
O Acidente Que Não Foi
Capítulo 3
Sentei-me na cadeira desconfortável do corredor do hospital. O cheiro a antissético enchia-me as narinas.
Diogo tinha ido "buscar um café". Uma desculpa para me deixar sozinho com os meus pensamentos.
Peguei no telemóvel. Pesquisei "advogado criminalista Porto". Apareceram dezenas de nomes. Liguei ao primeiro da lista.
"Dr. Alves, escritório de advocacia."
"Preciso de ajuda. A minha mãe está no hospital. Acho que o meu padrasto a magoou."
Expliquei a situação rapidamente. A queda, o comportamento de Diogo, o historial dele.
"Precisa de provas, Sr. Gomes. Suspeitas não são suficientes num tribunal."
"Eu sei. Mas o que posso fazer?"
"Fale com os vizinhos. Veja se alguém ouviu alguma coisa. Verifique se há câmaras de segurança na rua. E, mais importante, não confronte o seu padrasto. Aja normalmente."
Desliguei, a cabeça a latejar. Agir normalmente. Como?
Levantei-me e caminhei até à janela no fim do corredor. A cidade estendia-se lá em baixo, indiferente ao meu tormento.
O meu telemóvel vibrou. Sofia.
"Leo, como está ela?"
"Na mesma. Em coma."
"Meu Deus. Eu... eu sinto muito. Precisas de alguma coisa? Posso levar-te comida? Um café?"
"Não, obrigado."
Houve um silêncio.
"Leo, eu sei que hoje foi... complicado. Mas a tua mãe... eu sempre gostei muito dela."
"Eu sei."
"O Diogo está aí?"
"Sim."
"Tem cuidado, por favor."
Ela desligou. A preocupação dela era genuína. Uma parte de mim sentiu falta daquilo. Da nossa vida antes de tudo se desmoronar.
Diogo voltou, segurando dois copos de plástico. Estendeu-me um.
"Bebe. Pareces um fantasma."
Recusei com um aceno de cabeça.
Ele sentou-se ao meu lado, sorvendo o seu café ruidosamente.
"Sabes, a tua mãe andava muito deprimida ultimamente. A falar do teu divórcio. Talvez ela simplesmente não estivesse a prestar atenção onde punha os pés."
"A minha mãe é forte. Ela não se deixaria abater por isso."
"Toda a gente tem um limite, Leo. Tu devias saber isso melhor que ninguém."
As palavras dele eram veneno, destinadas a ferir.
Uma enfermeira aproximou-se. "Sr. Gomes, o seu padrasto?"
"Sim?" disse Diogo.
"A sua esposa está a ter uma reação. O médico precisa de falar consigo. Urgente."
Diogo levantou-se de um salto, a sua máscara de calma a rachar por um instante. Ele seguiu a enfermeira apressadamente.
Fiquei sozinho de novo. O meu coração batia descontroladamente. Uma reação? Boa ou má?
Aproveitei a oportunidade. Corri para a receção do piso.
"Por favor, preciso de acesso aos registos de entrada da minha mãe. Clara Gomes. Quero saber o que o paramédico que a trouxe relatou."
A rececionista olhou para mim com hesitação. "Não tenho a certeza se posso dar-lhe essa informação."
"Por favor. É a minha mãe. O meu padrasto está a agir de forma estranha. Eu preciso de saber a verdade."
Talvez tenha sido o desespero na minha voz. Ela suspirou e virou-se para o computador.
"Diz aqui... chamada de emergência feita pelo marido. Relatou queda acidental das escadas. A paciente foi encontrada inconsciente no fundo da escadaria."
Escadaria.
Mas a minha mãe e o Diogo viviam num apartamento térreo.
Não havia escadas.
Você pode gostar





