
O Adeus Que Ela Nunca Leu
Capítulo 3
Na manhã seguinte, André engoliu a dor e o orgulho ferido.
Ele tinha que trabalhar. Seu último dia, conforme o aviso prévio que Beatriz nem se dera ao trabalho de ler.
Mancando levemente, ele chegou ao escritório.
O ambiente na Albuquerque Hotéis era de efervescência.
Leonardo Barros passeava pelo andar da presidência como se fosse o dono.
André o viu com Beatriz na sala dela.
A porta de vidro estava entreaberta.
Leonardo a abraçava por trás, sussurrando algo em seu ouvido.
Beatriz ria, um riso que André raramente ouvia, leve e genuíno.
Uma pontada de algo parecido com ciúme, mas mais amargo, mais resignado, o atingiu.
Ele desviou o olhar e foi para sua pequena mesa, no canto.
Havia uma reunião importante marcada para as dez.
Investidores árabes. Um projeto milionário.
Beatriz sabia disso. André a lembrara na noite anterior, antes de... tudo.
Dez horas. Dez e quinze. Dez e meia.
Beatriz não aparecia.
André foi até a sala dela.
Leonardo estava sentado na cadeira de Beatriz, os pés sobre a mesa.
Beatriz retocava o batom, olhando-se num pequeno espelho.
"Beatriz, a reunião com os investidores," André disse, a voz profissional.
Leonardo o olhou de cima a baixo.
"Quem é você para interromper?"
Beatriz se virou.
"André, não vê que estou ocupada? Espere."
"Mas, os investidores já estão..."
"Eu disse para esperar!" ela cortou, irritada.
Leonardo sorriu, satisfeito.
André recuou.
Minutos depois, Beatriz saiu apressada, Leonardo a reboque.
A reunião começou com quase uma hora de atraso.
Os investidores estavam visivelmente contrariados.
Beatriz, percebendo o clima, precisava de um culpado.
Seus olhos caíram sobre André, que organizava os papéis.
"André foi o responsável por não me avisar do horário corretamente," ela disse, a voz fria e clara para todos ouvirem.
André sentiu o sangue ferver, mas engoliu a raiva.
Ele apenas baixou a cabeça. "Peço desculpas pelo meu erro."
A humilhação queimava.
Mais tarde, Leonardo o encontrou na copa.
"Ei, você. Assessorzinho."
André se virou.
"Sirva-me um café. E traga uns petiscos importados para a Bia. Ela adora aqueles queijinhos franceses."
André respirou fundo. "Não é minha função, senhor Barros."
Leonardo se aproximou, o sorriso debochado no rosto.
"Ah, não é? Vamos ver o que a Beatriz acha disso."
Ele pegou uma taça de vinho tinto que estava sobre o balcão.
Deliberadamente, derramou o líquido caro na camisa branca de André.
"Ops. Que desastrado você é," Leonardo disse, rindo.
André cerrou os punhos.
Naquele momento, Beatriz entrou na copa.
"O que está acontecendo aqui?"
"Seu funcionário, Bia. Derrubou vinho em mim e ainda manchou a própria camisa. Que falta de profissionalismo." Leonardo mentiu descaradamente.
Beatriz olhou para a mancha na camisa de André, depois para a taça na mão de Leonardo.
"André! Que incompetência! Esta camisa custou uma fortuna! E olhe o estado da sua! Vá se limpar. E peça desculpas ao Leonardo."
André a encarou, incrédulo.
"Mas foi ele..."
"Sem mas! Faça o que eu mandei!" A voz dela era dura.
A noite trouxe a festa beneficente anual dos Hotéis Albuquerque.
Um evento de gala.
André estava lá, coordenando o staff, ainda com o tornozelo dolorido.
Leonardo, querendo se exibir, não o deixava em paz.
"André, busque meu casaco no carro."
"André, a taça daquele investidor está vazia. Sirva-o."
"André, essas caipirinhas estão boas? Experimente todas. Preciso da sua aprovação de 'especialista'." Ele disse a última palavra com escárnio, sabendo que André raramente bebia.
André obedeceu, o rosto uma máscara de profissionalismo.
Então, o golpe final.
Um importante investidor, o Sr. Nakata, se aproximou de Beatriz, preocupado.
"Beatriz, querida, parece que meu convite para o camarote exclusivo sumiu. Seu assessor estava com ele."
Leonardo imediatamente apontou para André.
"Foi ele! Eu o vi perto da mesa do Sr. Nakata. Deve ter perdido, o desastrado."
Todos os olhares se voltaram para André.
Beatriz, pressionada por Leonardo e pelos olhares curiosos, o encarou.
"André, onde está o convite do Sr. Nakata?"
"Eu não peguei nenhum convite, Beatriz."
"Não minta!" Leonardo interveio. "Eu vi você!"
"Seguranças," Beatriz chamou, a voz tensa. "Revistem o Sr. Santos."
André sentiu o mundo desabar.
Ser revistado na frente de todos. A humilhação máxima.
Ele olhou para Beatriz, um apelo silencioso nos olhos.
Ela desviou o olhar, permitindo que os seguranças o abordassem.
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