
O Amor Que a Morte Não Apagou
Capítulo 2
O relatório médico na minha mão parecia pesar uma tonelada, cada palavra um prego no meu caixão. Tumor cerebral, estágio terminal. O médico disse que eu tinha, na melhor das hipóteses, três meses de vida.
No mesmo dia, os jornais de Lisboa estampavam o rosto dele na primeira página. Leonel Contreras, o arquiteto prodígio, regressava a Portugal depois de anos no Brasil para celebrar o seu noivado com Sofia, uma curadora de arte do Porto.
O meu ex-namorado. O meu meio-irmão. O homem que eu amava mais do que a própria vida.
Saí do consultório, amassei o relatório e atirei-o para o lixo mais próximo. Se só me restavam três meses, não os ia passar numa cama de hospital. Ia usá-los para ter de volta o que era meu.
Sabia exatamente onde o encontrar. A clínica de repouso em Cascais, onde a mãe dele estava internada há anos.
Quando cheguei, ele estava de pé no jardim, de costas para mim, a falar ao telemóvel. A sua silhueta alta e imponente era a mesma que assombrava os meus sonhos.
"Sofia, já te disse, estou a tratar de um assunto. Ligo-te mais tarde."
Ele desligou e virou-se, o seu rosto endurecendo no momento em que me viu. Aquele rosto que eu conhecia tão bem, agora era uma máscara de frieza.
"Juliette."
A forma como ele disse o meu nome, sem qualquer emoção, fez o meu peito doer.
"Olá, irmão."
Usei a palavra de propósito, para o provocar. Vi um brilho de irritação nos seus olhos escuros.
"O que estás a fazer aqui?"
"Vim visitar a tia Clara," menti, referindo-me à mãe dele. "Soube que ela não tem andado bem."
"Não tens o direito de lhe chamar tia," ele cuspiu as palavras. "E como é que soubeste? Apaguei o teu número há muito tempo. Pensei ter deixado claro que não queria mais nenhum contacto."
A sua crueldade era direta, sem rodeios. Doeu, mas eu não demonstrei.
"Tenho as minhas fontes, Leonel."
Ignorei a sua raiva e caminhei em direção à entrada da clínica. Ele não me impediu, mas seguiu-me, os seus passos pesados ecoando atrás de mim.
A mãe dele, Clara, estava sentada numa cadeira de rodas junto à janela, a olhar para o nada. O seu olhar estava vazio. O caso da minha mãe com o pai dele tinha-a destruído, deixando-a neste estado vegetativo.
Ajoelhei-me ao lado dela e peguei na sua mão fria.
"Olá, tia Clara. Sou eu, a Juliette. Vim ver-te."
Ela não reagiu. Comecei a falar-lhe baixinho, a contar-lhe sobre os meus dias, sobre os azulejos que pintava, qualquer coisa para preencher o silêncio. Fazia isto sempre que podia, mesmo depois de Leonel ter partido para o Brasil. Era a minha penitência.
De repente, senti uma mão forte no meu braço, puxando-me para cima. Era Leonel. A sua cara estava a centímetros da minha, os seus olhos a arder de fúria.
"Eu não te quero perto dela. Fica longe da minha mãe."
A sua voz era um rosnado baixo e perigoso.
"Porque é que voltaste, Leonel? Para te casares?" perguntei, a minha voz a tremer ligeiramente.
"Isso não te diz respeito."
"Claro que diz," insisti, encontrando o seu olhar. "Eu não vim aqui pela tua mãe. Eu vim aqui por ti. Eu queria ver-te."
A minha confissão pareceu apanhá-lo de surpresa. Ele afrouxou o aperto no meu braço. Por um momento, vi algo no seu olhar, uma fissura na sua máscara de gelo.
Ele tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um. O fumo envolveu-nos. Por puro reflexo, um hábito antigo, estendi a mão e tirei-lhe o cigarro dos lábios.
"Sabes que eu não gosto que fumes."
Ele olhou para a minha mão, para o cigarro, e depois para mim. A sua expressão era indecifrável.
"Algumas coisas nunca mudam, não é, Juliette?"
Ele pegou no cigarro de volta e deu uma longa passa, antes de o apagar no cinzeiro. Depois, virou-me as costas e foi-se embora, deixando-me sozinha com a sua mãe e o eco das suas palavras.
Naquela noite, fui para o Bairro Alto. Precisava de barulho, de música, de gente. Precisava de esquecer a dor que me consumia. O Fado que saía das tascas parecia contar a minha própria história de amor e perda.
Entrei num bar apinhado, o cheiro a álcool e suor no ar. Pedi uma ginjinha e virei-a de um só trago. O licor doce e forte queimou-me a garganta.
"Juliette, meu amor."
Virei-me e vi-o. Tiago. Um estudante de Belas-Artes que eu tinha ajudado. Um erro de julgamento. Ele parecia-se tanto com um Leonel mais novo, mais inocente. Era por isso que o tinha ajudado, para tentar preencher o vazio que Leonel deixara. Mas Tiago tinha-se tornado um problema, viciado em apostas online, sempre a pedir mais dinheiro.
"O que queres, Tiago?"
"Só um pouco mais, Juliette. Estou quase a ganhar o grande prémio. Depois pago-te tudo de volta, prometo."
A sua voz era melosa, mas os seus olhos eram gananciosos. Ele era um parasita. E eu estava cansada de ser a sua hospedeira.
"Acabou, Tiago. Não há mais dinheiro."
Peguei na minha bebida e, num movimento deliberado, derramei-a sobre a cabeça dele. O líquido escuro escorreu-lhe pelo cabelo e pela cara. O bar ficou em silêncio. Todos olhavam para nós.
"Fica longe de mim," disse eu, a minha voz fria como o gelo.
Tirei uma nota de cinquenta euros da carteira e atirei-a para a poça de bebida aos pés dele.
"Para a lavandaria."
Ouvi os murmúrios à minha volta. "É a Juliette Dixon, a artista. Dizem que ela é louca por homens que se parecem com o meio-irmão dela." "Coitado do rapaz, ela só o está a usar."
Eu não me importava. Deixei que pensassem o que quisessem. A minha reputação já estava manchada.
Saí do bar e senti o ar frio da noite no meu rosto. Olhei para cima, para as varandas dos prédios antigos. E então, vi-o.
Leonel.
Ele estava numa varanda do outro lado da rua, a olhar diretamente para mim. Tinha uma mulher ao seu lado, loira e elegante. Sofia. A noiva dele. Ele disse algo ao ouvido dela, e ambos riram. A sua expressão era de puro desprezo enquanto olhava para a cena que eu tinha acabado de protagonizar. Ele tinha visto tudo. E tinha confirmado a pior opinião sobre mim.
Perfeito. Era exatamente disto que eu precisava.
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