
O Amor Que a Morte Não Apagou
Capítulo 3
Atravessei a rua, ignorando os carros que buzinavam. Entrei no prédio e subi as escadas a correr, o meu coração a bater descontroladamente. Encontrei o apartamento. A porta estava entreaberta.
Empurrei-a e entrei. A sala estava cheia de gente, uma festa privada. Leonel estava no centro, a rir com um grupo de amigos. Sofia estava agarrada ao braço dele.
"Saiam todos," disse eu, a minha voz soando mais alta e firme do que eu esperava.
As conversas pararam. Todos se viraram para me olhar.
"Juliette, o que pensas que estás a fazer?" Leonel perguntou, a sua voz perigosamente calma.
"Eu disse para saírem," repeti, olhando para cada uma das pessoas na sala. "A festa acabou."
As pessoas começaram a sair, desconfortáveis. Sofia lançou-me um olhar venenoso antes de ser arrastada para fora por uma amiga. Em breve, estávamos apenas eu e Leonel na sala.
"Ficaste louca?" ele sibilou.
"Talvez," respondi, aproximando-me dele. Tirei o meu telemóvel do bolso e abri um vídeo. Era antigo, de há muitos anos. Nós os dois, na cama, jovens e apaixonados. A imagem era explícita.
"Lembras-te disto, Leonel?"
Ele olhou para o ecrã, o seu rosto uma máscara impenetrável.
"O que queres?"
"Quero dois meses. Os últimos dois meses antes do teu casamento. Quero que os passes comigo."
Ele riu, um som oco e sem alegria. "Estás a chantagear-me?"
"Chama-lhe o que quiseres. Dois meses. É tudo o que peço. Depois, desapareço da tua vida para sempre."
Ele olhou para mim por um longo momento, os seus olhos a perscrutarem o meu rosto. Eu esperava que ele explodisse, que me insultasse, que me mandasse embora. Em vez disso, ele deu de ombros.
"Está bem. Dois meses."
A sua aceitação apanhou-me de surpresa. Mas o desdém na sua voz era claro. Para ele, isto era apenas um jogo irritante. Para mim, era a minha vida.
Ele levou-me para casa no seu carro de luxo. O silêncio era pesado. Estendi a mão e toquei-lhe na coxa. Ele não se moveu.
"Ainda me desejas, Leonel?" sussurrei, a minha mão a subir lentamente.
"Tu és insaciável, não és, Juliette? Sempre a precisar da atenção de alguém," ele disse, a sua voz a pingar desprezo.
A sua mão agarrou a minha, impedindo o meu avanço. E nesse momento, uma dor aguda atravessou a minha cabeça. Fechei os olhos com força, tentando não gemer. O tumor. Ele estava a lembrar-me da sua presença.
"O que se passa?" ele perguntou, notando a minha reação.
"Nada," menti, afastando a minha mão. "Só uma dor de cabeça."
Ele não pareceu acreditar, mas não insistiu. Olhou para mim com desconfiança, como se eu estivesse a encenar mais um dos meus dramas.
"És sempre tão cheia de truques."
A sua frieza era como um murro no estômago. Eu não podia dizer-lhe a verdade. Ele não acreditaria. E mesmo que acreditasse, eu não queria a sua pena. Eu queria o seu amor.
O meu telemóvel tocou. Era a minha mãe, Helena.
"Juliette, querida! O Leonel está contigo? O pai dele quer dar um jantar de família para celebrar o regresso dele. Amanhã à noite. Não te atrevas a faltar!"
A voz dela era artificialmente doce. A minha mãe. Sempre mais preocupada com as aparências do que com a própria filha.
"Está bem, mãe. Nós vamos."
Desliguei. Leonel olhou para mim.
"Jantar de família? A sério?"
"Temos de manter as aparências, não é, irmão?"
O jantar foi tão tenso como eu esperava. A minha mãe e o pai de Leonel tentavam desesperadamente projetar uma imagem de família feliz e unida. Leonel ignorava-os a maior parte do tempo, respondendo com monossílabos.
A minha mãe colocou um prato de camarões à minha frente. "Come, querida. Estão deliciosos."
Eu sou alérgica a marisco. Uma alergia grave. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, a mão de Leonel disparou e tirou o prato da minha frente.
"Ela é alérgica," disse ele, a sua voz ríspida.
A minha mãe pareceu surpreendida. "Oh. Esqueci-me."
Claro que se esqueceu. Ela nunca se lembrava de nada que me dissesse respeito. Mas ele. Ele lembrava-se. Um pequeno detalhe, mas para mim, significava o mundo. Uma pequena fenda na sua armadura de gelo.
"Juliette, tenho um ótimo partido para te apresentar," disse a minha mãe, mudando de assunto. "O filho do Dr. Almeida. Um rapaz tão bom. Já chega desta tua reputação de festeira. Precisas de assentar."
Olhei para Leonel. Ele estava a olhar para o seu telemóvel, a sorrir para uma mensagem. Provavelmente de Sofia. A dor voltou, aguda e lancinante.
"Está bem, mãe," disse eu, a minha voz vazia. "Marca o encontro."
Qualquer coisa para não pensar nele, para não sentir esta dor.
Depois do jantar, Leonel levou-me para casa. A tensão no carro era palpável. Ele parou em frente ao meu prédio, mas não desligou o motor.
"Então, vais mesmo sair com o filho do médico?" ele perguntou, a sua voz com um tom estranho.
"Porque te importas?" retorqui. "Não és tu que te vais casar?"
Ele não respondeu. Apenas me olhou, e a tensão entre nós tornou-se quase insuportável.
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