
Nova Vida, Novo Amor
Capítulo 2
O cheiro de couro novo e de arrogância encheu a garagem quando cheguei em casa. Um Porsche 718 vermelho, brilhando sob a luz fria do LED, estava estacionado no meu lugar. Ao lado do carro, Lucas, o estagiário da minha esposa, sorria, passando a mão pela lataria como se fosse a pele de uma amante.
Helena, minha esposa, estava ali, com os braços cruzados e um sorriso que ela descreveria como "maternal", mas que eu via como pura presunção.
"O que você acha, Caio? Um pequeno incentivo para o nosso garoto prodígio", ela disse, sua voz soando alta demais no silêncio do concreto.
Lucas se virou para mim, o sorriso se alargando. "A chefe é a melhor, não é? Ela sabe como reconhecer um verdadeiro talento."
Eu não respondi, apenas olhei para o carro, depois para Helena. Aquele espaço na garagem era meu. O carro que eu usava para ir e vir do meu trabalho "modesto" como gestor de projetos em uma construtora de médio porte estava agora estacionado na rua. Senti uma pressão no peito, uma humilhação silenciosa que queimava lentamente. Para qualquer um de fora, eu era apenas o marido de Helena, a arquiteta genial. Ninguém sabia que a construtora onde eu trabalhava era apenas uma fachada, uma pequena peça do meu império imobiliário.
Mais tarde, dentro de casa, a tensão era palpável. Eu esperei ela terminar seu banho e a confrontei no quarto.
"Um Porsche, Helena? Para um estagiário?"
Ela riu, um som que me irritou profundamente.
"Ah, Caio, não comece. É só um presente de incentivo. Você sabe como o Lucas é promissor, preciso manter ele motivado."
"Motivado ou mimado? Há uma grande diferença. Você está passando dos limites", eu disse, tentando manter a calma.
"Você está com ciúmes", ela retrucou, me olhando com desdém. "Ciúmes de um garoto? Isso é patético."
As palavras dela foram diretas. Patético. Sentei-me na beirada da cama, o colchão afundando sob o meu peso. Lembrei-me do início do nosso casamento, quando mal tínhamos dinheiro para mobiliar nosso primeiro apartamento. Nós prometemos um ao outro que, não importava o quão bem-sucedidos nos tornássemos, nosso relacionamento, nossa parceria, seria sempre a prioridade número um. Prometemos que nunca deixaríamos o dinheiro ou o sucesso dos outros entrar entre nós. Aquele Porsche vermelho na garagem era a prova de que essa promessa estava morta.
Naquela noite, não consegui dormir. A imagem de Lucas sorrindo e a risada de Helena ecoavam na minha cabeça. A humilhação deu lugar a uma frieza calculista. Se ela não entendia por palavras, talvez entendesse por ações. Peguei meu celular e disquei um número que Helena não conhecia.
"Ricardo? Preciso de um favor. Sabe aquele projeto da Orla, da construtora Vértice? O principal cliente deles... quero que você o traga para a nossa mesa. Ofereça o que for preciso."
Do outro lado da linha, a voz do meu braço direito soou confiante. "Considere feito, chefe."
A Vértice era uma das principais parceiras de Helena. Tirar esse cliente deles significaria um golpe financeiro indireto em seus projetos. Era um movimento pequeno, um aviso.
Dois dias depois, Helena chegou em casa furiosa. Ela jogou a bolsa no sofá com força.
"Você não vai acreditar no que aconteceu! A Vértice perdeu o contrato da Orla! O cliente simplesmente mudou para a sua empresa! Que coincidência ridícula é essa?"
Ela me encarava, esperando uma reação. Eu a olhei, com a expressão mais neutra que consegui forjar.
"É mesmo? Que pena para eles. Negócios são assim, Helena. Às vezes se ganha, às vezes se perde."
"Não me venha com essa! Isso é loucura! Você está sabotando o meu trabalho por causa de um carro? Você está destruindo o que construímos juntos!"
Seu rosto estava vermelho de raiva. Ela não via a ironia em suas palavras. Ela falava sobre "destruir o que construímos juntos", mas foi ela quem estacionou um Porsche vermelho na nossa garagem, destruindo a confiança que era a base de tudo.
Eu me levantei e caminhei até ela. Meu coração estava pesado, uma dor surda e constante, mas meu rosto permaneceu uma máscara de calma.
"Eu não estou destruindo nada, Helena. Apenas estou mostrando a você que ações têm consequências. O problema não é o carro, é a falta de respeito. É você colocar um estagiário acima de mim, acima do nosso casamento."
Ela ficou em silêncio, chocada com a minha frieza. Pela primeira vez, ela pareceu perceber que o marido "submisso" que ela achava que conhecia tinha outros lados. A guerra havia apenas começado.
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