
O Altar, As Mentiras, A Penitência Dele
Capítulo 3
Ponto de Vista de Elisa Duarte:
Camila fugiu, deixando o caos em seu rastro, como sempre. Meus pais, desesperados para salvar as aparências e a aliança lucrativa, mal piscaram antes de se voltarem para mim.
— Você vai fazer isso, Elisa — minha mãe disse, a voz desprovida de calor. — Você vai se casar com Caio Barreto.
E eu fiz. Eu, a filha quieta e negligenciada, fui subitamente empurrada para os holofotes, herdando um noivo que eu secretamente desejei a vida inteira. Parecia uma piada cruel, um conto de fadas distorcido onde a Cinderela ficava com o príncipe apenas porque a meia-irmã favorita o havia jogado fora.
A família Barreto, imersa em tradição, parecia alheia à troca de noivas, ou escolheu ignorá-la. Exceto Caio. Ele sabia. Eu podia ver em seus olhos, uma mudança sutil, uma cautela que não estava lá antes.
O jantar de noivado foi um evento rígido e estranho. Meus pais sorriam, fingindo que esse tinha sido o plano o tempo todo. A família de Caio, formal e correta, mantinha sorrisos educados. O próprio Caio era um fantasma, mal falando, o olhar distante. Eu me sentia uma impostora, agudamente ciente da farsa. A comida virou cinzas na minha boca.
Mais tarde naquela noite, com o desconforto me corroendo, encontrei-o no terraço, banhado pelo luar. Minha consciência, uma vozinha que eu ainda não tinha aprendido a ignorar, exigiu que eu falasse.
— Caio — comecei, minha voz mal passando de um sussurro. — Eu sei... eu sei que não era eu quem você esperava. — Engoli em seco, as palavras presas na garganta. — Se você não... se você não quer isso, eu entendo. Não quero prender você. Não quero passar minha vida com alguém que não me ama. — Meu coração doía com a confissão, a esperança frágil dentro de mim tremendo.
Ele se virou, o rosto suavizado pelo luar. Ele olhou para mim, realmente olhou para mim, pela primeira vez desde o anúncio do noivado. Havia uma intensidade silenciosa em seus olhos.
— Elisa — ele disse, a voz baixa e firme. — Eu dei minha palavra. Vou honrá-la. Vou me casar com você. — Ele deu um pequeno passo para mais perto, e minha respiração falhou. — Serei um bom marido. Vou cuidar de você.
A sinceridade em sua voz, a simples promessa de "nós", tocou um acorde profundo dentro de mim. Algo que eu não sabia que existia. Meu coração, um passarinho em uma gaiola, agitou-se descontroladamente. Casamento. A palavra, antes tão distante, agora cintilava com a promessa de pertencimento, de um lugar para mim. Era tudo o que eu sempre quis secretamente.
Eu queria perguntar se ele me amava. As palavras pairaram na minha língua, mas não consegui expulsá-las. O medo, ou talvez uma necessidade desesperada de acreditar na ilusão, me conteve.
Ele estendeu a mão, os dedos ajustando suavemente o lenço em volta do meu pescoço. O toque suave de sua pele enviou um choque através de mim. Por um segundo fugaz, fui transportada de volta para a montanha, para a pequena gentileza de um doce compartilhado. Era o suficiente. Mais do que suficiente.
Olhei para ele então, acreditando verdadeiramente. Ele era honrado. Ele era gentil. Ele nunca me trairia. Agarrei-me a essa convicção, esquecendo que meu conhecimento de Caio Barreto era tão fino quanto o luar que nos banhava.
Os preparativos do casamento começaram em um turbilhão de renda branca e arranjos florais. Escolhi cada detalhe, meu coração se agitando com uma esperança que eu não sabia que possuía. Minha vida estava finalmente tomando forma.
Então, dois dias antes do casamento, Camila voltou. Ela irrompeu pela porta como um furacão, o cabelo geralmente impecável desgrenhado, um hematoma florescendo em sua bochecha. Ela tinha se envolvido em uma briga, disse ela, a voz tensa de fúria reprimida.
Ela entrou no meu quarto, onde meu vestido de noiva intocado estava pendurado, etéreo e imaculado. Ela passou a mão pelo tecido cintilante, os olhos duros. Então ela viu a pulseira delicada e antiga na minha penteadeira, uma herança de família que deveria ser meu "algo velho".
— Sempre pegando minhas sobras, não é, Elisa? — ela zombou, a voz pingando desdém. — Primeiro meu noivo, agora minhas joias. Você não tem nada que seja seu?
Uma raiva crua e desconhecida explodiu dentro de mim. Cinco anos de resistência silenciosa se romperam.
— Ele nunca foi seu, Camila — cuspi, minha voz tremendo. — Você o jogou fora. E este é o meu casamento, a minha vida. Você não vai arruinar isso também.
Ela deu um passo para mais perto, os olhos estreitados, um brilho predatório neles.
— Ah, irmãzinha. Você acha que venceu? Acha que pode manter qualquer coisa que realmente me pertence? — A voz dela caiu para um sussurro arrepiante. — Você vai aprender. Algumas coisas são simplesmente destinadas.
Minha mão voou antes mesmo que eu registrasse o pensamento. *Estalo!* O som ecoou no quarto silencioso. Uma marca vermelha floresceu na bochecha de Camila, espelhando aquela com a qual ela havia chegado.
Camila engasgou, segurando o rosto. Então, um lamento teatral rasgou sua garganta.
— Mãe! Pai! A Elisa me bateu!
Meus pais se materializaram instantaneamente, os rostos contorcidos de choque e fúria. Minha mãe correu para Camila, ninando-a como se ela estivesse mortalmente ferida. Os olhos do meu pai queimavam buracos através de mim.
E foi aí que Caio entrou. Ele tinha chegado para me levar para uma prova final. Ele parou morto na porta, o olhar fixo em Camila, soluçando dramaticamente nos braços da minha mãe, o rosto machucado agora marcado pela minha mão.
Sua compostura, geralmente tão inabalável, fraturou. Seus ombros endureceram. Seu rosto perdeu a cor. Ele se moveu, não em minha direção, mas em direção a Camila, os passos rígidos, quase relutantes.
— O que aconteceu? — ele perguntou, a voz baixa, um tremor percorrendo-a. Mas seus olhos eram apenas para Camila.
Minha mãe, rápida em aproveitar uma oportunidade, lançou-se em um discurso furioso, pintando-me como a agressora, a irmã ciumenta. Camila, sentindo sua vantagem, soluçou mais alto, apontando um dedo trêmulo para mim.
Os olhos de Caio, geralmente tão calmos, estavam cheios de uma preocupação desesperada. Ele alcançou Camila, puxando-a para seus braços.
— Quem fez isso? — Sua voz era um rosnado gutural que eu nunca tinha ouvido antes.
— Ela... ela me bateu — Camila choramingou, enterrando o rosto no peito dele.
Os braços dele apertaram ao redor dela.
— Vamos para o hospital. Vamos denunciar isso. Ela vai pagar. — As palavras eram frias, cortantes, direcionadas diretamente a mim, a mulher com quem ele deveria se casar em dois dias.
Ele não olhou para mim uma única vez. Nem uma vez. Desde o momento em que entrou, até carregar Camila para fora, a cabeça dela aninhada em seu ombro, ele nem sequer reconheceu minha existência. Fiquei ali, banhada pelo brilho forte do lustre, o silêncio da sala ensurdecedor. Meu mundo, antes cintilante de esperança, acabara de ser reduzido a cinzas.
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