
O Amor que Fingiu Ser Outro
Capítulo 3
Naquela noite, não consegui dormir. As palavras de Rafael ecoavam dentro de mim como um feitiço maldito: irmão gêmeo.
Deitada no escuro, eu revivia cada conversa com Daniel, cada memória com sua família, procurando qualquer indício, qualquer fresta de verdade que justificasse aquela aparição. Nada. Era como tentar encontrar um reflexo em um espelho sem vidro. E, ainda assim, ali estava ele, em carne e osso, tão real que me confundia até a respiração.
Na manhã seguinte, a família de Daniel me recebeu como se nada fosse estranho. Sua mãe, Dona Amélia, me abraçou com força, lágrimas nos olhos.
- Eu sabia que seria um choque para você - disse, ajeitando uma mecha de cabelo grisalho para trás da orelha. - Daniel nunca quis falar sobre Rafael. Havia feridas antigas... mas agora é hora de aceitar.
Aceitar? A palavra me atravessou como faca. Como alguém esconde um irmão gêmeo? E mais: como toda a família parecia confortável com isso, como se eu fosse a única ignorante nesse teatro cuidadosamente ensaiado?
Rafael, porém, era presença constante. A cada gesto, cada olhar, era impossível não enxergar Daniel. O jeito de mexer no relógio, de passar a mão pelo queixo quando pensava, até a inclinação da cabeça quando sorria - eram idênticos. Havia momentos em que eu fechava os olhos e me perguntava se não era ele, se não estava louca de dor, inventando fantasmas para acalentar a saudade.
- Sei que é difícil - disse ele, uma tarde, quando me encontrou sentada na varanda, perdida em lembranças. - Mas estou aqui. Não quero que passe por isso sozinha.
Era estranho. Uma parte de mim rejeitava sua presença, como quem sente o cheiro de veneno na taça de vinho. Outra parte, porém, se agarrava a ele como náufrago à tábua. Talvez fosse a carência, talvez fosse a dor... mas eu deixei. Permiti que sua voz ocupasse os silêncios da casa, que seus passos ecoassem nos corredores que já haviam sido de Daniel.
E, aos poucos, a linha entre luto e consolo começou a se borrar.
Às vezes, eu o observava de longe. Havia algo nos seus olhos - uma chama, um segredo não dito - que me fazia estremecer. Rafael não era apenas um irmão em luto. Ele carregava uma intensidade que parecia esperar pelo momento certo para se revelar.
E naquela atmosfera confusa, entre a saudade do morto e a presença viva do "gêmeo", percebi que meu coração começava a trair minha razão.
O que eu não sabia, o que jamais poderia imaginar, era que já estava presa em uma rede de mentiras tão perfeita que até o amor parecia real.
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