
O Acidente e a Ambição
Capítulo 3
Ricardo desligou o telefone, o som do tom de discagem ecoando no silêncio do seu carro. Ele ficou ali, parado no estacionamento do hospital, o volante frio sob suas mãos. O rosto de Ana Clara, antes o centro de seu universo, agora parecia o de uma estranha.
Ele pensou nos dez anos de casamento. Ele a amava, ou pelo menos pensava que sim. Ele havia desistido de suas próprias ambições para apoiá-la, para se encaixar no molde que a família dela esperava. Um marido presenteável, submisso, que não ofuscaria a herdeira brilhante. E por todo esse tempo, ele se convenceu de que era amor, de que era um sacrifício válido.
Agora, a memória de cada sorriso, cada palavra de carinho dela, parecia manchada, falsa. Um frio profundo se instalou em seu coração, um frio que nada tinha a ver com a noite lá fora.
Ele dirigiu para casa, o casarão luxuoso que nunca pareceu realmente seu. Ana Clara estava na sala de estar, bebendo uma taça de vinho, parecendo perfeitamente calma.
"Você voltou", ela disse, sem olhá-lo.
Ricardo parou na frente dela, a raiva controlada fervendo sob a superfície.
"Eu quero que você pense em uma coisa, Ana Clara", ele começou, a voz baixa e tensa. "Você se lembra de como meu pai te tratava? Ele te amava como uma filha. Quando sua empresa estava prestes a falir, quem hipotecou a própria casa para te dar o capital que você precisava? Quem passou noites em claro te ajudando a desenvolver a estratégia de negócios que te tornou quem você é hoje?"
Ele não estava gritando. Sua voz era um sussurro acusador, cada palavra pesando no ar.
"Meu pai deu a você tudo. Ele acreditou em você quando ninguém mais acreditou, nem mesmo sua própria família. Ele te deu a base para construir seu império."
Ana Clara finalmente olhou para ele, o rosto endurecido.
"E o que você quer dizer com isso?", ela cuspiu.
"Eu quero dizer que você está cuspindo no prato em que comeu. O homem que te deu o mundo está morrendo em um hospital por causa do seu primo irresponsável, e sua única preocupação é proteger a imagem da sua família. Você não tem um pingo de gratidão? De decência?"
A verdade das palavras dele a atingiu. Por um segundo, ele viu um lampejo de vergonha em seus olhos, mas foi rapidamente substituído pela raiva. Ela se levantou de um salto, o vinho balançando perigosamente na taça.
"Como você ousa falar assim comigo?", ela gritou, a compostura finalmente quebrando. "Você acha que eu devo tudo a ele? Eu construí meu negócio com meu próprio suor! Você, que nunca fez nada de útil na vida, não tem o direito de me julgar!"
Ela se aproximou e, em um gesto de fúria cega, deu um tapa forte no rosto dele.
O som ecoou na sala silenciosa. Ricardo sentiu a ardência na bochecha, mas a dor física não era nada comparada à dor em seu peito. Ele a encarou, o último resquício de afeto por ela morrendo naquele instante.
Ela respirava pesadamente, o peito subindo e descendo. Vendo que ele não reagiu, ela pareceu se recompor, a máscara de frieza voltando ao lugar.
"Escute aqui, Ricardo", ela disse, a voz agora controlada, mas venenosa. "É muito simples. Você vai ao hospital amanhã e diz à polícia que foi um acidente, que seu pai caiu. E você vai retirar qualquer queixa. João vai visitá-lo, pedir desculpas, e vamos todos seguir em frente."
Ele a olhou como se ela fosse louca. A audácia, a total falta de moralidade, era de revirar o estômago.
"Você quer que eu minta? Que eu diga que meu pai, um homem saudável e ativo, simplesmente 'caiu' e entrou em coma? Você quer que o criminoso que fez isso com ele o visite como se nada tivesse acontecido?"
"Exatamente", ela confirmou, com um aceno de cabeça. "É a única maneira de resolver isso sem danos."
Ricardo balançou a cabeça lentamente, um sorriso amargo nos lábios. "Você é inacreditável."
Ele olhou ao redor da sala luxuosa, para os móveis caros, as obras de arte nas paredes. Tudo aquilo parecia oco, sem vida. Ele se lembrou de quando se mudaram para aquela casa. Ana Clara era mais doce na época, ou talvez ele apenas quisesse acreditar nisso. Ela o abraçava e dizia que eles construiriam uma vida juntos. Onde estava aquela mulher? Ela realmente existiu, ou ele a inventou em sua mente para justificar sua própria passividade?
A mulher à sua frente era uma estranha. Fria, cruel e implacável. E ele percebeu, com uma clareza dolorosa, que estava casado com um monstro.
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