
Nunca Mais Te Largar
Capítulo 2
O telemóvel vibrou sobre a mesa de cabeceira, a tela iluminando o quarto escuro com a notícia do meu diagnóstico: cardiomiopatia dilatada em fase terminal. O médico tinha sido direto, sem rodeios, o que, de certa forma, eu agradeci. Não havia tempo para eufemismos.
Ainda a processar a sentença, o meu olhar foi atraído pela televisão ligada sem som no canto do quarto. Um programa de celebridades exibia fotos do noivado do ano. E ali estava ela, Fiona Murray, a minha tutora, a mulher que eu amava em segredo desde que me lembrava de existir.
Ela sorria, um sorriso contido que eu conhecia bem, ao lado de um cantor pop qualquer chamado Hugo Contreras. O anel de noivado no dedo dela brilhava sob as luzes dos flashes. O meu coração, já fraco, falhou uma batida.
Fui eu que desenhei aquele anel. Era para ser o meu presente de aniversário para ela.
A traição era uma ferida aberta, mais dolorosa que a própria doença. Sem esperança, peguei no portátil. Uma busca rápida levou-me a uma organização suíça controversa, a "Aevitas". Ofereciam um programa experimental de "animação suspensa" para doentes terminais. Uma oportunidade de pausar o tempo, de escapar à dor.
Sem hesitar, preenchi o formulário de contacto. Era uma decisão drástica, irreversível, mas o que mais me restava?
A porta do quarto abriu-se de rompante. Era Fiona, acabada de chegar a casa, já passava da meia-noite. O seu rosto estava tenso, os olhos frios como gelo.
"Liam, ainda acordado? Já te disse para não me esperares."
A voz dela era cortante, sem qualquer vestígio de calor.
"Eu só queria..."
"Não importa o que querias," interrompeu-me ela. "A minha relação com o Hugo é a única coisa que importa agora. E estes teus sentimentos por mim... são doentios. Tens de parar com isto."
Cada palavra dela era um golpe. Doentios. Era assim que ela via o meu amor.
Engoli em seco, a garganta a arder. "Feliz aniversário atrasado, Fiona."
Sabia que seria o último que lhe daria.
Ela pareceu surpreendida por um momento, mas a sua expressão endureceu novamente.
"Vai dormir."
Virei-lhe as costas, escondendo as lágrimas que teimavam em cair. O meu mundo tinha desabado em poucas horas. A notícia da doença, o noivado, a rejeição cruel dela. Tudo se acumulava, um peso insuportável no meu peito.
Na manhã seguinte, o anúncio oficial do noivado estava em todos os portais de notícias. As fotos de Fiona e Hugo sorridentes inundavam a internet. No mesmo instante, recebi um email da Aevitas, confirmando a minha elegibilidade para o programa. O contraste era brutal. A felicidade dela, a minha sentença final.
Tentei ligar-lhe, uma última tentativa desesperada de ouvir a sua voz, de encontrar um pingo de compaixão.
A chamada foi para o correio de voz. Tentei outra vez. E outra. Na quarta tentativa, ela atendeu, a sua voz cheia de impaciência.
"O que é que queres, Liam?"
"Eu só... queria desejar-te felicidades. A ti e ao Hugo." A minha voz saiu embargada, fraca.
Houve uma pausa do outro lado da linha. Senti o seu ceticismo, a sua desconfiança. "Obrigada."
A resposta foi fria, distante.
Reuni as últimas forças que tinha. "Quando é o casamento?"
"No teu aniversário," respondeu ela, sem hesitar. "Daqui a um mês."
Desliguei a chamada. A resposta dela foi o golpe final. O dia do meu nascimento seria o dia da minha morte simbólica. O dia em que a mulher que eu amava se casaria com outro homem.
Você pode gostar





