Capa do romance O acaso me trouxe você

O acaso me trouxe você

9.7 / 10.0
Melissa Carvalho era uma promessa do handebol até que um grave acidente em quadra a deixou sem os movimentos do lado direito. Cinco anos depois, sua trajetória cruza com a de Gustavo Curtis, um modelo e fisioterapeuta dedicado que cuida de seus pacientes com imenso carinho. Enquanto uma conexão especial surge entre eles, Melissa precisa lidar com as maldades de sua irmã invejosa, Juliana. O destino reserva surpresas intensas para esse novo casal em formação.

O acaso me trouxe você Capítulo 1

MELISSA

Cinco anos atrás...

Eu me chamo Melissa Carvalho, no auge dos meus dezesseis anos estou conseguindo conquistar tudo que almejei um dia.

Eu me apaixonei pelo handebol aos nove anos de idade, quando me foi apresentado na aula de Educação Física.

Devido ser uma criança maior que a maioria das crianças da minha idade, me destacava em esportes em grupo, e conforme o tempo passava me destacava como pivô do time de handebol da escola.

Ganhamos muitos campeonatos e meu quarto é cheio de medalhas e troféus.

Sempre ganhei como destaque do jogo ou artilheira, o que passou a chamar a atenção de olheiros de times profissionais.

No fim do colégio já tinha propostas para participar do grupo profissional em três times de grande porte, porém com sedes em outras cidades.

Moro no interior de São Paulo, em Franca, e infelizmente nenhum dos times tem sede próxima à minha cidade.

Como sou menor de idade, minha família teria que ir junto, mas minha mãe e irmã não estavam dispostas a se mudarem.

Minha mãe, Márcia, é uma mulher de muita fibra e cuida da minha irmã e de mim, com todo amor e carinho do mundo, apesar de trabalhar muito. Ela é corretora na Lua Imóveis, uma imobiliária grande na região em que vivemos, desde que meu pai nos abandonou por outra mulher, quando eu tinha apenas quatro anos.

Depois que meu pai se foi, não soube mais notícias dele e não fui atrás, pois, até as poucas lembranças que tinha dele se apagaram com o tempo.

Acredito que pela minha mãe até mudaríamos, mas minha irmã fez a cabeça dela.

Minha irmã Juliana é sete anos mais velha do que eu, e sempre agiu como se eu tivesse tomado tudo dela. Ela vive em uma "competição", sozinha, para ser a melhor.

Sozinha porque não faço parte desse tipo de competição.

Em uma linda manhã de domingo, na final do campeonato interestadual vi minha vida mudar totalmente.

Estava superfeliz, pois, seria meu último jogo pelo time da escola.

Para não parar de jogar, optei continuar jogando em um time amador, isso até conseguir entrar no time da faculdade ou completar maioridade e poder ir atrás do meu sonho.

Minha mãe, como sempre, estava na arquibancada torcendo por mim.

Estávamos ganhando de quatro a dois, quando senti uma pressão na nuca e tudo ficou escuro.

Tinha alguns lampejos de imagens, mas não sabia se estava sonhando ou não.

Escutava minha mãe me chamando, o som de sirenes, e tudo se apagava novamente.

Quando finalmente consigo manter os olhos abertos, estou em um lugar desconhecido.

Aperto meus olhos tentando compreender onde estou, afinal não é meu quarto e só consigo lembrar que estava jogando.

Começo a ficar agitada, até minha mãe chegar ao meu lado e com lágrimas nos olhos, dizer:

— Graças a Deus, você acordou, meu amor.

— Mãe, onde estou? E o campeonato? — Agitada tento me levantar e percebo que tem algo estranho, simplesmente não consigo mexer meu braço e perna do lado direito.

Começo a me desesperar e minha mãe ao perceber meu estado, me abraça.

— Calma, filha, você está viva e isso é o que importa. Calma, por favor, senão vou ter que chamar a enfermeira e vão ter que te sedar.

— Mãe, por favor, me fala o que está acontecendo? — Minhas lágrimas escorrem em meu rosto sem qualquer controle.

— Meu amor, você tomou uma bolada na nuca e tiveram que te socorrer. Você perdeu a consciência ainda no ginásio e ao chegar aqui, no hospital, constataram que teve um AVC. Mesmo com todos os socorros prestados, houve sequela, a perda dos movimentos do lado direito. Meu amor, está viva, agradeça a Deus. Teremos um longo período de reabilitação e adaptação, e quem sabe com o tratamento adequado seus movimentos retornem. Isso não é o fim.

A frase de minha mãe repetia em minha cabeça.

"Perda dos seus movimentos do lado direito..."

Acabou minha carreira, meu sonho e para mim esse é o fim.

***

GUSTAVO

Eu me chamo Gustavo Curtis, tenho dezoito anos e desde os três anos trabalho como modelo fotográfico.

Fui abordado por um agente no shopping, em um passeio de fim de semana com meus pais. O agente falou para eles que tinha potencial por ter um rosto marcante e ser bem espontâneo. Ele deu o cartão com o telefone e endereço, e pediu para minha mãe agendar um horário na agência.

Meu pai não colocou muita fé, mas minha mãe me levou até à agência escondida dele, fez o book e só contou quando apareceu meu primeiro trabalho.

Por ser um tipo exótico, como falaram, sempre aparecia trabalho e assim fui fazendo meu pé de meia.

Quando eu tinha sete anos, perdi meus pais em um acidente de carro e fui morar com minha avó, Ana Curtis, dona do Spa Curtis.

Ela sempre me mimou muito, ainda mais por ser seu único neto.

A nossa família era bem pequena, do lado materno, minha avó, Ana, e meu avô, Luiz, que faleceu antes do meu nascimento, e minha mãe, Sarah. Já do lado paterno, meus avós, José e Maria, morreram quando eu era um bebê, e meu pai, Fernando.

Com a morte dos meus pais, ficou apenas minha avó, Ana e eu.

Nos amparamos um no outro e tentamos nos reerguer das perdas da vida da melhor maneira possível.

Minha avó dizia que eu era seu raio de luz em meio a escuridão.

Mesmo muito ocupada com a administração do Spa, ela sempre me acompanhou nas seleções da agência, nas festas da escola, nos jogos de futebol e nas sessões de fotografia.

Ela sempre foi muito presente e nunca me deixou faltar amor.

Hoje posso dizer que estou onde idealizei chegar, sou agenciado por uma das agências mais fortes no mercado, a Ford, e consegui um contrato de exclusividade com uma grande marca.

Estou em uma viagem a trabalho em Barcelona, quando meu telefone toca. Logo reconheço ser o número da minha avó.

Ela todo dia me liga para saber como estou e matar um pouco a saudade.

— Alô, vozinha, tudo bem?

— Oi, Gustavo, aqui é a Solange, tudo bem?

Solange é o braço direito da minha avó no Spa e na vida. Ela sabe melhor os compromissos da minha avó, do que a própria.

— Oi, Solange, algum problema? Cadê, minha avó? — pergunto preocupado, por não ser minha avó ao telefone.

— Ela está bem agora, Gustavo. Mas ela é teimosa, subiu na escada pra pegar algo em cima do armário e caiu. Foi socorrida e está em casa, mas quebrou a bacia, terá que ficar de repouso e aí está o problema. Quem consegue deixá-la parada um momento. Ela só escuta você, meu querido. Sei que você está longe, mas precisa colocar juízo na cabeça dela.

— Fica tranquila, Solange, chegarei aí mais tardar amanhã de noite.

Desligo o telefone e converso com meu agente, Julian, para adiantar as sessões e poder voltar ao Brasil, mais precisamente para Franca, minha cidade natal.

Como esperado ele não fica nada feliz, diz que sou irresponsável e que tenho trabalhos agendados pelas próximas semanas na Europa.

Ao ver que não conseguirei voltar para o Brasil sem largar tudo, digo a ele que pode colocar outro no meu lugar, pois, voltarei o mais rápido possível.

Ele ainda me ameaça falando que minha carreira acabaria se largasse tudo.

Mas, quer saber?

Minha avó sempre em primeiro lugar.

Volto ao Brasil no primeiro voo que encontrei passagem, abandonando minha carreira de modelo internacional.

**

Assim que chego no aeroporto, logo peço um táxi e depois um ônibus de viagem sentido Franca, pois, enquanto não ver que minha amada avó está bem, não sossego.

Quando entro em casa já escuto minha avó brigando não sei com quem. Deixo minha mala no canto da sala e digo já esperando a bronca.

— Vozinha, cheguei.

Há um murmuro de algo que não entendo, mas sei que é ela xingando por terem me avisado.

— Estou aqui, meu amorzinho. Mas porque você está em casa? Seu trabalho ainda iria demorar mais dois meses.

— Vim apenas te ver. — Sei que se falar a verdade, ela vai matar a Solange, apesar dela ter certeza de que fui avisado.

Chego no quarto e a encontro deitada enquanto uma enfermeira tenta deixá-la quieta.

Percebo que a enfermeira não está maltratando minha avó, até porque ela não deixaria, mas é grossa e sem muita paciência o que me incomoda.

Abraço minha avó e digo para a enfermeira que tomarei a frente dos cuidados dela, só precisarei de ajuda na hora do banho.

E assim começo a sonhar um novo sonho.

É cuidando da minha avó que percebo minha verdadeira vocação...

Ser fisioterapeuta e cuidar da reabilitação das pessoas.

É um recomeço para mim...

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