
O Abandono em Águas Turbulentas
Capítulo 3
A água já estava a entrar por baixo da porta do quarto de hotel.
Começou como uma pequena poça, mas rapidamente se espalhou pelo tapete.
O barulho da chuva lá fora era ensurdecedor, como se o céu estivesse a desabar sobre nós.
Agarrei nos ombros da Sofia e abanei-a com força.
"Sofia! Acorda! Temos de sair daqui agora!"
Ela resmungou e virou-se, puxando o cobertor sobre a cabeça.
"Deixa-me dormir, Ana."
"Não há tempo! O hotel está a inundar!" gritei, a minha voz quase perdida no som da tempestade.
Finalmente, os olhos dela abriram-se, confusos. Quando viu a água a subir no chão, o sono desapareceu do seu rosto. O pânico tomou o seu lugar.
"O que está a acontecer? Onde está o Pedro?"
"Ele não vem," disse eu, com a voz firme, escondendo a minha própria dor e medo. "Temos de sair sozinhas."
Rapidamente, vestimos os sapatos, a água fria a encharcar as nossas meias. Peguei nas nossas carteiras e telemóveis, metendo-os nos bolsos. Não havia tempo para malas.
Quando abri a porta do quarto, a água do corredor entrou com força, chegando já aos nossos tornozelos.
As luzes de emergência piscavam, lançando sombras estranhas nas paredes.
O alarme de incêndio soava incessantemente, um ruído agudo que se misturava com o trovão.
"Vamos para as escadas!" gritei por cima do barulho.
Agarrámo-nos uma à outra e avançámos pela água escura e lamacenta. O elevador estava obviamente fora de questão.
A escada de emergência estava apinhada de outros hóspedes em pânico, todos a tentar escapar. A água descia em cascata pelos degraus, tornando-os escorregadios e perigosos.
Cada passo era um risco.
A Sofia escorregou e quase caiu, mas eu agarrei-a a tempo. O rosto dela estava pálido de medo.
"Eu não consigo, Ana," ela choramingou.
"Consegues sim," eu disse, a minha voz mais corajosa do que me sentia. "Estamos quase lá. Continua a andar."
Finalmente, chegámos ao rés-do-chão. O lobby estava submerso. A água chegava-nos à cintura, cheia de destroços flutuantes – cadeiras, plantas, bagagens.
As portas de vidro da frente tinham sido estilhaçadas pela pressão da água.
Lá fora, a rua era um rio furioso. Carros estavam submersos, e a corrente era forte.
Um homem tentou atravessar e foi imediatamente arrastado.
Ficámos paralisadas, o horror a gelar-nos os ossos. Estávamos presas.
O meu telemóvel vibrou no meu bolso.
Era um número desconhecido.
Atendi, esperando que fosse ajuda.
"Ana?" A voz era da minha sogra, a mãe do Pedro. O seu tom era frio e acusador.
"O que é que fizeste para irritar o Pedro? Ele está furioso. Disse que o estás a incomodar com coisas sem importância enquanto ele está a ajudar a pobre da Clara."
Fiquei sem palavras.
"Estamos presas num hotel inundado," consegui dizer, a minha voz a falhar. "A água está a subir."
"Oh, por favor," ela retorquiu. "Não sejas tão dramática. O Pedro disse que era só uma chuvinha. Estás a tentar fazê-lo sentir-se culpado por ajudar uma vizinha necessitada? Que tipo de esposa és tu?"
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