
O Abandono da Noiva
Capítulo 3
O meu padrasto, o Tiago, chegou pouco depois.
Ele não olhou para mim. Foi direto para a minha mãe.
"Como é que a Cláudia está? O Pedro está com ela?"
A minha mãe assentiu, sem dizer uma palavra.
O Tiago suspirou, parecendo aliviado.
"Ainda bem. Ela fica tão assustada. É bom que o Pedro esteja lá para a acalmar."
Depois, finalmente, ele virou-se para mim.
A sua expressão era fria, acusadora.
"Lia, o que é que tu fizeste? O Pedro disse que tu estavas a conduzir de forma imprudente. Quase te mataste."
Eu olhei para ele, chocada.
"Eu não estava a conduzir de forma imprudente. Um carro atravessou um sinal vermelho e bateu em mim."
"É o que tu dizes. A Cláudia está traumatizada por tua causa. Devias ter mais cuidado."
Ele não perguntou como eu estava.
Não perguntou sobre a minha perna partida.
Ele só se importava com a filha dele.
E com o facto de o meu marido estar a consolar a filha dele em vez de estar comigo.
"A Cláudia tem sorte em ter o Pedro", disse o Tiago, mais para si mesmo do que para mim. "Ele é um bom rapaz. Cuida dela como um verdadeiro irmão."
Um nó formou-se na minha garganta.
Eles não eram irmãos.
Eles não tinham qualquer laço de sangue.
O Pedro era o meu marido.
Mas naquela família, eu parecia ser a única que se lembrava disso.
A minha mãe finalmente falou.
"Tiago, a Lia é a tua enteada. Ela está magoada. Podes mostrar um pouco de preocupação?"
O Tiago bufou.
"Preocupação? Ela é adulta. E causou problemas a todos. A Cláudia está a sofrer por causa dela. O Pedro teve de largar tudo para cuidar dela. E tu? Estás aqui em vez de estares em casa a apoiar a tua enteada."
Ele olhou para a minha mãe com desdém.
"Às vezes pergunto-me porque é que me casei contigo."
Aquelas palavras atingiram a minha mãe com força.
Ela encolheu-se, o rosto a contorcer-se de dor.
Eu não aguentei mais.
"Sai daqui."
A minha voz saiu baixa, mas firme.
O Tiago olhou para mim, surpreendido.
"O quê que disseste?"
"Eu disse para saíres daqui. Agora."
Ele riu-se. Uma risada feia e desagradável.
"Esta é a tua gratidão? Depois de tudo o que eu fiz por ti e pela tua mãe?"
"Não fizeste nada por mim. E estás a magoar a minha mãe. Sai."
Ele olhou para a minha mãe, à espera que ela me repreendesse.
Mas a minha mãe ficou em silêncio, a olhar para o chão.
O Tiago abanou a cabeça, com nojo.
"Vocês as duas merecem-se uma à outra."
Ele virou-se e saiu do quarto, batendo a porta com força.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
A minha mãe começou a chorar baixinho.
Eu estendi a minha mão e segurei a dela.
"Mãe, vamos acabar com isto."
Ela olhou para mim, com os olhos cheios de lágrimas.
"O quê?"
"O divórcio. Tu e o Tiago. Eu e o Pedro. Vamos acabar com isto."
Era a única solução.
A única forma de escaparmos daquela família tóxica.
Você pode gostar





