
O Acidente Que Não Foi
Capítulo 2
Quando saí do escritório do advogado, o sol do meio-dia queimava. O ar condicionado do carro parecia fraco, incapaz de afastar o calor sufocante.
Na minha mão, o acordo de divórcio parecia pesado. Assinado. Finalizado.
No banco do passageiro, o meu telemóvel vibrou. Era um número desconhecido. Ignorei.
Voltou a vibrar. E de novo.
À terceira vez, atendi, irritada.
"Mãe?"
A voz do outro lado era fraca, quase um sussurro.
"Filho, sou eu."
O meu coração parou por um segundo. Era a minha mãe, Clara. Mas a voz dela... estava errada.
"Onde estás? O que aconteceu?"
"Hospital... São Lucas... despacha-te, Leo."
A chamada caiu.
Pisei no acelerador. O carro cantou pneus enquanto eu virava bruscamente, ignorando os semáforos. Hospital São Lucas. O que raio aconteceu?
Eu tinha acabado de me divorciar de Sofia. A minha mãe sabia que hoje era o dia. Ela devia estar em casa, à minha espera.
Quando cheguei ao hospital, corri para a receção.
"Clara Gomes, por favor. Acabou de dar entrada."
A enfermeira olhou para o ecrã. "Quarto 302, cuidados intensivos."
Cuidados intensivos. A palavra ecoou na minha cabeça.
Corri pelas escadas, empurrando pessoas. No terceiro andar, vi-o. Diogo, o meu padrasto, parado à porta do quarto 302.
Ele olhou para mim, os seus olhos frios como sempre.
"O que é que lhe fizeste?" perguntei, a minha voz a tremer de raiva.
Ele encolheu os ombros. "Ela caiu. Um acidente."
"Um acidente? Ela ligou-me. A voz dela... ela mal conseguia falar."
"Ela está velha, Leo. As pessoas velhas caem."
Tentei passar por ele, mas ele bloqueou-me o caminho com o braço.
"Os médicos estão com ela. Não podes entrar."
Nesse momento, o meu telemóvel tocou de novo. Era Sofia.
A minha ex-mulher.
Hesitei, depois atendi.
"Leo? O teu padrasto ligou-me. Disse que a tua mãe está no hospital. Está tudo bem?"
A voz dela era suave, preocupada. Uma preocupação que eu não ouvia há meses.
"Não, Sofia. Não está nada bem."
Ao fundo da chamada dela, ouvi uma voz familiar.
"Querida, está tudo bem? O Leo está a criar problemas?"
Era a mãe dela, a minha ex-sogra, Helena.
Diogo sorriu, um sorriso que não chegou aos olhos. "Vês? Até a tua ex-mulher é mais sensata que tu. Foi um acidente. A tua mãe é desastrada."
"Desastrada? Ou tu a empurraste?" gritei, a minha voz a atrair olhares de enfermeiras que passavam.
A porta do quarto 302 abriu-se. Um médico saiu, o rosto sério.
"Família de Clara Gomes?"
"Eu sou o filho dela," disse eu, dando um passo à frente.
Diogo também se aproximou. "Eu sou o marido."
O médico olhou para a sua prancheta. "A vossa mãe... a vossa esposa... sofreu uma queda grave. Traumatismo craniano. Está em coma induzido. As próximas 48 horas são críticas."
Coma. A palavra atingiu-me como um soco no estômago.
O meu mundo desabou.
Diogo pôs a mão no meu ombro. "Vês, filho? Um trágico acidente."
Tirei a mão dele de mim com força.
"Fica longe de mim. Fica longe dela."
Ele riu-se, um som baixo e sinistro.
"Eu sou o marido dela, Leo. Legalmente, eu tomo as decisões. Talvez devesses ir para casa. Descansar. Deixa os adultos tratar disto."
Olhei para ele, para o seu sorriso presunçoso, e soube, com uma certeza gelada, que aquilo não tinha sido um acidente.
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