento muito mau, coitadinha."
Eu não conseguia acreditar no que estava a ouvir.
A minha perda, a morte do meu pai, tudo era secundário. A prioridade era o bem-estar da Sofia.
"Eu pedi o divórcio ao João," disse eu, cortando o seu discurso.
O silêncio do outro lado da linha foi pesado, carregado de desaprovação.
"Divórcio? Depois de tudo o que o meu filho fez por ti? Tu és uma ingrata, Beatriz. Ele deu-te uma vida boa, uma família. E tu deitas tudo fora por um capricho? Vais arrepender-te disto."
Ela desligou.
Claro que ia.
Arrepender-me de não o ter feito mais cedo.
Voltei para a casa dos meus pais, a casa que agora era minha. Estava silenciosa, cheia de fantasmas.
Sentei-me no sofá velho do meu pai e comecei a fazer uma lista.
A primeira coisa na lista: contratar o melhor advogado de divórcios de Lisboa.
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