
O Amor que Desafiou o Mundo
Capítulo 3
Viver na minha bolha de privilégios tinha suas vantagens, mas também me deixava cega para muitas coisas. Lucas vinha de uma realidade completamente diferente, uma favela onde a vida era uma luta diária. Eu só soube disso porque ouvi as fofocas nos corredores, os cochichos maldosos que o seguiam como uma sombra. Diziam que ele usava as mesmas roupas por dias, que o tênis dele estava rasgado, que ele morava num lugar perigoso. Essas coisas, que para os outros eram motivo de piada, para mim eram sinais de uma força que eu não conhecia.
Eu não o escolhi por pena, eu o escolhi porque via algo que ninguém mais parecia ver. Nas poucas vezes em que ele respondia às perguntas da professora, suas respostas eram brilhantes, curtas e precisas. Ele não falava muito, mas quando falava, era para dizer algo que importava. Havia uma inteligência afiada por trás daquele silêncio todo, uma mente que trabalhava sem parar. Eu queria conhecer essa mente.
Nossos primeiros dias como dupla foram estranhos. Eu falava sem parar, tentando quebrar o gelo, fazendo piadas, contando sobre meu dia. Ele apenas ouvia, balançando a cabeça de vez em quando.
"Então, sobre o trabalho de história", eu comecei, tentando focar. "Pensei que a gente podia falar sobre a Revolução Francesa, o que você acha?"
Ele finalmente falou, a voz baixa e rouca.
"É um tema muito amplo. Precisamos de um recorte específico."
"Ah, claro. Tipo... o papel das mulheres na revolução? Ou talvez o período do Terror?"
"O período do Terror é mais interessante. Tem mais fontes primárias e permite uma análise mais crítica."
Fiquei impressionada. Ele não só sabia do que estava falando, como também tinha uma abordagem quase acadêmica para um simples trabalho de colégio.
Nossa dinâmica logo se estabeleceu. Eu era a energia, a bagunça, a criatividade solta. Ele era a calma, a estrutura, a lógica. Eu chegava com mil ideias, e ele, com paciência, me ajudava a organizar tudo, a encontrar o foco.
Um dia, enquanto eu rabiscava um desenho no meu caderno em vez de prestar atenção na aula de matemática, senti um cutucão. Era a ponta do lápis dele.
"O que foi?", perguntei.
Ele apontou para o quadro, onde o professor explicava uma equação complexa.
"Você não vai anotar?"
"Ah, eu pego com a Júlia depois. Odeio matemática."
Ele franziu a testa, um vinco de desaprovação se formando entre suas sobrancelhas.
"Você deveria tentar aprender. Não é tão difícil."
"Pra você não é, você é um gênio!"
Ele não respondeu, apenas me empurrou seu caderno, aberto na página da matéria. As anotações dele eram perfeitas, organizadas e claras.
"Leia isso. Vai te ajudar."
No início, achei que ele estava me julgando, me chamando de burra. Fiquei um pouco irritada, mas depois, olhando para a dedicação com que ele explicava cada passo da equação em suas anotações, entendi. Ele não estava me criticando, ele estava tentando me ajudar. Ele estava se importando.
Naquele dia, pela primeira vez, eu me esforcei para entender a aula de matemática. E quando o sinal tocou, ele me olhou e deu um sorriso mínimo, quase imperceptível. Foi a primeira vez que o vi sorrir. E aquilo, por algum motivo, fez meu dia valer a pena. Ele estava lentamente me puxando para o mundo dele, um mundo de disciplina e esforço, e eu estava começando a gostar.
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