
O Abandono da Noiva
Capítulo 2
Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o teto branco do hospital.
O cheiro de desinfetante era forte.
Meu corpo estava fraco, e a minha cabeça doía como se tivesse sido atropelada por um camião.
Tentei mexer-me, mas uma dor aguda na minha perna esquerda fez-me parar.
Estava engessada.
A minha mãe estava sentada numa cadeira ao lado da cama, com o rosto pálido e os olhos vermelhos e inchados.
Ela viu que eu estava acordada e agarrou a minha mão.
"Lia, finalmente acordaste."
A sua voz estava rouca.
"Mãe, o que aconteceu? Onde está o Pedro?"
Pedro era o meu marido.
A expressão da minha mãe ficou ainda pior. Ela hesitou antes de falar.
"O Pedro... ele está a cuidar da Cláudia."
Cláudia. A minha meia-irmã.
A filha do meu padrasto, que veio morar connosco há um ano.
Uma sensação fria espalhou-se pelo meu peito.
"A cuidar da Cláudia? Mas eu tive um acidente de carro. Eu liguei-lhe. Eu disse-lhe que a minha perna estava partida."
"Ele disse que a Cláudia teve um ataque de pânico por causa do acidente e que precisava dele."
A minha mãe disse as palavras devagar, como se cada uma delas lhe custasse.
Um ataque de pânico.
Eu estava num acidente de carro, com uma perna partida e uma concussão, e o meu marido foi cuidar da minha meia-irmã por causa de um ataque de pânico.
Agarrei no meu telemóvel, que estava na mesa de cabeceira.
O ecrã estava rachado, mas ainda funcionava.
Liguei ao Pedro.
Demorou muito tempo a atender. Quando finalmente o fez, a sua voz estava cheia de irritação.
"O que foi, Lia? Não vês que estou ocupado?"
Ao fundo, ouvi a voz chorosa da Cláudia.
"Pedro, a minha cabeça dói tanto. Estou com tanto medo."
O meu coração gelou.
"Pedro, eu estou no hospital. Tive um acidente."
A minha voz tremia, mas eu tentei mantê-la firme.
"Eu sei. A tua mãe disse-me. Mas a Cláudia precisa de mim agora. Ela está muito traumatizada. Não sejas egoísta."
Egoísta?
Eu era a egoísta?
"Pedro, nós somos casados. Eu sou a tua esposa."
"E a Cláudia é a minha irmã! Ela não tem mais ninguém! Tu tens a tua mãe, não tens? Para de fazer drama."
Ele desligou o telefone.
Na minha cara.
Olhei para o ecrã do telemóvel, incrédula.
Tentei ligar de novo, mas a chamada foi direta para o correio de voz.
Ele tinha-me bloqueado.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios.
A minha mãe olhou para mim, com os olhos cheios de lágrimas.
"Lia, querida..."
"Está tudo bem, mãe. Eu entendi."
Entendi tudo perfeitamente.
O meu casamento tinha acabado.
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