
O acaso me trouxe você
Capítulo 3
MELISSA
Mais um dia na minha vida, isso se posso chamar de vida.
Já passaram cinco anos e continuo aqui, na mesma, dependendo da ajuda da minha mãe.
Como minha mãe diz tenho que agradecer por estar viva e que de todas as sequelas possíveis do AVC, ter ficado com uma que dá para se ter uma vida boa.
Mas se coloca no meu lugar, eu amava jogar, correr, sair, estava rodeada de pessoas que se diziam amigas e olha como estou hoje, sozinha e com meus fantasmas.
Tudo bem que me isolar e não deixar as pessoas se aproximarem ajuda bastante para isso acontecer, mas não me sinto bem em conversar.
As pessoas me olham com dó e isso me mata a cada dia um pouquinho.
Podem achar que não vejo, mas quando passo, ouço os cochichos e vejo os olhares em minha direção.
“Olha lá, a coitada não anda direito.”
Ou então.
“Tão jovem e bonita nessas condições...”
Isso é um dos motivos que me fizeram desistir de sair.
Podem pensar, "nossa como ela é fraca", ou, "ela não tentou".
Mas posso afirmar que tentei tudo que foi sugerido, fisioterapia convencional e ocupacional, passei por inúmeros médicos, psicólogos e agora querem que eu vá ao psiquiatra.
Assim que sai do hospital, tive acompanhamento primeiramente quinzenal e depois foi espaçando para mensal, bimestral, semestral e hoje é anual.
Faço uma bateria de exames para ver se não há possibilidade de formação de novos coágulos.
Usei anticoagulante por alguns meses após o ocorrido, mas com o passar do tempo não houve necessidade de continuar o uso. Além de tudo que passei e passo, aplicar a medicação na barriga era horrível.
Minha mãe nunca desistiu de tentar e para não desagradar a ela, que cuida tanto de mim, nunca reclamei.
Mas agora, depois de cinco longos anos, estou cansada de falsas esperanças e acordo todo dia já dominada pelo bichinho da tristeza.
Minha irmã, nesses últimos anos, apesar de ter alcançado o sucesso como estilista, se tornou uma pessoa amarga e arrogante.
Sempre que ela está em casa, faz questão de me lembrar da minha deficiência e da culpa de ter gastado toda a poupança, que minha mãe tinha deixado para nós, em tratamentos. Isso sem contar as vezes que ela joga na cara que só tenho os melhores cuidados ainda porque ela ajuda a mamãe.
Confesso que escutar isso só me faz sentir uma completa inútil.
Claro que ela só diz isso quando mamãe está longe, porque na frente de minha mãe, ela finge me dar força e ser a irmã exemplar que só quer o bem para sua irmãzinha caçula.
Nunca mais poderei ser quem eu era, e simplesmente não quero saber como recomeçar.
Para mim, minha vida acabou naquele jogo.
Sabe aquele sentimento que a vida estava indo para o rumo certo e, de repente, tudo acabou?
É exatamente assim que me sinto.
Estava me tornando reconhecida no esporte, tinha acabado de dar meu primeiro beijo no Renato, minha paixão desde os doze anos e iria cursar Educação Física na faculdade.
Mas depois que cai e tudo ficou escuro, perdi tudo.
Quando acordei, não era mais Melissa Carvalho, a pivô de sucesso, era apenas a sombra de Melissa, ou a coitadinha da Melissa.
Renato ainda me visitou assim que sai do hospital, mas ao me ver tentando me levantar e cair, por não ter firmeza na perna direita, ele se foi e não voltou mais.
Pensando bem, ele fez o certo, não se deve perder tempo com alguém que nem se amar mais se ama, quem dirá ao próximo.
Minhas "amigas", Tati e Carol, ligam raramente e sempre estão ocupadas entre jogar e namorar.
Nunca fizeram uma visita com mais de trinta minutos de duração e ainda ficam me olhando com pena.
Minha mãe fala que é coisa da minha cabeça, mas infelizmente não é.
Ela é a única que me vê como sempre fui.
Óbvio que ela se tornou superprotetora, mas ela sempre diz que sou capaz e que isso é só uma fase de autoaceitação.
Mal sabe ela que já passou pela minha cabeça, diversas vezes, sumir do mundo e deixar de ser um estorvo para ela, ou até mesmo para tirar essa dor que me corrói por dentro, que me consome e não me deixa viver.
Hoje vem mais um fisioterapeuta em casa e sei que vai ser mais um que irá sair correndo daqui, assim que começar os meus joguinhos.
Minha mãe bate na porta e atrás dela tem uma mocinha que deve ter minha idade. Ela é baixinha e está com o jaleco da Frozen.
Sério, só pode ser brincadeira!
Talvez ela ache que assim irá me animar ou que sou uma criança grande de vinte e um anos.
Minha mãe se aproxima com um sorriso lindo e um olhar de súplica pedindo para que eu me comporte e não faça como fiz com os outros.
Nádia, a fisioterapeuta, começa a falar com a voz fina tentando me animar e diz que se fizer todos os exercícios, irei ganhar um pirulito.
A coisa só vai piorando.
Estou completamente sem reação em ver a mulher que tem a minha idade me tratar como um bebê.
Assim que ela me toca, começo a gritar e chorar como se tivesse me machucado, inclusive simulo as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Nádia fica atônita, sem saber o que fazer e pede mil desculpas.
A cada toque seu, grito e ela se atrapalha mais.
É aparelho de choque que cai, é peso que rola pelo chão...
E eu estou como?
Rindo por dentro e interpretando por fora.
Nádia continua tentando fazer os procedimentos e eu chorando.
Não demora, ela recolhe tudo de qualquer jeito e sai correndo com lágrimas nos olhos.
Juro que até comecei a ficar com dó, mas não quero a ajuda de ninguém, ainda mais da Frozen.
Passado um tempo minha mãe entra no quarto e se senta do meu lado.
— Minha filha, o que você fez com a Nádia? Ela é um doce e foi a única a aceitar vir aqui. Já briguei no convênio e era quem estava disponível. Com ela, já são o que, oito ou nove que você dispensa de alguma maneira.
— Mãe, ela parecia uma criança vindo brincar de boneca. Achou que deixaria que ela encostasse em mim?
— Minha filha, todos que vem tem um defeito. Ou é ignorante, ou você não foi com a cara. Teve até um que você falou que cheirava chulé e te dava enjoos.
— Mamãe, mas era verdade. Ele já chegava aqui fedendo, não dava, né?
— Minha filha, não sei mais o que fazer, juro que estou entregando os pontos. — Abaixa a cabeça e sai do quarto com lágrimas nos olhos.
Eu não queria isso, mas ela não entende que quero ficar só.
Os dias passam e com eles ainda consigo dispensar dois psicólogos e um psiquiatra.
Vejo minha mãe cada dia que passa mais triste e minha irmã, que veio passar um mês em casa, mais terrível que nunca.
Mudando toda a rotina dos últimos anos, minha mãe entra no meu quarto avisando que vai se encontrar com uma amiga e que não sabe que horas voltará. Ela me dá um beijo na testa e se vai.
Fico olhando para a porta fechada e quando ela abre, minha irmã aparece toda produzida, usando saltos altíssimos.
Ela me olha com desdém depois para seus pés e diz sem qualquer culpa:
— Olha que lindo meu novo sapato. Pena que nunca usará um desses. — Dá uma gargalhada e se vai, me deixando sozinha com meus pensamentos.
Sozinha em casa, com a dificuldade que ainda possuo de me locomover pelo ambiente, mesmo com as adaptações, vou até à cozinha e como um lanche que minha mãe já havia deixado pronto.
Assim que termino, volto para a cama e para mais um fim de dia.
No dia seguinte, minha mãe me acorda com um sorriso no rosto e uma esperança no olhar.
— Minha filha, acho que encontrei quem irá te ajudar na recuperação.
— Mais um, mãe?
— Esse é diferente e você irá adorar a companhia dele. — Ela me dá um beijo e completa: — No fim da tarde, ele estará aqui. Esteja pronta. — Sai do quarto.
Fico perdida em meus pensamentos.
O que terei que aprontar para afastar esse novo profissional?
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