
O Anseio Dele, Meu Coração Desfalecente
Capítulo 2
A casa estava imersa em um silêncio sufocante, cada sombra alongada e ameaçadora na penumbra. Eu estava sentada sozinha na sala de estar, uma figura solitária diminuída pelos móveis caros que me pareciam estranhos. O ar estava pesado, denso com palavras não ditas e ressentimento crescente.
Faróis cortaram a escuridão lá fora, fatiando a grande janela panorâmica, um flash momentâneo que anunciava sua chegada. Meu coração, já uma coisa machucada, deu um salto doloroso.
A porta da frente se abriu, deixando entrar uma rajada de ar frio da noite, e Rodrigo entrou. Sua mão foi para o interruptor de luz, e a sala foi instantaneamente inundada por um brilho ofuscante e indiferente. Ele me viu, sentada ali, mas seu olhar se desviou, já focado nas escadas, sua intenção de desaparecer no andar de cima era clara.
"Rodrigo." Eu disse seu nome, um apelo desesperado em minha voz, na esperança de prendê-lo a este momento, a mim.
Ele não parou. Seus passos não vacilaram, nem mesmo diminuíram. Ele continuou se movendo, um fantasma em sua própria casa, me deixando lutando em seu rastro.
Minhas mãos se fecharam em punhos apertados, as unhas cravando em minhas palmas, a dor uma distração bem-vinda da dor mais profunda. Levantei a cabeça, um sorriso frágil e determinado em meus lábios.
"Eu quero o divórcio."
Seus passos vacilaram. Ele parou. Lentamente, ele se virou. Iluminado pela luz forte do teto, sua silhueta era formidável, inflexível. Ele parecia menos um homem e mais uma estátua imponente e inacessível.
Meus olhos traçaram os ângulos agudos de seu rosto, a mandíbula forte, os olhos frios e distantes. Dez anos. Dez anos eu o amei, me dediquei a ele. Dez anos de sacrifício, de esperar por um amor que nunca floresceria. Era hora de deixar ir. Eu não deveria mais sobrecarregá-lo.
"Isso é mais um dos seus joguinhos, Helena?", sua voz era monótona, carregada de um desprezo mal disfarçado. "Alguma nova tática para conseguir o que quer?"
Levantei-me do sofá, movendo-me com uma nova determinação. Minha mão foi para minha bolsa, tirando os papéis do divórcio cuidadosamente dobrados. Meus dedos roçaram na forma familiar do frasco de analgésicos lá dentro. Por um momento, meu olhar se demorou ali, um reconhecimento silencioso da batalha constante que se travava dentro do meu corpo. Então, fechei a bolsa, colocando-a deliberadamente na mesa de centro, optando por esconder minha vulnerabilidade por enquanto.
Caminhei em sua direção, o documento assinado estendido como uma oferta de paz, ou talvez uma rendição.
"Estou te libertando, Rodrigo", eu disse, forçando um tom leve, quase alegre, que rachou nas bordas. Meu sorriso parecia quebradiço, frágil. "Não quero mais te prender."
Um pensamento amargo passou pela minha mente: Se eu soubesse desde o início que seu coração pertencia a outra pessoa, eu nunca teria me casado com você.
Seus olhos piscaram para a linha da assinatura, então ele arrancou os papéis da minha mão. Ele não os leu. Em vez disso, ele os bateu contra meu ombro, os papéis farfalhando com um desdém irônico.
"Tentando conseguir uma fatia maior dos bens agora, é?", ele zombou, seus lábios se curvando em nojo.
Eu congelei, a acusação uma ferida nova. "Não", sussurrei, minha voz quase inaudível. "Eu não quero seu dinheiro."
Ele não disse nada, apenas me encarou, seu olhar frio e incrédulo. O silêncio se estendeu, denso com sua desconfiança.
Três anos atrás, quando sua família enfrentou a ruína, eu desapareci por um curto período, retornando com uma solução que ele se recusava a acreditar que pudesse ser inocente. Ele ouviu rumores, me viu com outro homem — Gustavo Neves — um homem cuja família poderosa poderia ter salvado a sua. Ele concluiu que eu era uma mulher calculista, vendendo-me por riqueza.
Ele se lembrou de como seu pai o forçou a se casar comigo, um movimento que ele ressentia profundamente, convencido de que fora obra minha. Seu ódio por mim só havia aumentado desde então.
Seus olhos estavam cheios de um desprezo arrepiante. "Suma daqui, Helena."
Abri os braços, bloqueando seu caminho. "Estou te libertando, Rodrigo", repeti, uma sinceridade desesperada em minha voz agora. "Não quero nada. Eu até assino um acordo pré-nupcial, se você quiser. Uma garantia."
Ele me olhou, uma expressão estranha, quase divertida, em seu rosto. "Existe outra pessoa", ele disse, sua voz suave, quase lírica, mas cada palavra era um caco de gelo perfurando meu coração. "E eu pretendo me casar com ela, com toda a pompa e circunstância que ela merece."
Minha respiração engasgou. O ar saiu dos meus pulmões em uma corrida dolorosa.
"E eu não posso fazer isso", ele continuou, sua voz endurecendo, "enquanto ainda estiver enredado com você."
A porta da frente bateu com força, ecoando pela casa oca. Ouvi o chuveiro ligado em seu banheiro, um jato constante de água fria. Ele provavelmente estava tentando lavar a presença persistente de mim. Seus nós dos dedos estavam brancos, cerrados com tanta força que pareciam sem sangue. Ele também estava sofrendo, à sua maneira, embora eu soubesse que não era por mim.
Virei-me, meu olhar caindo sobre os papéis do divórcio espalhados no chão. Lentamente, me abaixei e os peguei, alisando as dobras. Estava feito.
Meu telefone tocou, um som estridente na casa silenciosa. Era minha mãe. Sua voz estava frenética, engasgada com lágrimas. "Seu pai... ele está doente, Helena! Em estado grave!"
Corri para o hospital. Lá, a verdade me atingiu com a força de um maremoto. O negócio da minha família estava à beira do colapso, cambaleando à beira da falência. Assim como o de Rodrigo estivera, anos atrás.
Suas palavras, suas acusações de mais cedo, de repente fizeram um sentido arrepiante. Ele sabia. Ele sempre soube.
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