
O Altar, As Mentiras, A Penitência Dele
Capítulo 2
Ponto de Vista de Elisa Duarte:
O calafrio que desceu pela minha espinha não era apenas do ar de outono; era o toque gélido da memória. A pergunta inocente de Léo sobre a foto, sobre ele e uma flor, havia destrancado um cofre que eu mantive selado por cinco longos anos.
Eu tentei apagar cada traço de Caio Barreto da minha vida, da minha mente. Fotos, cartas, cada lembrança de um amor que nunca foi verdadeiramente meu. Mas algumas coisas, como o cheiro de papel velho ou as palavras curiosas de uma criança, podiam perfurar até as camadas mais grossas de esquecimento.
Léo, sempre tão observador, continuou sua descrição.
— Ele estava usando uma camisa branca, mãe, parecia um príncipe. E a flor era amarela, eu acho. Ele parecia triste, mas também muito gentil.
No olho da minha mente, a imagem se materializou, nítida e clara. Não um príncipe, mas um garoto. O jovem Caio Barreto, pego em um momento de vulnerabilidade desprotegida. Um fantasma de uma vida que eu não reconhecia mais.
Meus pensamentos vagaram de volta, mais longe do que eu jamais permitia. De volta a um tempo em que eu ainda acreditava em promessas, em amor, em um futuro que cintilava com possibilidades.
Caio Barreto. Um prodígio. Um nome sussurrado com reverência nos círculos acadêmicos, um menino de ouro de uma família de ouro. Ele se movia pela vida com confiança silenciosa, cada passo preciso, cada palavra medida. Ele estava destinado à grandeza, e todos sabiam disso. Todos, inclusive eu.
Lembrei-me da primeira vez que ele realmente me viu. Não apenas como a irmã mais nova e quieta de Camila, a invisível. Foi durante uma cerimônia de premiação, um borrão de luzes piscando e aplausos educados. Ele estava no palco, recebendo mais uma honraria. A multidão rugia. Mas então, ele fez algo inesperado. Ele parou, pegando uma única rosa caída do palco e colocando-a na lapela de um faxineiro exausto. Um gesto pequeno, quase imperceptível, mas que dizia muito.
Minha família raramente olhava para mim, muito menos oferecia gentileza. Crescendo, eu era um fantasma em minha própria casa, uma sombra silenciosa para a luz extravagante de Camila. Cada pequeno ato de consideração de qualquer pessoa fora do meu círculo imediato parecia um presente precioso, guardado e estimado. Aquela única rosa, aquele momento fugaz de atenção gentil, havia se gravado em meu coração. Era uma tábua de salvação à qual me agarrei em um mar de negligência.
Alimentei essa paixão secreta por anos, uma coisa terna e frágil. Eu o observava à distância, uma observadora silenciosa de sua vida deslumbrante. Eu sabia seus horários, seu café favorito, a maneira como sua testa franzia quando ele estava perdido em pensamentos. Eu sabia que ele era perfeito.
Uma tarde, eu o vi novamente. Ele estava parado perto do mastro da bandeira, o uniforme escolar impecável mesmo no calor sufocante. Ele estava ajudando o zelador com algo, seus movimentos eficientes e precisos. Camila, por outro lado, estava encostada na parede próxima, cumprindo detenção por mais uma regra quebrada, mais um limite ultrapassado. Ela sempre buscava atenção, e nossos pais, cegos para suas falhas, sempre a mimavam. Ela era a estrela deles.
Quando Caio terminou, ele olhou para Camila, uma expressão estranha no rosto. Então, ele fez aquilo. Ele estendeu a mão, seus dedos roçando a borda da sombra dela no chão cozido pelo sol. Um toque silencioso e cheio de desejo. Ele recolheu a mão imediatamente, como se tivesse se queimado, sua compostura rachando por uma fração de segundo antes de se afastar, os ombros rígidos.
A memória me atingiu como um golpe físico. Aquele momento terno, aquele toque gentil que eu havia idealizado, nunca tinha sido para mim. Era para Camila. A doçura da minha paixão infantil azedou em algo amargo, um gosto ruim na boca. Meu coração, antes tão cheio de um desejo secreto, agora parecia uma cavidade oca.
Camila, sempre a filha de ouro, não podia fazer nada errado aos olhos dos nossos pais. Suas rebeldias eram cativantes, suas travessuras encantadoras. Minha obediência silenciosa desaparecia no fundo, despercebida. Agora, até o brilhante e perfeito Caio estava cativado pelo espírito selvagem dela. Era um padrão familiar, um eco doloroso de toda a minha vida.
Lembrei-me de ler um ensaio que ele escreveu para uma revista literária. Falava de gaiolas douradas e o desejo por céus indomáveis, de admirar "passarinhos desobedientes" que ousavam voar contra o vento. Eu entendi então. Ele não era atraído pela minha conformidade silenciosa; ele ansiava pelo caos, pela liberdade que Camila personificava. Ele queria se libertar, e via Camila como sua fuga.
Meus pais, sempre oportunistas, viram uma aliança. Abordaram a família Barreto com uma proposta de casamento, visando uma fusão de fortunas e status social. Os Barretos, inicialmente hesitantes, consideraram a união. Eram dinheiro antigo, orgulhosos e reservados. Meus pais estavam ansiosos, quase desesperados.
Então, Caio, o filho quieto e obediente, chocou a todos. Ele falou. Ele concordou com um casamento arranjado, um raro ato de desafio contra a desaprovação velada de sua família em relação ao dinheiro novo da nossa. Sua avó, uma mulher formidável que sempre mimou seu neto estoico, havia lhe dito baixinho: "Você sempre fez o que era esperado, querido. Desta vez, escolha por si mesmo."
O noivado foi marcado. Mas Camila, fiel à sua forma, rebelou-se. Ela declarou Caio "chato, previsível, uma gaiola dourada". Ela não seria amarrada a tal homem. Ela fugiu. Ela sempre fugia.
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