
O Acerto de Contas: Amor ou Dinheiro?
Capítulo 2
A festa da escola da minha filha, Sofia, estava barulhenta e cheia de vida.
Balões coloridos flutuavam por toda parte, e o cheiro de pipoca e algodão-doce enchia o ar.
Eu deveria estar feliz.
Mas um vazio me consumia por dentro.
Pedro, meu marido, tinha me ligado mais cedo.
"Amor, me desculpe, surgiu uma reunião de última hora com um cliente muito importante, não vou conseguir ir."
A voz dele soava apressada, como sempre.
"Eu sei o quanto a Sofia queria que eu estivesse aí, mas o trabalho está uma loucura, você entende, né?"
Eu murmurei um "sim" sem convicção e desliguei.
Eu entendia.
Eu sempre entendia.
Mas enquanto eu assistia Sofia correr com os coleguinhas, meu olhar cruzou o pátio e congelou.
Lá estava ele.
Pedro.
Ele não estava em uma reunião.
Ele estava ali, na festa da escola.
E não estava sozinho.
Ao seu lado, estava Joana, sua assistente.
E segurando a mão de Joana, estava o filho dela, um menino da mesma idade de Sofia.
Eles pareciam uma família.
Pedro sorria para o menino, um sorriso largo e genuíno que eu não via em seu rosto há muito tempo.
Ele se ajoelhou, ajeitou a gola da camisa do garoto e bagunçou seu cabelo com carinho.
Meu coração parou.
O ar sumiu dos meus pulmões.
Era como se o mundo inteiro tivesse desaparecido, e só existisse aquela cena, se repetindo em minha mente.
A traição não era mais uma suspeita, uma sombra no canto do olho.
Era real, sólida, e estava rindo na minha cara.
Tentei me recompor, forçando um sorriso para Sofia quando ela correu até mim, ofegante.
"Mamãe, você viu o papai?"
"Ele... ele teve um imprevisto, meu amor."
A decepção no rosto dela foi visível, mas ela era uma criança resiliente. Logo voltou a brincar.
Eu, no entanto, permaneci paralisada, observando de longe.
De repente, Joana me viu.
Ela não desviou o olhar. Pelo contrário, ela sorriu.
Um sorriso vitorioso, cheio de malícia.
Ela sussurrou algo no ouvido de Pedro, que então olhou em minha direção.
O sorriso dele desapareceu, substituído por uma expressão de pânico.
Ele pegou o celular, provavelmente para inventar mais uma mentira.
Mas já era tarde demais.
Poucos minutos depois, uma das voluntárias da festa se aproximou de mim, segurando uma bandeja.
"Ana Lúcia? A senhora Joana mandou entregar isso para você."
Na bandeja, havia um prato com um pedaço de bolo e alguns salgadinhos.
E um bilhete.
Com uma caligrafia elegante e presunçosa, dizia: "Aproveite a festa. Pedro e eu estamos nos divertindo muito."
A provocação era tão descarada que me deixou sem fôlego.
Ela não estava apenas tendo um caso com meu marido.
Ela estava esfregando isso na minha cara.
Meus dedos tremeram de raiva.
Peguei o prato e, sem pensar duas vezes, caminhei até a lixeira mais próxima.
Joguei tudo fora.
O bolo, os salgados, o bilhete.
O som do prato de papelão batendo no fundo do lixo foi estranhamente satisfatório.
Uma pequena explosão de raiva em meio à minha dor silenciosa.
Quando voltei, Pedro estava vindo em minha direção, o rosto fechado.
"O que você pensa que está fazendo?" , ele sibilou, agarrando meu braço.
"O que você pensa que está fazendo aqui?" , retruquei, a voz baixa e trêmula.
"A Joana só quis ser gentil! Ela é uma mãe solteira, Ana Lúcia, ela precisa de ajuda, de apoio! E você joga a comida que ela mandou no lixo? Na frente de todo mundo?"
A defesa dele era tão absurda, tão cínica, que eu quase ri.
" 'Mãe solteira que precisa de ajuda' ? É por isso que você está aqui com ela e o filho dela, em vez de estar com a sua própria filha?"
"Não distorça as coisas!" , ele rosnou. "Eu só dei uma passada para resolver uma coisa com ela, já estava de saída."
A mentira era tão óbvia que doía.
A discussão foi curta, mas brutal.
Ele me acusou de ser ciumenta, insegura, de não apoiar a carreira dele e as pessoas que o ajudavam.
Eu fiquei em silêncio, o coração pesado demais para formular qualquer resposta.
Ele se afastou, voltando para o lado de Joana, que o acolheu com um olhar de falsa preocupação.
Eu me senti uma idiota.
Mais tarde naquela noite, em casa, o silêncio era esmagador.
Pedro ainda não tinha chegado.
Eu rolei o feed das minhas redes sociais sem realmente prestar atenção, até que uma foto me fez parar.
Era Joana.
Ela estava posando em frente a um carro novo, um SUV de luxo, branco perolado.
A legenda dizia: "Obrigada pelo presente incrível! Mal posso esperar pelas aulas de direção. 😉"
E ela marcou o Pedro na publicação.
Aulas de direção.
Ele ia ensiná-la a dirigir.
Meu estômago se revirou.
Eu me lembrei de quando pedi a ele para me ensinar a dirigir, anos atrás.
Ele sempre dizia que não tinha tempo, que eu era nervosa demais, que era melhor eu pegar um táxi.
Então, toda a "ajuda" para a "mãe solteira" era isso.
Carros de luxo, tempo de qualidade, uma vida paralela construída às minhas custas.
A raiva que senti mais cedo na festa retornou, mas desta vez, era fria.
Calculista.
Eu me levantei, fui até o escritório de Pedro e liguei o computador.
Abri um documento em branco.
No topo, digitei com os dedos firmes:
PAPÉIS DO DIVÓRCIO.
Aquele era o fim.
E o começo da minha vingança.
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