
O Amor de Cinco Anos, Despedaçado por uma Ligação
Capítulo 2
Heitor não acreditou em mim.
Não de verdade.
Ele ligou de novo na manhã seguinte. "Laura, sério, essa piada não tem graça. Se mudar para a casa do Léo? Meus pais ligaram, eles estão... confusos. Disseram que o Léo contou a eles que vocês dois vão se casar. De verdade."
Eu permaneci em silêncio, deixando-o falar. Estava sentada na cozinha ensolarada de Léo, uma xícara de chá aquecendo minhas mãos. Era pacífico aqui.
"Olha, eu entendo, você está brava. Está com ciúmes da Clara, da atenção que estou dando a ela. Mas isso é extremo, até para você."
Ciúmes. Ele achava que era sobre ciúmes. Ele não tinha a menor ideia.
"Laura? Você está me ouvindo? Isso é loucura. Nós vamos nos casar. Você e eu."
"Não, Heitor", eu disse, minha voz calma. "Léo e eu vamos nos casar."
Ele zombou. "Certo. E amanhã eu vou voar para a lua. Vamos, Laura, para com essa cena. Foi engraçado por um minuto, mas a Clara vai começar a fazer perguntas."
Eu não ofereci mais nenhuma explicação. Apenas o deixei remoendo sua incredulidade. Deixei-o pensar que eu estava atuando. Isso servia aos meus propósitos.
Ele desligou, frustrado.
Mais tarde, outra mensagem: "Só mais um pouco, amor. Isso é tudo de fachada. Você sabe que ela é frágil. Vamos rir disso mais tarde. Eu prometo. Assim que a Clara melhorar, teremos nosso casamento. Maior, melhor do que antes."
Eu a deletei sem responder.
Passei a manhã com Léo, discutindo planos de casamento reais. Uma cerimônia pequena e elegante. Ele sugeriu o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Parecia perfeito.
Me peguei olhando para ele, realmente olhando para ele. Sua força silenciosa, a inteligência em seus olhos. A maneira como ele ouvia, verdadeiramente ouvia, quando eu falava.
Ele não era Heitor. Ele não era chamativo ou charmoso daquela maneira avassaladora. Ele era... sólido. Real.
Saí naquela tarde e comprei um presente para Léo. Uma rara primeira edição de um livro sobre história da arquitetura que eu sabia que ele apreciaria. Foi bom, até normal.
Quando voltei para o casarão, Heitor estava lá. Ele havia entrado por conta própria.
Ele estava de pé na sala de estar, com um ar presunçoso no rosto. Ao lado dele, no chão, havia dois grandes sacos de lixo.
"O que é isso?" eu perguntei.
"Ah, só limpando algumas das suas tralhas do meu apartamento", ele disse casualmente. "A Clara estava perguntando sobre algumas das suas coisas, sabe, coisas de mulher no banheiro, roupas no armário. Mais fácil dizer que eram de uma inquilina antiga e me livrar delas. Abrindo espaço para ela, sabe?"
Minhas tralhas. Minha vida com ele, reduzida a sacos de lixo.
Um saco estava aberto. Vi o canto de uma foto emoldurada – nós, sorrindo, de férias em Trancoso. Uma pequena tigela de cerâmica feita à mão que comprei em uma feira de artesanato, onde sempre guardava meus anéis. Meu suéter de caxemira favorito.
Ele estava literalmente jogando nosso passado fora.
"A Clara ficou um pouco sobrecarregada vendo as coisas de outra pessoa", ele continuou, alheio à tempestade que se formava dentro de mim. "Faz ela se sentir mais em casa se for só... nós."
Nós. Ele e Clara.
Clara então apareceu na porta, apoiada no braço de Heitor. Ela parecia pálida, mas bonita, seus olhos grandes e inocentes.
"Ah, Laura! Oi, cunha!" ela cantou. "O Heitor estava me dizendo que você está ajudando o Léo a redecorar. Tão fofo da sua parte!"
Ela olhou para os sacos de lixo. "Isso é coisa velha? É bom se livrar da bagunça, né?"
Eu assenti, incapaz de falar.
Heitor sorriu para ela. "Exatamente, meu bem."
Ele então se virou para mim, com uma piscadela conspiratória. "Só fazendo nossos papéis, certo?"
Clara, encorajada por Heitor, começou a insistir em "encontros de casais" e jantares "em família". Ela queria conhecer melhor "a garota do Léo".
Uma noite, estávamos em um restaurante formal e tradicional que Heitor havia escolhido porque Clara "se lembrava" de adorar. Era o tipo de lugar que eu achava pretensioso, mas Heitor era todo sorrisos, atendendo a todos os caprichos de Clara.
O ar condicionado estava no máximo. Clara estremeceu. "Ui, está um pouco frio, Heitor."
Instantaneamente, Heitor tirou seu caro paletó e o colocou sobre os ombros dela. "Melhor, meu bem?"
"Muito", ela arrulhou, aconchegando-se nele.
Eu os observei, um estranho distanciamento se instalando sobre mim. Heitor odiava sentir frio. Ele nunca abria mão de seu paletó. Para mim, ele sempre sugeria que eu deveria ter trazido um suéter, ou oferecia o dele com relutância, mas com um suspiro que me fazia sentir como um fardo.
Ele me pegou olhando e me mandou uma mensagem rápida por baixo da mesa, enquanto Clara contava animadamente a Léo sobre uma memória do colégio com Heitor.
Heitor: Ela sente frio fácil. Só mantendo as aparências. Não interprete mal.
Eu não respondi. Estava ocupada demais tendo uma epifania.
O amor, para Heitor, não era uma constante. Era uma performance. E com Clara, ele estava dando uma atuação digna de Oscar. Comigo, ele mal se dera ao trabalho de aprender suas falas.
Ele era capaz de devoção profunda, de grandes gestos, de atos altruístas como abrir mão de seu paletó em um restaurante frio.
Só não por mim.
Nunca por mim.
A constatação não trouxe uma nova dor. Trouxe uma clareza estranha e fria. Ele não tinha apenas escolhido Clara agora; de certa forma, ele havia escolhido sua capacidade para aquele tipo de amor com ela, muito tempo atrás. O que ele me ofereceu foi uma versão diluída, um hábito confortável.
De repente, um garçom, passando apressado, tropeçou. Uma bandeja carregada de bules de café fumegantes voou.
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