
O Anel Partido
Capítulo 2
Sofia sentiu o tecido caro do vestido de festa roçar em sua pele, uma sensação que deveria ser de luxo, mas que agora parecia uma fantasia mal ajustada. A música alta do salão ecoava em sua cabeça, mas o único som que ela realmente ouvia era o riso de Daniel, seu noivo, vindo de um canto mais afastado. Ele estava com Isabela. Claro que ele estava com Isabela.
Ela apertou a taça de champanhe com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos, uma tentativa inútil de conter a tremedeira que ameaçava tomar conta de seu corpo. Todos ali, toda a elite da cidade, viam Daniel e Sofia como o casal perfeito, herdeiros de fortunas que se uniriam em um casamento de conto de fadas. Ninguém via a rachadura que se aprofundava a cada dia, a sombra de Isabela que pairava sobre tudo.
"Eles formam um belo par, não acha?" uma voz conhecida disse ao seu lado. Era uma das amigas de sua mãe, com um sorriso que não alcançava os olhos.
Sofia forçou um sorriso de volta, um movimento que doeu em seus músculos faciais.
"Sim, Daniel é sempre o centro das atenções."
Ela não precisava olhar para saber o que estava acontecendo. Sabia como Isabela se inclinava na direção dele, o jeito que sua mão "acidentalmente" tocava o braço dele, os segredos sussurrados que faziam Daniel sorrir de um jeito que ele não sorria mais para ela. A familiaridade entre eles era uma ofensa, uma traição silenciosa que acontecia bem debaixo de seu nariz.
A memória do dia anterior a atingiu com força. O aniversário de casamento deles. Cinco anos juntos. Ela havia preparado um jantar especial, decorado o apartamento com as flores favoritas dele, esperando por uma noite que pudesse, talvez, consertar as coisas. Daniel chegou tarde, com o cheiro do perfume de Isabela impregnado em seu casaco. Ele disse que estava ajudando-a com um "problema urgente".
"Você sabe como a Isa é," ele disse, com uma naturalidade que a destruiu. "Ela não tem mais ninguém."
Naquele momento, olhando para a vela solitária derretendo na mesa de jantar, Sofia sentiu um pedaço de si mesma se apagar. A esperança que ela guardava com tanto cuidado finalmente se extinguiu. O jantar ficou intocado.
Agora, na festa, a realidade era ainda mais cruel. Daniel e Isabela não se escondiam mais. Eles estavam ali, para todos verem, e a indiferença de Daniel em relação à presença de Sofia era a confirmação final. A humilhação queimava em seu rosto.
De repente, o som de vidro se quebrando cortou a música. Um garçom havia tropeçado, derrubando uma bandeja cheia de taças. Por um instante, todos os olhares se voltaram para a confusão. Todos, exceto os de Daniel. Seus olhos, que um dia foram seu porto seguro, estavam fixos em Isabela, garantindo que ela estava bem, seu corpo posicionado como um escudo protetor. Ele nem sequer olhou na direção de Sofia.
Aquele pequeno gesto foi o estopim. A taça de champanhe ainda em sua mão, Sofia caminhou decidida na direção deles. A música pareceu diminuir, o mundo se afunilando naquele pequeno círculo de traição.
"Daniel," ela disse, sua voz surpreendentemente firme.
Ele se virou, a surpresa em seu rosto rapidamente substituída por uma irritação mal disfarçada. Isabela se encolheu atrás dele, o rosto pálido, uma imagem de fragilidade que Sofia sabia ser uma completa farsa.
"Sofia, o que foi? Não vê que estou ocupado?"
"Ocupado?" A palavra saiu com um escárnio que ela não tentou esconder. "Sim, eu vejo. Mas nosso noivado acabou."
Ela tirou o anel de diamante do dedo, o anel que ele havia lhe dado em uma praia em Capri, com promessas de um amor eterno. O metal estava frio em sua palma. Ela não o jogou, não fez uma cena dramática. Simplesmente abriu a mão de Daniel e colocou o anel ali.
"Eu não quero mais isso," ela disse, olhando diretamente nos olhos dele. "E não quero mais você."
Daniel olhou para o anel em sua mão, depois para o rosto dela, a confusão dando lugar à raiva.
"Você está louca? Fazer uma cena aqui?" ele sibilou, sua voz baixa e ameaçadora.
"A cena?" Sofia riu, um som sem alegria. "A cena é você, Daniel. É vocês dois. Eu só estou encerrando o espetáculo."
Ela se virou para ir embora, mas a voz de Daniel a parou.
"Você vai se arrepender disso, Sofia. Você não é nada sem mim."
Aquelas palavras, ditas com tanto veneno, foram o golpe final. Ela não se virou. Não lhe deu a satisfação de ver suas lágrimas. Apenas continuou andando, atravessando o salão lotado, sentindo os olhares curiosos como queimaduras em suas costas.
Ao passar por uma mesa, seu olhar captou o reflexo em um balde de gelo. A imagem de uma mulher com o rosto manchado de rímel, os olhos vazios. Por um segundo, ela não se reconheceu. A dor era tão intensa que parecia ter roubado sua própria identidade.
Ela pegou o celular da bolsa e, com os dedos trêmulos, discou o número de sua mãe. Mas antes que pudesse completar a chamada, uma mensagem de Daniel chegou, vibrando em sua mão como um animal venenoso.
"Você assinou um acordo pré-nupcial, lembra? Se você me deixar, você sai sem nada. Pense bem no que está fazendo."
O ar pareceu ser sugado de seus pulmões. O acordo. O documento que seu pai insistiu que ela assinasse, uma formalidade para proteger o patrimônio da família. Daniel estava usando isso contra ela. Aquele acordo era a prova de que, desde o início, ele nunca a amou de verdade. Ele amava o que ela representava, o império que ela herdaria. O amor dela era apenas um bônus conveniente.
Ela apagou a tela do celular, o gesto simbólico de cortar o último fio que a prendia a ele. Ela não precisava do dinheiro dele. Ela precisava de sua vida de volta. O primeiro passo era sair daquele salão, daquela cidade, daquela vida que se tornara uma mentira. E ela o faria, não importava o custo.
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