
O Anel Partido
Capítulo 3
O silêncio do seu apartamento era ensurdecedor depois do barulho da festa. Sofia fechou a porta atrás de si, o clique do trinco soando como uma sentença final. Ela se encostou na madeira fria, finalmente permitindo que o corpo tremesse, as lágrimas que segurou com tanta força agora escorrendo livremente por seu rosto.
A imagem de Daniel e Isabela juntos não saía de sua mente, um replay constante de sorrisos compartilhados, toques secretos e a cumplicidade que a excluía. Cada detalhe era uma nova facada em seu coração já ferido. Ela se lembrava de quando Daniel a olhava daquele jeito, com uma adoração que parecia capaz de mover montanhas. Onde foi parar aquele homem? Ele ainda existia ou sempre fora uma ilusão?
Ela caminhou pelo apartamento como uma sonâmbula, seus passos ecoando no chão de mármore. Tudo ali lembrava ele. O sofá onde assistiam a filmes, a cozinha onde ele tentava cozinhar para ela e sempre queimava alguma coisa, o quarto que compartilharam por cinco anos. Era um mausoléu de memórias felizes, agora manchadas pela traição.
Seu olhar caiu sobre uma foto na mesa de centro: os dois em Paris, sorrindo em frente à Torre Eiffel, os rostos iluminados pela felicidade e pelo amor inocente. Ela pegou o porta-retrato, os dedos traçando o rosto sorridente de Daniel. A dor era física, uma pressão no peito que dificultava a respiração. Com um soluço, ela virou a foto para baixo. Não conseguia mais olhar para aquela mentira.
O som de seu celular a assustou. Era ele. Daniel. A tela brilhava com seu nome. Ela encarou o aparelho, o coração batendo descontroladamente. Uma parte dela, a parte tola e machucada, queria atender, queria ouvir a voz dele, talvez uma desculpa, uma explicação. Mas a outra parte, a que acabara de nascer naquela noite, sabia que era uma armadilha.
Ela rejeitou a chamada.
Imediatamente, o celular tocou de novo. E de novo. E de novo. Uma torrente de ligações e mensagens começou a inundar seu telefone.
"Sofia, atende essa droga de telefone."
"Onde você está? Volte para casa agora."
"Não seja infantil. Precisamos conversar."
"Você não pode simplesmente acabar com tudo assim."
Ele não estava arrependido. Estava com raiva. O tom dele era de quem dá uma ordem, não de quem pede perdão. Ele não estava preocupado com ela, estava preocupado em perder o controle, em perder o prêmio que ela representava.
De repente, a campainha tocou, o som estridente cortando o silêncio. Sofia congelou. Era ele. Ele tinha vindo atrás dela. O pânico a envolveu, frio e paralisante. Ela não estava pronta para encará-lo, não ali, naquele espaço que já fora o refúgio deles.
Ela correu para o quarto, trancando a porta. As batidas na porta da frente se tornaram mais fortes, mais insistentes.
"Sofia! Eu sei que você está aí! Abre essa porta!" A voz de Daniel estava abafada pela madeira, mas a fúria era clara.
Sofia se encolheu no chão, as mãos sobre os ouvidos, tentando abafar o som. Cada batida era uma agressão, uma violação do seu último santuário. Ela fechou os olhos com força, rezando para que ele fosse embora.
Então, o celular em sua mão vibrou novamente. Não era Daniel. Era uma mensagem de um número desconhecido. Com o coração ainda acelerado, ela abriu.
Era uma foto. Uma foto de seu ateliê de joias, o lugar que ela construiu com tanto esforço, seu único espaço verdadeiramente seu. Na foto, a porta de vidro estava estilhaçada. E ao lado da foto, uma mensagem de texto simples.
"Seu namoradinho ficou bem irritado. Acho que você exagerou na dose, querida."
O sangue de Sofia gelou. Isabela. Só podia ser ela. A crueldade, o prazer em vê-la sofrer. Isabela estava com Daniel, observando-o destruir a única coisa que importava para Sofia, e ainda tinha a audácia de provocá-la.
Uma nova onda de raiva, pura e gelada, substituiu o medo. A tristeza deu lugar a uma determinação feroz. Eles não iriam destruí-la. Eles não iriam tirar tudo dela. Daniel podia ter o dinheiro, a influência, a sociedade ao seu lado. Mas Sofia tinha a si mesma. E isso, ela decidiu naquele momento, seria o suficiente.
Ela se levantou do chão, as pernas ainda um pouco trêmulas, mas a mente clara. Ignorando as batidas na porta, ela abriu o notebook sobre a escrivaninha. Começou a pesquisar passagens de avião. Qualquer lugar. Longe. Um lugar onde Daniel não pudesse encontrá-la, onde ela pudesse respirar e se reconstruir, pedaço por pedaço.
Ela encontrou um voo para Oaxaca, no México, partindo na manhã seguinte. Um lugar conhecido por sua arte, sua cultura vibrante e sua distância de tudo o que a estava sufocando. Sem hesitar, ela comprou a passagem só de ida.
Depois, abriu o armário. Em uma caixa de sapatos velha, no fundo, estava o dinheiro que ela guardava, economizado de suas próprias vendas, um pequeno fundo de emergência que sua avó sempre a aconselhou a ter. "Nunca dependa de um homem para nada, minha querida," a voz de sua avó ecoou em sua mente.
Ela começou a fazer uma pequena mala. Apenas o essencial. Roupas, seus cadernos de desenho, as ferramentas básicas de joalheria que conseguia carregar. Cada peça que colocava na mala era um passo para longe de Daniel, um passo em direção a si mesma.
As batidas na porta finalmente pararam. Sofia esperou, o coração na garganta, mas o silêncio permaneceu. Ele tinha ido embora. Por enquanto.
Ela olhou ao redor do quarto, para a vida que estava deixando para trás. Doía. Doía como o inferno. Mas a dor da partida era menor do que a dor de ficar e se ver definhar lentamente.
Na manhã seguinte, muito antes do sol nascer, Sofia saiu do apartamento silenciosamente, carregando apenas uma mala e sua bolsa. Ela não olhou para trás. Ao passar pelo seu ateliê na rua de baixo, viu a porta estilhaçada, os cacos de vidro brilhando sob a luz fraca de um poste. Em vez de sentir desespero, sentiu um estranho alívio. Era como se a casca de sua vida antiga tivesse sido quebrada, libertando-a.
No aeroporto, enquanto esperava o embarque, ela pegou o celular e o desligou. Depois, retirou o chip e o partiu em dois. O gesto foi libertador. Um corte final. Um adeus a Daniel, a Isabela, à mulher que ela costumava ser. Quando o avião decolou, deixando a cidade para trás, Sofia não derramou uma única lágrima. Ela olhou para as nuvens, para o horizonte desconhecido, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu uma ponta de esperança.
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