
O Acidente e a Ambição
Capítulo 2
O telefone tocou no meio da noite, o som agudo rasgando o silêncio do apartamento. Ricardo atendeu, a voz sonolenta. Do outro lado da linha, a voz de um enfermeiro do Hospital Central soou urgente e grave.
"Senhor Ricardo? Seu pai, Dr. Alves, sofreu um acidente grave. Ele foi trazido para a emergência, o estado dele é crítico."
O sono de Ricardo desapareceu instantaneamente, substituído por um gelo que se espalhou por suas veias. Ele se vestiu às pressas, o coração martelando contra as costelas. Ele dirigiu até o hospital de forma automática, a mente vazia de tudo, exceto o nome do pai.
No corredor estéril do hospital, o cheiro de antisséptico enchia o ar. Um médico se aproximou com uma expressão sombria.
"Seu pai sofreu um traumatismo craniano severo. Ele está em coma profundo. Fizemos o que foi possível, mas as próximas horas são cruciais."
Ricardo sentiu o chão sumir sob seus pés. Ele se apoiou na parede, a respiração curta. Ele olhou através do vidro da UTI e viu seu pai, um cientista renomado e um homem que sempre fora cheio de vida, agora imóvel em uma cama, cercado por máquinas que apitavam ritmicamente. Aquele som era a única coisa que o mantinha de pé.
Ele passou horas ali, um zumbido constante em seus ouvidos, até que sentiu uma mão em seu ombro. Era sua esposa, Ana Clara. Ela estava impecavelmente vestida, como sempre, seu rosto bonito contorcido em uma máscara de preocupação.
"Querido, eu soube assim que pude. Como ele está?"
Ricardo mal conseguiu falar. Ele apenas balançou a cabeça.
Ana Clara o abraçou, mas o abraço parecia frio, calculado. Eles ficaram em silêncio por um tempo, até que ela se afastou e olhou para ele com seriedade.
"Ricardo, eu sei quem causou o acidente."
Ele a encarou, chocado. "Quem? A polícia disse que o motorista fugiu."
"Foi o João", ela disse em voz baixa, olhando para os lados para se certificar de que ninguém estava ouvindo.
João. O primo de Ana Clara. O pupilo brilhante que seu pai havia acolhido e ensinado por anos, tratando-o como um filho. A raiva começou a borbulhar dentro de Ricardo.
"Aquele desgraçado... Eu vou matá-lo. Vou chamar a polícia agora mesmo."
Ele pegou o telefone, mas Ana Clara agarrou sua mão com uma força surpreendente.
"Não", ela disse, a voz firme. "Você não vai fazer isso."
Ricardo olhou para ela, incrédulo. "O que você está dizendo? Ele quase matou o meu pai e fugiu!"
"Pense nas consequências, Ricardo! João está no auge de sua carreira, prestes a fechar um grande projeto para a nossa família. Um escândalo agora arruinaria tudo. A reputação da minha família, os negócios... tudo iria por água abaixo."
"A reputação da sua família?", ele repetiu, a voz carregada de desprezo. "Meu pai está em coma! A vida dele vale menos que a reputação da sua família?"
"Não seja dramático", ela respondeu, a frieza em seus olhos o assustando. "Vamos cuidar do seu pai. Daremos a ele o melhor tratamento. Mas você precisa esquecer essa história de polícia. Deixe isso para lá."
Ricardo se afastou dela, o sentimento de traição começando a se instalar. "Eu não posso acreditar no que estou ouvindo. Você está me pedindo para acobertar um crime para proteger seu primo e seus negócios?"
A expressão de Ana Clara endureceu. Ela o olhou de cima a baixo, um brilho de desdém em seus olhos.
"Você depende de mim, Ricardo. Você sempre dependeu. Pense bem. Se você insistir nisso, considere nosso casamento acabado. E mais," ela fez uma pausa, a ameaça clara em sua voz, "pense em como você vai pagar por este hospital de luxo sem o meu dinheiro. Eu posso cortar tudo. Cada centavo."
O sangue de Ricardo gelou. A ameaça era real. Ele vivia à sombra dela e de sua família rica há anos. Sua independência financeira era uma ilusão.
Desesperado, ele foi até o setor financeiro do hospital no dia seguinte para tentar organizar o pagamento. Como esperado, o cartão de crédito conjunto foi recusado. Todas as suas contas havólicas sido congeladas. Ele ligou para o gerente do banco, um velho amigo da família de Ana Clara, que apenas deu desculpas vagas e disse que não podia fazer nada.
Ele se sentia encurralado, impotente. A imagem do pai na cama da UTI o assombrava. O tempo estava se esgotando.
Enquanto estava sentado na sala de espera, o celular tocou novamente. Era um número desconhecido. Ele atendeu, esperando mais uma má notícia.
"Senhor Ricardo Alves?", disse uma voz profissional. "Meu nome é Dr. Gusmão, sou do escritório de advocacia Gusmão & Associados. Eu era o advogado do seu pai."
"Sim?", Ricardo respondeu, confuso.
"Lamento muito pelo que aconteceu com seu pai. Ele me procurou algumas semanas atrás. Havia uma questão urgente que ele queria resolver. Ele fez uma transferência de titularidade de uma de suas patentes mais importantes. Ele a transferiu para o seu nome."
Ricardo ficou em silêncio, tentando processar a informação. Uma patente? Seu pai nunca havia mencionado isso.
"Que patente?", ele perguntou.
"Uma invenção revolucionária na área de biotecnologia. Ele me disse que era o trabalho de sua vida e que queria garantir que estivesse em boas mãos. Nas suas mãos."
Uma pequena chama de esperança se acendeu no peito de Ricardo. Talvez nem tudo estivesse perdido.
Com essa nova informação, ele ligou para Ana Clara. A raiva agora era fria e focada.
"Você congelou minhas contas", ele disse, sem rodeios.
Houve uma pausa do outro lado. "Eu avisei você, Ricardo", a voz dela soou irritada.
"Meu pai está em estado crítico. Ele precisa de tratamento, Ana Clara. Ele pode morrer. Você entende a gravidade disso? Você entende o que fez?"
"Não seja tão melodramático", ela zombou. "Ele vai ficar bem. E você vai superar isso. Basta fazer o que eu digo. Esqueça o João."
A frieza dela era inacreditável. A mulher com quem ele se casou, que ele pensou amar, estava disposta a deixar seu pai morrer para proteger a própria imagem. O desprezo dela pela situação, pela vida de um homem que fora como um pai para ela também, era palpável. A decepção que ele sentiu era avassaladora, um peso que o sufocava. Ele sabia, naquele momento, que a mulher que ele conhecia não existia mais, se é que algum dia existiu.
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