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Capa do romance O Amor na Vaga 23

O Amor na Vaga 23

Ao herdar o apartamento de seu avô em São Paulo, um jovem acredita que iniciará uma fase tranquila. Contudo, a vaga de garagem 23 torna-se o centro de um conflito sombrio. O vizinho, Sr. Silva, reivindica o espaço e inicia uma perseguição implacável: vandaliza o carro, inunda a residência e furta memórias preciosas do falecido. Diante de ataques furtivos e cruéis, a vítima questiona se a justiça conseguirá deter um homem tão perverso e sem escrúpulos.
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Capítulo 2

A ligação do advogado veio numa tarde de terça-feira, interrompendo meu estudo para uma prova de cálculo. A voz do outro lado da linha era formal, um pouco distante, e me informou que todos os trâmites do inventário do meu avô tinham sido concluídos. O apartamento dele, incluindo uma vaga de garagem específica, agora era oficialmente meu. Senti um misto de tristeza pela lembrança do meu avô e um leve alívio por finalmente ter um lugar para chamar de meu em São Paulo.

"Ricardo, a matrícula do imóvel já está no seu nome. A vaga de garagem é a de número 23, a melhor do prédio, bem ao lado do elevador social" , o advogado explicou.

Agradeci, desliguei o telefone e senti uma pontada de otimismo. Uma nova fase começava.

No fim de semana, decidi fazer a primeira visita ao apartamento como proprietário. O prédio era antigo, mas bem conservado. Assim que entrei na garagem com meu carro, um Celta antigo que comprei com muito esforço, procurei pela vaga 23. E lá estava ela, ocupada por uma SUV preta, grande e imponente.

Fiquei confuso. Talvez um engano. Fui até a portaria e o porteiro, um senhor simpático chamado seu Osvaldo, me reconheceu.

"Seu Ricardo, neto do seu Almeida, certo? Seja bem-vindo."

"Obrigado, seu Osvaldo. Uma pergunta, a vaga 23... tem um carro lá. Sabe de quem é?"

O rosto do porteiro se fechou um pouco. Ele baixou a voz.

"Ah... é do seu Silva, do 502. Ele... bom, ele usa essa vaga há algum tempo."

"Mas essa vaga é do apartamento do meu avô, agora é minha" , eu disse, mostrando a cópia da escritura no meu celular.

"Eu sei, seu Ricardo. Mas o seu Silva... ele é complicado. É melhor o senhor falar com ele."

O aviso estava dado. Decidi não criar caso no primeiro dia. Estacionei numa vaga de visitante e subi para o meu novo apartamento. Mais tarde, no grupo de WhatsApp do condomínio, que me adicionaram recentemente, decidi abordar o assunto de forma educada.

"Boa noite, vizinhos. Sou Ricardo, novo proprietário do 402. Gostaria de pedir, por gentileza, que o proprietário do carro na vaga 23 a libere, pois ela pertence à minha unidade. Obrigado."

A resposta veio em menos de um minuto. Não foi privada, foi no grupo, para todos verem.

"Garoto, essa vaga é minha. Uso ela há anos. Encontra outro lugar pra estacionar essa sua lata velha."

A mensagem era do Sr. Silva. Fiquei chocado com a grosseria. Outros vizinhos visualizaram, mas ninguém disse nada. O silêncio era pesado.

Decidi responder com fatos, não com emoção. Tirei uma foto clara da parte da escritura que mencionava a vaga 23 e postei no grupo.

"Sr. Silva, com todo o respeito, este é o documento oficial do imóvel. A vaga 23 está legalmente vinculada ao apartamento 402. Agradeço se puder remover seu veículo até amanhã de manhã."

A resposta dele foi um emoji de risada. Apenas isso. Aquilo ferveu meu sangue.

No dia seguinte, desci para a garagem e a SUV preta continuava lá, imóvel, como um monumento à arrogância. Fui trabalhar de metrô, remoendo a situação. Na volta, no final da tarde, encontrei o Sr. Silva perto do elevador. Ele era um homem de meia-idade, com uma barriga proeminente e um ar de superioridade. Estava acompanhado de uma mulher, provavelmente sua esposa, que me olhou de cima a baixo com desprezo.

"Você é o Ricardo?" , ele perguntou, a voz carregada de desdém.

"Sim. E você deve ser o Sr. Silva. Eu pedi para o senhor tirar o carro da minha vaga."

Ele deu uma risada curta e debochada.

"Olha aqui, moleque. Eu sou servidor público. Eu conheço gente. Aquele seu avô mal usava a vaga, então eu passei a usar. É um direito adquirido. Esse seu papelzinho não vale nada. Aqui as coisas funcionam do meu jeito."

Sua esposa, Dona Silva, acrescentou:

"Isso mesmo. Quer arrumar problema logo que chegou? Sossega o facho, rapaz. A gente mora aqui há vinte anos. Você acabou de chegar."

Eu não podia acreditar naquilo.

"Direito adquirido? Isso não existe para propriedade privada. A vaga é minha. Está na escritura. O senhor está ocupando um espaço que não lhe pertence. Isso é ilegal."

O rosto do Sr. Silva ficou vermelho de raiva. Ele deu um passo na minha direção, o dedo em riste.

"Você não sabe com quem está falando. É melhor ficar quieto na sua, se não quiser que 'acidentes' aconteçam com esse seu carrinho. A garagem é escura, sabe como é."

Ele me deu as costas e entrou no elevador com a esposa, que ainda me lançou um último olhar vitorioso antes das portas se fecharem. Fiquei ali, parado, o som da ameaça ecoando na minha cabeça. Eu não era de briga, mas também não era covarde. Aquilo não ia ficar assim.

Dois dias depois, a ameaça se concretizou. Cheguei da faculdade tarde da noite e, sob a luz fraca da garagem, vi um risco profundo e malicioso que atravessava toda a lateral do meu Celta, da porta do motorista até a traseira. A tinta branca estava arrancada, expondo o metal cinza por baixo. Passar o dedo sobre o sulco me deu uma sensação de impotência e raiva. Era uma assinatura. Um recado claro.

Fui direto para a portaria. Seu Osvaldo estava lá, com uma expressão de pena.

"Seu Osvaldo, riscaram meu carro. Preciso ver as câmeras da garagem."

Ele suspirou, desviando o olhar.

"Seu Ricardo... a síndica pediu pra avisar... a câmera que aponta pra esse lado está com defeito há umas semanas. Já pedimos o conserto, mas a empresa ainda não veio."

Uma coincidência conveniente demais. A síndica, uma senhora que eu mal conhecia, parecia ser completamente omissa. Reclamar com ela seria inútil. Ela claramente tinha medo do Sr. Silva, assim como todos os outros.

No dia seguinte, no corredor, cruzei com o Sr. Silva novamente. Ele estava saindo do seu apartamento. Ele me viu, olhou para as chaves na minha mão e abriu um sorriso sarcástico.

"E aí, vizinho? Problemas com o carro? Uma pena. Carro velho é assim mesmo, a pintura descasca."

A provocação foi a gota d'água. A raiva que eu sentia se transformou em uma determinação fria. Eu não tinha provas do arranhão, mas a guerra estava declarada. Se eles queriam jogar sujo, eu aprenderia as regras do jogo deles.

Naquela mesma tarde, entrei num site de compras e pedi a melhor câmera veicular que meu dinheiro podia pagar. Uma com sensor de movimento, visão noturna e modo de estacionamento, que gravava qualquer impacto ou movimento perto do carro. A entrega chegaria em dois dias. Até lá, meu Celta arranhado seria um lembrete constante. Um lembrete de que a justiça, às vezes, precisa de um empurrão. E eu estava pronto para empurrar.

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