
O Amor de uma Feiticeira
Capítulo 3
— Você já imaginou como seria a nossa vida longe daqui? — pergunto ao Lucien. Ele está deitado ao meu lado. O sol já iluminou praticamente o nossa terra inteira, logo mais preciso voltar para casa e ele também.
— O tempo inteiro — ele suspira ao falar. — Gostaria de conhecer outros lugares, navegar pelos mares. Imagino se todas as cidades são iguais, se os outros reinos são como o nosso.
— Eu queria poder conhecer o mundo humano — confesso. Lucien se vira para mim e fica deitado de lado, sua mão apoia a cabeça levantada e ele me encara.
Eu imito sua pose e lhe observo. Lucien tem os cabelos castanhos, o rosto é acentuado no queixo e maxilar, o seu nariz é estreito. Ele está tentando deixar a barba crescer porém ele não tem tanta puberdade assim ainda, seu corpo não é esguio igual o meu, a puberdade também não está me favorecendo até agora. Por ser um feiticeiro guerreiro, seu corpo já ganha forma para combate, seus músculos ainda joviais estão se formando. Os seus lábios são carnudos e ele tem um belo sorriso.
— Por que você gostaria de ir até lá? Eles provavelmente lhe matariam — Lucien responde agitado.
— Eu não sei, apenas porque aqui é sempre a mesma coisa — argumento um pouco pessimista. — Queria entender como eles podem viver sem magia.
— Provavelmente eles morrem de tédio — ele contra-ataca com humor.
— Como se você não ficasse com tédio também, mesmo tendo magia — brinco.
— Isso é algo totalmente diferente, a minha magia só me serve em tempos de combate. Sem isso, eu sou apenas...
— Mundano sem graça — lhe provoco.
— Hahaha muito engraçado, diz a garota que também não consegue mexer com magia direito — ele retruca e cutuca minhas costelas me fazendo rir e me contorcer na grama com as cocegas.
Lucien continua a me cutucar, me causando gargalhadas. Eu tento empurra-lo para longe, porém acabamos por rolar um pouco o morro até a gente parar na metade da inclinação. Ele fica por cima de mim, seu corpo pesado pressiona o meu contra a grama, eu ainda estou rindo quando sinto seu rosto próximo ao meu. Ele também está rindo e aos poucos a risada vai diminuindo, sinto a respiração dele contra o meu rosto, o seu cheiro agora se misturou com a da grama ainda úmida.
O tempo pareceu pausar por alguns segundos, meu coração palpita rápido em meu peito e eu fico corada mais ainda ao perceber o quanto estamos próximos.
— Eu preciso ir pra casa — digo baixinho, meus olhos percorrem os lábios do Lucien que estão entreabertos.
Ele se levanta em um pulo, eu fico deitada mais alguns segundos encarando o mesmo ponto de antes, porém sem o Lucien no ponto de visão. Meu coração palpita cada vez mais rápido e eu consigo sentir meu sangue ir todo para as minhas bochechas. Lucien estende a mão e eu a seguro para levantar.
— Não podemos deixar a sua mãe lhe esperando, não é? — ele brinca. O momento de segundos atrás se desmancha e voltamos ao normal.
— Ela pode acabar me transformando em um relógio e você em um sapo — respondo rindo. — A gente se vê depois, Lucien.
— Até mais, Mor — ele se despende e me dê um rápido beijo na bochecha.
Um ato costumeiro entre nós, mas que me causa algo diferente dessa vez. Acabo por abrir um sorriso curto quando termino de sentir o toque dos lábios dele em minha pele. Ele se afasta correndo pela colina, eu o observo enquanto vou devagar.
Meus passos são arrastado mesmo sabendo que eu deveria me apressar para chegar em casa. Sei que mamãe provavelmente já levantou e deve estar bufando pelas ventas sobre os treinamentos de hoje.
Vivemos em uma cidade consideravelmente pequena, pelo menos ao meu ver. Nossa família, os Consangrius, somos um dos pilares da comunidade, por isso acho tudo tão sem graça. A maior parte do meu tempo estou estudando feitiços ou então aprendendo etiqueta e diplomacia. Mamãe quer que todas as suas filhas sejam poderosas e respeitadas, pelo bem da família.
Somo uma das cinco famílias milenárias fundadoras. Foram essas cinco famílias que lutaram a muito tempo atrás contra a perseguição dos mundanos contra nós feiticeiros. Após a guerra que quase devastou praticamente todos os feiticeiros, foram as famílias milenárias que criaram um novo lugar para nós, longe do mundo humanos. E assim foi criados o Reino das Casas, cada família governa o nosso mundo mágico e todo ano há uma confraternização onde os lideres decidem o que fazer sobre o nosso povo.
Entre nós ainda ocorre conflitos políticos e intrigas. Alguns querem voltar para o mundo humano, outros acreditam em mil e uma profecias que nunca parecem de fato perto de serem compridas. E há a minha família, os Consangrius comandado por minha mãe.
Meu pai, bem... eu não sei muito o que houve com ele, mamãe não fala muito e minhas irmãs mais velhas também não. Tenho poucas lembranças dele para sentir sequer falta dele. Não me pergunto se ele está morto ou vivo porque dentro de casa agimos como se na realidade nunca existiu um pai aqui, minha mãe teve todas nós sozinha, milagrosamente.
Talvez por isso mamãe é tão severa conosco. Ela busca garantir que todas nós nunca tenhamos que ficar à mercê da vontade de um homem, que a verdadeira magia vem de nós, das verdadeiras carregadoras de vida. “Nós damos vida e isso é a magia mais poderosa de todas, nós somos a origem dos feitiços, não eles.” ela diz em nossas lições.
Escuto o barulho de movimentação na cozinha. Todas já estão de pé. Respiro fundo e limpo as botas nos degraus de fora antes de entrar no corredor da dispensa e virar para dentro da cozinha.
Olho ao redor e todas estão ao redor da mesa já aproveitando o café da manhã. Mamãe, Jasmine a primogênita, Monique e Hera, nossa governanta e melhor amiga de mamãe, praticamente criou todas nós junto com mamãe.
— Querida, por onde você andou? — mamãe pergunta animada e isso me surpreende.
— Apenas quis fazer uma caminhada e meditar na natureza antes do café — minto enquanto começo a preparar um prato.
Nossa mesa cumprida é farta. Há pãezinhos com queijo, pãezinhos doces e outros com recheios de carne, o cheiro de chá, café e suco se misturam, junto com as frutas frescas e outros condimentos na mesa. Eu pego um pedaço ou fatia de cada coisa e uma xícara de chá. Acabo me sentando ao lado da Jasmine que está concentrada demais em um artigo sobre as fronteiras dos reinados.
— Muito bem, filha — mamãe me encoraja. — Talvez um retiro antes do seu aniversário seja uma opção. Você precisa se conectar mais com o seus poderes.
— Sim, mamãe — concordo antes de enfiar uma fatia de presunto na boca.
Você pode gostar





