
O Amor que Fingiu Ser Outro
Capítulo 2
O telefone tocou antes que o sol tivesse a chance de nascer. O som atravessou a casa silenciosa como um presságio, e ainda meio adormecida, atendi sem imaginar que aquela voz roubaria de mim a vida que eu conhecia.
— Senhora Helena? — a voz era grave, carregada de um peso que já anunciava tragédia. — Sinto muito… houve um acidente.
O mundo parou. As palavras seguintes se dissolveram em ruídos desconexos. Carro. Estrada. Chuva. Daniel. Morto.
Eu não chorei de imediato. A dor veio em ondas tardias, como se meu corpo tivesse se recusado a acreditar. Primeiro, o silêncio. Depois, o desespero. Lembro-me de correr até o hospital, de reconhecer o corpo frio e imóvel — mas apenas por um instante. Cobriram-no rápido demais. Não me deixaram tempo para despedidas, apenas a imagem de uma mão rígida, de um anel que poderia ser o dele… ou de qualquer outro.
O velório foi um desfile de rostos compadecidos, abraços vazios e frases repetidas que não curavam nada. Eu sentia como se estivesse enterrando não só o homem que amava, mas a própria esperança. Daniel fora meu porto, meu abrigo, meu sol. E agora eu caminhava às cegas numa noite que parecia não ter fim.
Os dias seguintes se arrastaram como um inverno sem saída. A casa se tornou um túmulo. O travesseiro ao meu lado, vazio, parecia zombar de mim. Havia noites em que eu esperava ouvir o ranger da porta, o som das chaves caindo sobre a mesa, o calor de um corpo se deitando ao meu lado. Mas nada. Apenas silêncio.
Foi então, quando a saudade já me consumia como veneno, que ele apareceu.
Um homem, parado na porta da sala. O mesmo olhar, a mesma altura, o mesmo sorriso que me tinha conquistado anos antes. Meu coração, em choque, quase esqueceu de bater.
— Eu sou Rafael — disse ele, como se isso bastasse. — Irmão gêmeo de Daniel.
Gêmeo? A palavra me soou estranha, impossível, absurda. Eu conhecera toda a família de Daniel, cada detalhe da sua história. Nunca ouvira sequer um sussurro sobre um irmão. Mas ali estava ele, com os traços que eu conhecia de cor, com uma presença que me confundia e me atraía.
Naquele instante, perdida entre a dor e o espanto, não soube se chorava de medo, de esperança ou de loucura. Tudo o que sei é que, sem perceber, o fio invisível da mentira começava a me envolver.
E eu, cega pela saudade, deixei-me prender.
Você pode gostar





