
O Acerto de Contas: Amor ou Dinheiro?
Capítulo 3
Aquele dia na escola parecia um pesadelo se desenrolando em câmera lenta.
Cada detalhe estava gravado a fogo na minha memória.
Eu vi Pedro rindo com o filho de Joana, comprando um algodão-doce para ele.
Vi a maneira como Joana colocou a mão nas costas de Pedro, um gesto íntimo e possessivo.
Eles não pareciam um chefe e sua assistente.
Eles pareciam um casal.
Uma parte de mim, a parte que viveu anos em negação, tentou desesperadamente encontrar outra explicação.
Talvez Pedro estivesse apenas sendo gentil.
Talvez ele realmente estivesse ajudando uma colega de trabalho em necessidade.
Talvez eu estivesse imaginando coisas, sendo a esposa ciumenta e paranoica que ele sempre dizia que eu era.
Essa parte fraca de mim queria acreditar nas mentiras.
Porque a verdade era dolorosa demais para encarar.
Meu celular vibrou no bolso.
Era uma mensagem de Pedro.
"Tive que vir aqui rapidinho entregar uns documentos para a Joana. O filho dela estava triste e eu só quis animá-lo. Não pense besteira. Já estou indo."
A mensagem era tão fria, tão calculada.
Uma desculpa esfarrapada para me manter quieta.
Ele nem se deu ao trabalho de ligar, de fingir algum sentimento. Apenas uma mensagem de texto, como se estivesse falando com uma estranha.
Respirei fundo.
Olhei para a minha filha, Sofia, que agora participava de uma corrida de saco com outras crianças.
O sorriso dela era a única coisa que me mantinha de pé.
Eu não podia desabar.
Não na frente dela.
Engoli o choro, forcei um sorriso e acenei para ela, gritando palavras de incentivo.
Por ela, eu seria forte.
Por ela, eu fingiria que meu mundo não estava desmoronando.
A próxima atividade era a corrida de três pernas, para pais e filhos.
Sofia correu até mim, os olhos brilhando de excitação.
"Mamãe, vamos participar! A gente vai ganhar!"
Eu amarrei minha perna na dela, o coração apertado.
Pedro deveria estar aqui, fazendo isso com ela.
A corrida começou.
Eu e Sofia estávamos indo bem, rindo e nos desequilibrando, avançando aos tropeços em direção à linha de chegada.
De repente, senti um empurrão forte no meu ombro.
Era Joana.
Ela e o filho dela estavam competindo ao nosso lado.
O empurrão me desequilibrou completamente.
Eu caí, levando Sofia comigo.
Meu joelho bateu com força no asfalto do pátio, a dor foi aguda e imediata.
Sofia começou a chorar, mais pelo susto do que pela dor.
Joana, por sua vez, tropeçou de propósito alguns passos à frente e caiu no chão, soltando um gemido exagerado.
"Ai, meu tornozelo! Acho que torci!"
Foi uma atuação digna de um Oscar.
Em um piscar de olhos, Pedro estava ao lado dela.
Ele a ajudou a se levantar com um cuidado extremo, o rosto cheio de preocupação.
"Joana, você está bem? Consegue andar?"
Ele a amparava como se ela fosse feita de vidro.
Ele nem sequer olhou na minha direção.
Nem para mim, caída no chão com o joelho sangrando.
Nem para a nossa filha, que soluçava ao meu lado.
A frieza dele foi como um soco no estômago.
A diretora da escola se aproximou, confusa.
"O que aconteceu aqui?"
Pedro, sem hesitar, apontou para mim.
"Ana Lúcia nos empurrou. Ela está com ciúmes e agiu de forma perigosa. A corrida deveria ser anulada."
Minha boca se abriu em choque.
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
Ele não estava apenas me ignorando, ele estava me acusando.
Defendendo a amante dele e me jogando aos leões.
A diretora, sem querer criar mais confusão, concordou em cancelar a corrida daquela bateria.
Joana foi levada para a enfermaria, amparada por Pedro, recebendo toda a atenção e simpatia.
Eu fiquei para trás.
Sozinha.
Ajudei Sofia a se levantar, limpei suas lágrimas e a levei para um banco.
As outras mães me olhavam de lado, cochichando.
Algumas com pena, outras com desprezo.
Eu era a esposa louca e ciumenta.
A vilã da história.
Sentei-me no banco, o joelho latejando, mas a dor no meu coração era infinitamente maior.
Eu estava completamente sozinha, humilhada em público pelo homem que jurei amar.
Naquele momento, eu soube.
Não havia mais volta.
Não havia mais o que salvar.
O casamento tinha acabado.
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