
Nunca Mais Serei Sua
Capítulo 2
O barulho da festa era ensurdecedor, mas para Sofia, o único som que existia era a risada de seu marido, Bruno, vindo do outro lado do salão. Ela alisou o vestido sobre a barriga de três meses, sentindo um calafrio percorrer sua espinha, apesar do calor do ambiente. Havia algo errado no ar, uma tensão que ela sentia desde que chegaram.
O motivo da tensão tinha nome e sobrenome: Bianca, a ex-namorada de infância de Bruno. Ela estava ali, no centro de um círculo de amigos, parecendo frágil e desamparada. Sofia tinha visto Bruno correr para o lado dela assim que entraram, deixando-a sozinha perto da mesa de bebidas.
Ela tentou ignorar, dizer a si mesma que estava sendo paranoica. Bruno a amava. Eles estavam casados, iam ter um filho. Bianca era apenas o passado. Mas o olhar que Bruno lançava para Bianca, um misto de preocupação e carinho, era um olhar que ele não dirigia a ela há muito tempo.
De repente, um burburinho começou. Voze altas, acusações. Sofia se aproximou, o coração martelando no peito. Um homem desconhecido, com o rosto vermelho de raiva, apontava para Bianca.
"Você não tem vergonha? Depois de passar a noite comigo e meus amigos, você vem para a festa do seu ex e se faz de santa?"
O silêncio caiu sobre o salão. Todos os olhos se viraram para Bianca, que começou a chorar, negando com a cabeça.
"Não é verdade! Ele está mentindo!"
Sofia sentiu um pingo de pena de Bianca, mas antes que pudesse processar a cena, Bruno agiu. Ele se colocou na frente de Bianca, protegendo-a com o próprio corpo.
"Peça desculpas a ela. Agora." A voz de Bruno era baixa e perigosa, dirigida ao homem que fez a acusação.
"Pedir desculpas? Eu? Ela que é uma..."
Bruno não o deixou terminar. Um soco rápido e preciso acertou o queixo do homem, que cambaleou para trás, chocado. A confusão se transformou em caos. Amigos do homem vieram para cima de Bruno, e uma briga generalizada começou.
Sofia ficou paralisada, observando seu marido defender a honra de outra mulher com uma ferocidade que ela nunca vira antes. Ele a empurrou para o lado, para longe do perigo, mas seu foco era um só: Bianca. Ele segurou o rosto dela entre as mãos, a voz subitamente gentil.
"Você está bem? Ele te machucou?"
Bianca soluçava, agarrando-se a ele como se fosse sua tábua de salvação.
"Bruno, eu não fiz nada... Eu juro."
"Eu sei. Eu acredito em você."
Aquelas palavras atravessaram o coração de Sofia. "Eu acredito em você." Ele nem sequer hesitou. A noite que Bianca supostamente passou com estranhos não importava. A única coisa que importava era protegê-la.
A segurança do local finalmente interveio, separando a briga. O homem que acusou Bianca foi expulso, gritando obscenidades. Bruno, com o lábio cortado e a roupa amarrotada, continuava a consolar Bianca, ignorando completamente a presença de sua esposa grávida.
Foi então que o olhar de Bruno encontrou o de Sofia. Havia algo frio, calculista, em seus olhos. Ele se afastou de Bianca e caminhou até ela. Por um momento, ela pensou que ele ia perguntar se ela estava bem.
Em vez disso, ele agarrou seu braço com força.
"O que você está olhando?" ele sussurrou, a voz cheia de raiva contida. "Não vê o que está acontecendo?"
Sofia puxou o braço, chocada.
"O que eu estou olhando? Bruno, você acabou de brigar por causa da sua ex-namorada! Você nem perguntou se eu estava bem!"
A expressão de Bruno se tornou ainda mais sombria. Ele olhou ao redor, para os rostos curiosos que os observavam. E então, ele fez o impensável.
Em voz alta, para que todos ouvissem, ele disse:
"Talvez eu devesse perguntar a você onde esteve noite passada. Talvez aquele cara estivesse te procurando e se confundiu."
O mundo de Sofia parou de girar. O ar foi roubado de seus pulmões. Ele não podia estar falando sério. Não podia.
"O quê?" ela gaguejou, a voz um fio.
"Todo mundo sabe como você era antes de casarmos," ele continuou, a voz cruel cortando o silêncio. "Talvez velhos hábitos demorem a morrer."
As pessoas ao redor começaram a cochichar. Os olhares de pena se transformaram em olhares de desprezo e julgamento. Ele a estava usando. Estava manchando a reputação dela para limpar a de Bianca. Estava sacrificando sua esposa e o filho que ela carregava no altar da imagem de sua amada de infância.
Sofia olhou para o rosto dele, o rosto que ela amou com toda a sua alma, e não viu nada além de um estranho frio e egoísta.
"Bruno, como você pode?" as lágrimas finalmente vieram, quentes e amargas. "Eu estou grávida! Esse filho é seu!"
Ele riu, um som seco e sem humor.
"É mesmo? Agora eu já não tenho tanta certeza."
Essa foi a facada final. A dor era tão intensa que se tornou física. Sofia sentiu o chão sumir sob seus pés. O amor incondicional que ela sentia por ele se desfez em um instante, virando pó, cinzas. No lugar dele, um vazio gelado se instalou.
Ela o olhou uma última vez, não com amor, não com raiva, mas com uma clareza terrível. Ela via a verdade. Ele nunca a amou. Ela era apenas conveniente, um lugar seguro enquanto ele esperava por Bianca. E agora, ela e seu filho eram descartáveis.
Sofia se virou e caminhou para fora do salão, cada passo uma tortura. Os sussurros a seguiam, marcando-a a ferro quente: "adúltera", "golpista". O filho em seu ventre, antes uma promessa de felicidade, agora era rotulado como "bastardo" pelo próprio pai.
Naquela noite, Sofia não apenas perdeu o marido. Ela perdeu a inocência, perdeu a fé no amor e fez um juramento silencioso. Ela protegeria seu filho. E nunca, jamais, perdoaria Bruno. O amor estava morto. E algo novo, duro e resiliente, começava a nascer em seu lugar.
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