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Capa do romance O Amor de uma Feiticeira

O Amor de uma Feiticeira

Acompanhe a jornada de Morgana, uma jovem que habita um reino secreto há três séculos. Prestes a fazer dezessete anos, a descendente de uma linhagem fundadora enfrenta o desafio de dominar dons peculiares que outros não possuem. Enquanto desvenda mistérios ancestrais, ela lida com o medo e a confusão de seus sentimentos por Lucien. Entre magias inexplicáveis e segredos ocultos, Morgana tenta descobrir se o que sente pelo melhor amigo é um amor correspondido.
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Capítulo 2

Os primeiros raios do sol entram no meu quarto através da brecha da cortina vermelha pesada. Estou acordada, porém desejando poder ficar um pouco mais na cama. Estamos no outono e a temperatura já está fria o suficiente para que o calor das cobertas seja confortável demais para querer sair.

Me encolho um pouco mais debaixo das cobertas e fico encarando a parede de pedra do meu quarto, observo as anotações que fiz do grimório, os símbolos que rodeiam toda a nossa casa para proteção. Sempre que encaro essa parede do meu quarto eu fico esperando que os símbolos e as anotações simplesmente ganhem vida e venham até mim, como se eles pudessem me falar o que eu tenho feito de errado.

É uma espera inútil e totalmente vergonhosa, sei disso. Entretanto, falta poucos menos de dois meses para eu fazer dezessete anos, meu tempo como aluna de nível secundário está acabando. Se eu não evoluir o suficiente o meu controle nos feitiços, provavelmente serei desertada da minha família e de casa.

Suspiro alto com os pensamentos ansioso que avassalam a minha mente. Viro para o outro lado da cama, querendo ignorar a minha frustração com a parede que não me ajuda. Escuto algo bater na minha janela, é sutil e quase não faz barulho. Giro minha cabeça para encarar a janela, mais uma vez escuto o barulho e parece ser o som de algo bicando ela.

Me levanto em um salto da cama, os meus dedos dos pés encostam no tapete felpudo de pele de lobo no chão e isso não me faz reagir com tremor ao frio que invade a minha roupa de pijama. Caminho até a janela e puxo um lado da cortina um pouco para ver o que está causando esse pequeno barulho.

Meus olhos encontram o causador de tal pequeno inconveniente. É o Lucien com cascalhos nas mãos. Quando me vê na janela, seu rosto forma um sorriso e eu faço o mesmo. Ele inclina a cabeça para que eu saia, eu reviro os olhos com a sua travessura. Me afasto da janela e busco por roupas mais quentes antes de encontra-lo do lado de fora de casa. Opto por simplesmente coloca um casaco de lã por cima do pijama e retiro a calça do conjunto e visto uma calça de tecido grosso e pesado, calço minhas botas.

Antes de sair verifico meu rosto no espelho que está pendurado na porta. Meu cabelo ruivo acobreado escuro está com ondas e meu rosto está avermelhado por causa do frio da manhã.

— Vai ter que servir, afinal é apenas o Lucien — declaro para mim mesma.

Abro a porta com cautela, mamãe não gosta muito do Lucien. Diz que minha amizade com um aprendiz de combate não me faz bem. Acredito que ela preferia na verdade um aprendiz de combate de nome renomado e Lucien não carrega tal nome.

Caminho na ponta dos pés pelo corredor de casa, passo pelas portas dos quartos de mamãe e de minhas irmãs. O corredor sempre parece maior quando quero fugir sem ser percebida, como se fosse magia. Meus dedos dos pés tentam manter total equilíbrio enquanto coloco todo o meu peso, que não é muito, em cima deles.

Desço as escadas pulando alguns degraus. O chão de madeira da sala range quando piso nele e com o silêncio gigante da casa dorminhoca, isso faz parecer um grito e eu me encolho quando o ouço. Paro por um instante só para ter certeza que ninguém mais ouviu, principalmente mamãe.

Ando apressada para a saída do fundo da casa, onde sei que Lucien está me esperando. Atravesso a sala e a cozinha, entro no corredor da dispensa e finalmente saio. O vento do outono me abraça e me causa rápidos arrepios e meu cabelo voa para trás, o ar puro do campo também me cumprimenta e é um cheiro maravilhoso. Meus pés mesmo dentro das botas sente o chão macio da grama.

O nossos quintal é protegido por uma barreira de árvores altas e grandes, algumas frutíferas. Meus olhos deslumbram os cabelos escuros do Lucien atrás de uma delas, ele está de costas para mim e eu me apresso para encontra-lo. Quando chego perto dele, consigo sentir o seu cheiro único, é uma mistura de aço com suor, não sei como é possível aços terem cheiros, mas sempre que sinto o cheiro de Lucien, é esse o cheiro que me remete a ele. Consigo ver mais de perto que ele está com os cabelos bagunçados e à pela um pouco suja de carvão, principalmente na testa e pescoço.

— Não me diga que está fugindo da sua aula na ferraria, Lucien — eu sussurro perto do seu ouvido com humor. Ele se vira e ri para mim, suas mãos também estão com fuligem.

— Passei a madrugada inteira tentando forjar minha adaga — ele responde orgulhoso. — Logo mais eu vou estar subindo de nível, Mor.

— Pelo menos um de nós dois vai subir de nível — digo frustrada.

Nós dois começamos a caminhar para mais longe de casa, passando pelas árvores. Lucien é mais alto do que eu e também mais velho, um ano e meio mais velho. Somos amigos desde de sempre praticamente, íamos para a escola de assuntos mundanos pelo mesmo caminho e foi assim que viramos amigos.

Lucien me encara com seus olhos azuis cintilantes e franze o cenho.

— Ainda com problemas com os feitiços? — ele pergunta e se aproxima um pouco mais enquanto caminhamos. O calor dele me conforta e fico tentada a segurar sua mão na minha.

— Eu devo ter nascido com dislexia para magia — respondo tentando amenizar minha própria frustração sobre o assunto. — É como se os símbolos e as palavras não fizessem sentido na minha cabeça.

Ele ri e encosta o ombro no meu, me empurrando de leve. Nós dois vamos subindo um morro até chegarmos em uma campina alta, a gente se sente e fico encarando a paisagem das casas junto com a natureza envolta.

Vivemos em um lugar praticamente escondido e isolado. Afinal, magia já não é bem vista a milhares de anos, o mundo lá fora nos massacrou mais de uma vez e agora deixamos que ele pense que não existem mais pessoas com magia nas veias.

— Mor, você vai conseguir — Lucien me incentiva. — Você só fica pensando demais por causa da sua mãe. É muita pressão.

Eu me deito na grama e suspiro alto. O céu começa a ganhar mais claridade com o avanço do sol e a temperatura até parece melhor, entretanto a grama está úmida por causa do sereno ainda.

— Ser a filha da minha mãe não é fácil — respondo com um gemido descontente.

— Imagino. Ser filha da sua mãe e ela ainda ser a Jacqueline Consangrius, a matriarca de umas das maiores casas de feiticeiros, não é pouca coisa. Não consigo imaginar a pressão que isso coloca em você.

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