
O Abandono em Águas Turbulentas
Capítulo 2
A tela do meu celular iluminou o quarto escuro do hotel, mostrando a previsão do tempo.
Alerta vermelho de tempestade, o mais alto.
Liguei para o meu marido, Pedro, pela décima vez.
A chamada não foi atendida.
Ao meu lado, minha irmã mais nova, Sofia, dormia profundamente, ressonando baixinho. Ela tinha vindo à cidade para um exame importante e eu reservei o melhor hotel para ela, para garantir que descansasse bem.
Mas agora, a tempestade estava a chegar e o nosso hotel ficava numa área baixa, propensa a inundações.
Precisávamos de sair.
Finalmente, na décima primeira tentativa, Pedro atendeu. Sua voz estava cheia de irritação.
"O que foi, Ana? Estou ocupado!"
"Pedro, tens de vir buscar-nos. Há um alerta vermelho de tempestade, este lugar vai inundar. A Sofia está a dormir, não a consigo acordar."
"O quê? Uma tempestade?" ele bufou, "É só um pouco de chuva. Não sejas tão dramática."
Antes que eu pudesse responder, ouvi outra voz ao fundo, uma voz que eu conhecia muito bem. Era a Clara, a filha da nossa vizinha.
"Pedro, o meu cachorrinho, o Floco, está com febre! Ele não para de tremer. Podes levar-me ao veterinário? Estou com tanto medo."
A voz dela era fraca e lamentosa.
Pedro respondeu imediatamente, o seu tom mudando de irritado para suave e preocupado.
"Claro, Clara. Não te preocupes, eu levo-te já. O Floco vai ficar bem."
O meu coração gelou.
"Pedro," eu disse, a minha voz a tremer ligeiramente, "a tua irmã está aqui. A tempestade é séria. Precisas de nos vir buscar primeiro."
"Ana, para de ser tão egoísta!" ele gritou ao telefone. "A Clara está sozinha e o cão dela está doente! É uma emergência! A Sofia é crescida, e tu também. Podem chamar um táxi. Eu tenho de ir agora."
Ele desligou.
Na minha cara.
Olhei para o telefone em silêncio. Chamar um táxi? Com o alerta vermelho, nenhuma aplicação de transporte estava a aceitar corridas. Todas as estradas em breve estariam bloqueadas.
Ele sabia disso. Ele simplesmente não se importava.
Um cão era mais importante que a sua própria irmã.
As lágrimas brotaram nos meus olhos, mas eu forcei-as a recuar. Não era hora para chorar.
Tentei ligar novamente, mas a chamada foi direta para o correio de voz. Ele tinha desligado o telemóvel ou bloqueado o meu número.
Respirei fundo, o pânico a apertar o meu peito. Olhei para a Sofia, a dormir pacificamente, alheia ao perigo iminente.
Eu tinha de nos tirar daqui.
Sozinha.
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