
O Adeus Que Ela Nunca Leu
Capítulo 2
André Santos respirou fundo.
A carta de demissão estava na sua mão.
Ele caminhou até a mesa de Beatriz Albuquerque, a CEO.
Ela estava ao telefone, gesticulando, imersa em alguma crise.
"Beatriz," ele começou.
Ela fez um sinal para ele esperar, o rosto tenso.
Finalmente, desligou.
"O que foi, André?"
A voz dela era ríspida, como sempre quando estava sob pressão.
Ele estendeu a carta.
"Minha demissão."
Beatriz pegou o papel, os olhos já percorrendo outro documento em sua tela.
Ela rabiscou uma assinatura no rodapé da carta dele sem ler.
"Ok. Pode deixar com o RH."
Ela nem levantou o olhar.
Não percebeu que era ele, seu assessor pessoal, seu motorista, seu... tudo.
Um colega do departamento financeiro, que passava pelo corredor e viu a cena, parou André na porta.
"Cara, você tem certeza? A Bia vai surtar quando perceber que é você."
André deu um sorriso cansado.
"Ela já assinou. E não, ela não vai surtar. Para ela, eu sou só mais um."
Ele saiu do escritório imponente, deixando para trás o luxo e o cheiro caro de Beatriz.
Lá fora, o sol do Rio de Janeiro parecia zombar dele.
Ele pensou em como tudo começou.
Quatro anos.
Quatro anos de uma promessa silenciosa, de uma lealdade invisível.
Ele conheceu Tiago Albuquerque na UERJ.
Vieram de mundos diferentes. André, da comunidade pacificada, lutando por cada conquista. Tiago, o irmão mais novo de Beatriz, surfista despreocupado, herdeiro.
Mas a amizade deles foi instantânea, forte.
Foi Tiago quem o apresentou a Beatriz.
André nunca esqueceu aquele dia.
Ela entrou na sala, e o ar pareceu mudar.
Alta, elegante, com uma aura de poder que o intimidou e fascinou.
Ele se apaixonou ali, no mesmo instante. Um amor secreto, impossível.
Ele era apenas o amigo do irmão dela, um estudante de administração.
Ela era a herdeira dos Hotéis Albuquerque.
Para ficar perto dela, ele aceitou o emprego.
Começou como assistente administrativo, depois assessor pessoal, motorista.
Qualquer coisa para estar no seu círculo.
Ele era eficiente, discreto, sempre um passo à frente das necessidades dela.
Ela mal o notava como homem.
Até aquela festa da empresa.
Alguém armou para ela, uma bebida adulterada.
Beatriz passou mal, desorientada.
André estava lá.
Ele a amparou, a tirou dali, a levou para o apartamento dela.
Cuidou dela.
Eles acabaram passando a noite juntos.
Para ele, foi a realização de um sonho.
Para ela, um erro embaraçoso.
Na manhã seguinte, a distância dela era palpável.
Ela lhe ofereceu dinheiro, uma quantia generosa.
"André, isso foi um erro. Eu... eu ainda amo o Leonardo."
Leonardo Barros. O playboy, seu amor de adolescência, que vivia no exterior, sustentado por negócios duvidosos da família, ou talvez dela mesma.
André lembrou de Tiago comentando, "Minha irmã sempre foi cega pelo Leonardo. Ele não presta, mas ela não enxerga."
O dinheiro pareceu uma bofetada.
Ele recusou.
"Beatriz," ele disse, a voz firme apesar do coração em pedaços. "Eu não quero seu dinheiro."
Ele respirou fundo, a decisão se formando.
"Eu fico. Continuo sendo seu assessor, seu motorista. Seu braço direito. E se você precisar... seu amante discreto."
Ela o olhou, surpresa.
"Até o dia que o Leonardo voltar. Ou até o dia que você o esquecer. Se, quando ele voltar, seu coração ainda for dele, eu sumo. Sem perguntas, sem cobranças."
Ela hesitou, mas a conveniência falou mais alto.
Ela precisava de alguém leal, e André já tinha provado ser.
E assim o pacto foi selado.
Quatro anos se passaram.
André era o funcionário exemplar durante o dia.
O amante secreto e silencioso à noite, quando ela se sentia sozinha ou precisava de um corpo quente ao lado.
Ele nunca cobrou nada. Nunca pediu nada.
Apenas a amava em silêncio, esperando um milagre.
Agora, o fantasma havia retornado.
Leonardo Barros estava de volta ao Brasil.
Beatriz postou uma foto no Instagram. Ela e Leonardo, sorrindo, no evento de lançamento do novo hotel da rede Albuquerque.
A legenda: "O melhor presente é um reencontro."
O estômago de André revirou.
Ele ligou para ela.
Quem atendeu foi Leonardo.
"Alô? Quem fala?" A voz de Leonardo era carregada de sarcasmo.
André sentiu o sangue gelar.
"Quero falar com a Beatriz."
Ele ouviu Leonardo rindo, passando o telefone.
"Bia, é para você. Acho que é algum funcionário seu."
A voz de Beatriz veio em seguida, fria, distante.
"André? Aconteceu alguma coisa urgente na empresa?"
"Não, Beatriz. Só queria... falar com você."
"Agora não posso. Estou ocupada. Se não for urgente, nos falamos depois."
E desligou.
"Apenas um funcionário."
Aquelas palavras ecoaram na mente de André.
Era hora de cumprir sua parte no acordo.
Ele começou a juntar seus poucos pertences no pequeno quarto de empregados do apartamento dela, onde às vezes ficava.
Roupas, alguns livros, coisas simples.
Beatriz o encontrou ali, uma mala pequena aos seus pés.
"O que está fazendo?" ela perguntou, um leve vinco de preocupação na testa.
"Indo embora. Cumprindo minha parte do acordo."
Ela pareceu desconfortável.
"Está chovendo muito lá fora. Uma tempestade de verão daquelas. Eu te levo."
Era mais uma ordem do que uma oferta.
No carro de luxo dela, o cheiro de Leonardo estava impregnado.
Miniaturas de carros esportivos no painel. Um CD de sertanejo universitário tocando baixo.
Coisas que Leonardo gostava. Coisas que André sabia que Beatriz detestava.
O telefone dela tocou. Era Leonardo.
"Amor, já estou com saudades. E o nosso fim de semana em Angra, tudo certo?"
Beatriz sorriu para o telefone.
"Tudo certo, meu bem. Já estou chegando aí."
Ela parou o carro na esquina da rua onde a mãe de André morava, na entrada da comunidade.
"Pode descer aqui." A voz dela era neutra.
André abriu a porta. A chuva caía forte.
Ao pegar sua pequena caixa de papelão com alguns objetos pessoais, ela escorregou de suas mãos molhadas.
Tudo se espalhou pela calçada molhada.
Cartas de amor que ele nunca entregou.
Fotos espontâneas dela, que ele tirara ao longo dos anos.
Pequenos objetos que ela descartara e ele guardara como tesouros: uma caneta sem tinta, um lenço de seda desfiado, um bilhete amassado.
Beatriz olhou rapidamente, desviou o olhar, constrangida ou indiferente, ele não soube dizer.
"Preciso ir. Leonardo está me esperando."
Ela acelerou, o carro de luxo desaparecendo na chuva.
André se abaixou para juntar suas coisas encharcadas.
Ao tentar atravessar a rua, com a visão embaçada pela chuva e talvez pelas lágrimas, não viu a van.
O impacto o jogou no chão. Uma dor aguda no tornozelo.
A van fugiu sem prestar socorro.
Ele se levantou com dificuldade, mancando, a chuva impiedosa lavando seu rosto e suas esperanças.
Chegou em casa, na casa simples de sua mãe, ensopado e ferido.
Mais tarde, o celular vibrou. Uma mensagem de Beatriz.
"André, siga sua vida. Há muitas outras pessoas no mundo. Não se prenda a mim."
Fria. Definitiva.
Com o coração em mil pedaços, André pegou a caixa molhada.
No pequeno quintal dos fundos, fez uma fogueira improvisada.
Jogou ali as cartas, as fotos, os pequenos objetos.
Viu tudo queimar, as memórias se transformando em cinzas.
O amor que ele sentia por Beatriz pareceu se esvair com a fumaça, subindo e desaparecendo no céu escuro e chuvoso do Rio.
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