
O Amor na Vaga 23
Capítulo 3
A câmera chegou numa sexta-feira. Passei a tarde instalando-a discretamente no para-brisa do meu Celta. O fio passava por dentro do forro do teto, quase invisível. Configurei o modo de estacionamento e senti uma pequena sensação de segurança. Pela primeira vez, eu teria olhos onde não podia estar.
A paz, no entanto, durou pouco. No sábado de manhã, desci para ir ao mercado e encontrei uma nova forma de provocação. Dona Silva, a esposa do vizinho, havia colocado duas latas de lixo grandes e fedorentas bem no meio da minha vaga, bloqueando completamente a passagem. Ela estava varrendo a porta do seu próprio apartamento no corredor e me viu chegar. Abriu um sorriso satisfeito e virou as costas, entrando em casa como se nada tivesse acontecido.
Respirei fundo. Discutir não adiantaria. Decidi usar a inteligência, não a força. Peguei meu celular e liguei para o serviço de reboque da prefeitura, o mesmo que leva carros estacionados em locais proibidos.
"Bom dia, gostaria de reportar um bloqueio indevido de via particular dentro de um condomínio. Há objetos obstruindo minha vaga de garagem e preciso de remoção."
Expliquei a situação. A atendente, surpreendentemente, foi solícita e disse que enviaria uma equipe, já que obstruir acesso era uma infração.
Uma hora depois, um pequeno caminhão de reboque com o logo da prefeitura entrou na garagem. Dois funcionários uniformizados desceram. O barulho do caminhão chamou a atenção de alguns vizinhos, que apareceram nas janelas.
Apontei para as latas de lixo. Os funcionários olharam, um pouco confusos.
"São só essas latas, chefe?" , um deles perguntou.
"Sim. Estão bloqueando minha vaga. É propriedade privada."
Eles deram de ombros, provavelmente acostumados com todo tipo de chamado bizarro. Quando estavam prestes a pegar as latas, a porta do elevador se abriu com um estrondo. Era o Sr. Silva, vermelho de fúria.
"O que vocês pensam que estão fazendo? Tirem as mãos daí! Isso é meu!"
O funcionário do reboque, um homem grande e calmo, respondeu:
"Senhor, recebemos uma chamada sobre obstrução. Essa vaga é do rapaz aqui. O senhor não pode colocar suas coisas no espaço dos outros."
"Isso é um absurdo! É só lixo! Vou colocar onde eu quiser! Vou ligar para os meus contatos na subprefeitura agora mesmo!" , ele gritava, pegando o celular.
Foi nesse momento que a síndica, Dona Marta, finalmente apareceu, atraída pela comoção. Ela parecia apavorada.
"Seu Silva, por favor, calma. O que está acontecendo?"
Eu me adiantei, falando em um tom firme, mas educado.
"Dona Marta, a família do Sr. Silva está usando minha vaga como depósito de lixo. Eu pedi para removerem, eles se recusaram. Chamei o serviço da prefeitura, que é o procedimento correto."
A síndica olhou para o Sr. Silva, depois para mim, claramente sem saber o que fazer. O funcionário do reboque, querendo encerrar o assunto, disse:
"Olha, a gente não vai levar o lixo. Mas o senhor" , ele apontou para o Sr. Silva, "tem que tirar isso daqui agora. Se não tirar, eu chamo a viatura por desacato e obstrução. A escolha é sua."
A menção da polícia fez o Sr. Silva hesitar. Ele fuzilou a síndica com o olhar, como se a culpa fosse dela. Resmungando palavras incompreensíveis, ele e a esposa, que havia surgido atrás dele, arrastaram as latas de lixo para o canto, liberando a minha vaga. Eles não me olharam, mas a hostilidade era palpável. O ar estava denso de ódio. O funcionário do reboque me deu um aceno de cabeça e foi embora.
A vitória foi pequena, mas significativa. Mostrou que eu não seria facilmente intimidado. No entanto, eu sabia que aquilo teria consequências. O olhar de Dona Silva prometia vingança.
E a vingança veio na madrugada de segunda-feira. Por volta das três da manhã, fui acordado por uma notificação no meu celular. Era o aplicativo da câmera veicular. "Impacto detectado no seu veículo".
Meu coração disparou. Pulei da cama e abri o aplicativo. A câmera, em modo de estacionamento, havia gravado um clipe de 30 segundos. A imagem era em preto e branco, granulada pela visão noturna, mas inconfundível.
A gravação mostrava duas figuras se aproximando do meu carro. Uma era Dona Silva, que ficou de vigia, olhando para os lados. A outra, um senhor mais velho e curvado, que eu reconheci como o pai do Sr. Silva, o Aposentado Oliveira. Ele tirou algo do bolso. Parecia uma chave de fenda ou um furador de gelo. Com um esforço visível, ele se agachou e perfurou os dois pneus do lado direito do meu Celta. O som do ar escapando foi captado pelo microfone da câmera.
Terminada a tarefa, os dois se afastaram rapidamente, desaparecendo na escuridão.
Eu tinha a prova. A prova irrefutável. Salvei o vídeo no meu celular e no meu computador. Senti uma onda de fúria, mas também de alívio. Eles caíram na armadilha.
Na manhã seguinte, desci e encontrei meu carro com os dois pneus murchos, encostado no chão da garagem. A cena era patética. Mas eu não sentia mais impotência.
Peguei o celular e, sem hesitar, postei o vídeo no grupo de WhatsApp do condomínio. Não escrevi nada acusatório. Apenas uma legenda simples:
"Bom dia a todos. Infelizmente, meu carro foi vandalizado novamente esta noite. Compartilho o vídeo da câmera de segurança. Se alguém reconhecer as pessoas no vídeo, por favor, entre em contato comigo ou com a polícia. Já estou a caminho da delegacia para registrar um boletim de ocorrência."
O efeito foi instantâneo. O grupo, antes silencioso, explodiu. Mensagens começaram a pipocar. "Meu Deus, que absurdo!", "Isso é crime!", "Eu não acredito!".
A resposta da família Silva veio, desesperada e raivosa, pela voz do próprio Sr. Silva.
"ISSO É UMA MONTAGEM! UMA CALÚNIA! MEU PAI É UM IDOSO DE 80 ANOS, DOENTE DO CORAÇÃO! ELE MAL CONSEGUE ANDAR! ESSE MOLEQUE ESTÁ FORJANDO VÍDEOS PARA NOS PREJUDICAR!"
Mas era tarde demais. O vídeo era claro. A covardia do ato, usando um idoso para cometer o crime enquanto a esposa vigiava, chocou a todos.
Dona Silva também se manifestou:
"Meu sogro estava passando mal a noite toda! Temos como provar! Você vai pagar por essa acusação falsa, seu marginal!"
Eu não respondi mais nada no grupo. A semente do caos estava plantada. Vesti uma roupa, peguei os documentos e o vídeo e liguei para o 190.
"Polícia Militar, emergência."
"Bom dia. Eu gostaria de reportar um crime de dano com provas em vídeo. Os criminosos são meus vizinhos e ainda estão no prédio."
Dei o endereço e expliquei a situação brevemente. A atendente disse que uma viatura estava a caminho.
Vinte minutos depois, o interfone tocou.
"Seu Ricardo, a polícia está aqui na portaria."
"Pode deixar subir, seu Osvaldo."
Desci para a entrada do prédio e encontrei dois policiais militares. Mostrei a eles o vídeo no meu celular e os pneus furados na garagem. Eles assistiram, sérios.
"O senhor sabe em qual apartamento eles moram?" , um dos policiais perguntou.
"Sim. Apartamento 502."
Subimos todos no elevador. O silêncio era tenso. Quando chegamos ao quinto andar, os policiais bateram na porta do 502.
Ninguém atendeu.
Bateram de novo, mais forte.
"Polícia! Abra a porta!"
Lá de dentro, veio a voz do Sr. Silva, abafada.
"Não abro! Vocês não têm mandado!"
O policial respondeu, paciente, mas firme.
"Senhor, não precisamos de mandado. Estamos aqui por uma denúncia de crime flagrante, com registro em vídeo. Se o senhor não abrir, será pior. Podemos chamar reforços e arrombar a porta por obstrução da justiça."
Um silêncio tenso se seguiu. Podíamos ouvir sussurros e movimentação dentro do apartamento. A guerra de nervos tinha começado. E eu estava ali, com a polícia ao meu lado, pronto para ir até o fim.
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