
Nunca Mais Te Largar
Capítulo 3
Um flashback rápido invadiu a minha mente. Eu tinha seis anos. As manchetes dos jornais anunciavam o acidente de carro que matou os meus pais. Fiona, a melhor amiga da minha mãe e minha madrinha, apareceu no orfanato alguns dias depois. Ela ajoelhou-se à minha frente, os seus olhos, naquela altura, cheios de uma tristeza genuína e calor.
"Vou cuidar de ti, Liam. Prometo."
E ela cumpriu. Naquela primeira noite na sua casa enorme e vazia, eu não conseguia parar de chorar. Apontei para o céu escuro através da janela do meu novo quarto.
"Eu quero uma estrela. A minha mãe dizia que as pessoas que morrem viram estrelas."
No dia seguinte, Fiona trouxe-me um certificado oficial de uma organização de astronomia. Tinha comprado e batizado uma estrela com o meu nome. "Agora tens a tua própria estrela, Liam. Ela vai olhar por ti para sempre."
Naquela altura, Fiona era a minha estrela, a minha única fonte de luz e segurança.
Voltei ao presente. Olhei pela janela do meu quarto. O céu estava nublado, sem estrelas visíveis. A minha estrela, tal como Fiona, tinha desaparecido.
O telemóvel tocou. Era o diretor da Aevitas.
"Senhor Gordon, precisamos que venha à nossa clínica local para alguns exames preliminares. É um procedimento padrão."
"Exames?" A minha voz era um sussurro melancólico. "Para quê? Já não há nada para salvar."
"Compreendo o seu sentimento, senhor Gordon," disse o homem com uma voz calma e profissional. "Mas os dados que recolhemos agora são cruciais para otimizar o processo de criopreservação e aumentar as chances de uma reanimação bem-sucedida no futuro."
"Futuro..." Repeti a palavra, vazia de significado para mim. "Está bem. Eu vou."
Não tinha forças para discutir. A esperança era uma chama que se tinha extinguido.
Depois dos exames, entregaram-me uma pasta com documentos e um folheto brilhante sobre o processo. "Animação Suspensa: Uma Ponte para o Futuro". Por um instante, o meu coração acelerou. Um futuro onde talvez eu pudesse reencontrá-la? A ideia foi esmagada quase imediatamente. Ela estaria casada, feliz. Eu não teria lugar nesse futuro.
Quando cheguei a casa, a porta estava aberta. Hugo Contreras estava na sala, de camisa desabotoada, a dar ordens à empregada como se fosse o dono da casa. Fiona estava ao seu lado, e ao ver-me, a sua expressão tornou-se ainda mais fria.
"Hugo vai mudar-se para cá," anunciou ela, sem rodeios. "É melhor que te habitues."
Senti-me um intruso na minha própria casa. Subi as escadas, o coração a pesar uma tonelada. A pasta com os documentos da Aevitas escorregou-me das mãos, espalhando os papéis pelo chão.
Fiona estava logo atrás de mim. Os seus olhos fixaram-se no título do folheto. "Animação Suspensa?"
O pânico apoderou-se de mim. Ela não podia descobrir. Não agora.
"É... é pesquisa," gaguejei, apanhando os papéis apressadamente. "Para uma nova composição. Uma ópera trágica."
Ela olhou-me, os olhos semicerrados, a desconfiança estampada no seu rosto. "Uma ópera trágica? Liam, não tentes usar a morte para me manipular. Eu conheço-te."
"Não estou a manipular ninguém!" A minha voz subiu de tom, misturada com desespero.
"Estás a mentir," acusou ela, a sua voz um chicote. "Tens algum problema mental, Liam? Estás a tornar-te cada vez mais estranho."
A acusação dela deixou-me sem palavras, a dor a apertar-me o peito. Ela não acreditava em mim. Para ela, eu era apenas um mentiroso com problemas mentais.
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